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Rio de Janeiro, RJ, 04.09.10 |

Sem, só

- Censo Demográfico 2010, boa-tarde.

- Quer o quê, cara-pálida?

- Senhor, conforme amplamente divulgado e cartaz afixado no quadro de avisos de seu condomínio, tomarei apenas minutos de seu precioso tempo com algumas perguntas importantes para efetuar grande retrato em extensão e profundidade da população brasileira.

- Vaza, mané.

- Desculpe-me, Senhor, responder ao Censo é obrigatório por lei.

- Entra, senta aí e desembucha.

- Obrigado, Senhor. Quantos moram aqui? Idade? Renda? Grau de instrução? Imóvel próprio ou alugado? Sua cor?

- Eu, trinta velinhas, mil merrecas, ensino médio aos trancos, cafofo alugado, adoro vermelho.

- Sua cor da pele.

- Ah, não tá vendo? Sou neguinha.

- Muito obrigado. É só. Não disse que era rápido?

- Como assim? Só isso?

- Por sorteio este imóvel teve escolhido o questionário simplificado.

- Você acha que eu não sou importante o suficiente para dar opinião sobre a sociedade, o futuro do país e minha cor predileta? Sobre o meu gato não vai perguntar nada? É por que eu sou preto, pobre, gay e moro longe?

- De maneira alguma, Senhor. O Censo agradece a sua colaboração.

- Daqui você só sai, Santa, depois de anotar nessa prancheta toda a minha vida. Sem essas informações o governo não poderá analisar a real situação da nação, os gargalos do mercado de trabalho, o racismo, a homofobia e a necessidade de políticas públicas voltadas para os animais de estimação.

- O Senhor tem razão. Pode falar, estou anotando.

- Ah, bom. Blá blá blá então, blá blá blá escutou? blá blá blá não esquece: blá blá blá anotou tudo?

- Mais alguma coisa?

- Já ia me esquecendo de algo importantíssimo. Marca aí que bebo, fumo, tomo antidepressivo e como chocolate diariamente, mas tudo pouquinho, tá?

- Perfeito, Senhor. Muito obrigado.

- De nada, Bem. Quer um cafezinho?

- Seria uma honra. Infelizmente tenho muitas casas para visitar.

- É pena. Bom trabalho.

- Grato, grato, o Senhor é muito gentil.

Já na rua, sob sol escaldante, consultou a prancheta e pensou: Caraca, gastei duas horas com aquele viado nojento. Tô fudido, ainda tenho nove apês para visitar.

Passou pela lixeira e depositou mais uma estatística cega.

***
SOBRE A AUTORA: *CATARINA CUNHA Escreve desde os 10 anos poemas e contos. Foi finalista do Concurso "Contos do Rio", do jornal O Globo, em 2006. Trabalhou como bancária e advogada. Ganhou o Primeiro Lugar no 1º Concurso Crônicas Cariocas, promovido pelo portal Crônicas Cariocas e pela Universidade Castelo Branco, em 2008, e como parte do prêmio, passa a assinar uma coluna aos sábados neste espaço. BLOGUE OU SITE PESSOAL: www.gavetaverde.blogspot.com - CONTATO: catarinacunha@gmail.com ]]
 


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