A malcriada

by Luciano Fortunato | 10/07/2017 19:59

Numa noite fria de inverno, debaixo de quatro cobertas, eu e Kate assistimos a um filme que pedi para me gravarem num DVD. O filme é A CRIADA, de Chan-wook Park (o consagrado diretor dos excelentes e não menos surpreendentes “Oldboy” e “Lady Vingança”). Fazia tempo eu não via um filme inteiro com companhia feminina, tendo agora isso se dado exatamente com um thriller oriental feminista – não sei mais se, como homem, tenho autorização para proferir esta palavra, eu que pensava ser feminista como John Lennon, mas não sou.

O filme é, numa palavra, belíssimo. Está no naipe das melhores e mais inventivas e ousadas direções e produções. Lembra, de alguma forma, o trabalho de alguns diretores. Poderia ter sido dirigido pelo falecido Kubrick, se em vez de um herói estuprador (o Alex, de Laranja Mecânica) o protagonista fosse uma lésbica. Poderia ter sido dirigido por Lars von Trier, se tivesse imagens minimalistas e narrativa mais lenta, o que não é o caso, já que o filme ostenta uma impressionante sofisticação “barroca” e um ritmo bem linear no roteiro, a despeito das digressões. Por Tarantino, se este não preferisse sangue a líquido vaginal. Por David Lynch, se o filme fosse mais comedido e desse o famoso pau na mente, o que não ocorre, por ser bastante inteligível. Talvez um Almodóvar mais maduro e nascido no oriente fizesse um filme assim. Mas isso não é tão provável. Um Hitchcock reencarnado na Coreia talvez tivesse a habilidade para uma empreitada como este A Criada. O fato é que o filme de Park – talvez seu melhor e, sem dúvida, o mais apurado tecnicamente –, apesar de trazer um monte de quase clichês do melhor do cinema ocidental, como o uso de flashbacks, se coloca à frente da maioria do que tem sido filmado no cinemão. O filme é imponente. Fotografia exuberante, de tirar o fôlego mesmo. Um filme grandioso, mas sem as responsabilidades morais que se esperam de um filme de orçamento caro. É delicado e sensível, porém conduzido por um fio de sarcasmo do começo ao fim. Enfim, uma experiência psicológica por excelência. E cinematográfica, é claro. A trama? Discutimos isso em outro momento. Ah… não é para qualquer público. Se você é homofóbico, por exemplo, ou se incomoda com cenas intensas de sexo – um dos pontos altos do filme – passe longe dessa película.

 

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