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A Vigilante do Amanhã – Ghost in the shell

Antes, havia a imaginação. Com o tempo surgiram as necessidades. Hoje é praticamente corrente o uso de robôs, tanto para os serviços repetitivos, como para os pesados e perigosos ou, ainda, para a redução de custos e o aumento da produtividade. Mas, se você está pensando naquele robô tipo humanoide, esqueça, pelo menos por enquanto.

Os robôs, tal como os conhecemos hoje, são apenas máquinas. Eles não têm sentimentos, não se cansam, não tem desejos, muito menos problemas de consciência. E, por mais surpreendente que pareça, os robôs têm uma relação de subserviência com a humanidade. Aliás, isso acontece desde o início: o termo ‘robô’ tem como raiz a palavra Checa ‘robota’, que significa trabalho forçado ou servidão. Chega a ser pitoresco, até meio paradoxal, não é? Mas, se lembrarmos que faz parte da natureza do ser humano subjugar, ele não poderia deixar passar essa oportunidade.

E olha, que interessante: em 1950, quando o escritor e bioquímico Isaac Asimov, nascido na Rússia, mas com nacionalidade americana, lançou a obra de ficção científica ‘I, Robot’ [Eu, Robô], já se pensava na coexistência dos robôs com os seres humanos e na prevenção dos perigos que a tal inteligência artificial pudesse representar para a humanidade. E foi o próprio Asimov quem idealizou as três famosas Leis da Robótica:

  1. Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.
  2. Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.
  3. Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.

Posteriormente, por conta das inúmeras investidas na ficção científica, com tramas e personagens  cada vez mais complexos e envolvidos no mundo cibernético, Asimov (que escreveu mais de 500 livros) acrescentou a ‘Lei Zero’, acima de todas as outras: um robô não pode causar mal à humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal.

Certamente que as tais ‘Leis da Robótica’ não são exatamente leis no mundo real, mas até poderiam ser, pelo menos no imaginário popular. E, nesse caso, uma dúvida razoável perturbaria a mente das pessoas: afinal, o livre-arbítrio – aquela capacidade de responder à questão que aflige os seres humanos sobre o que fazer – está a cargo do robô ou do seu criador?

Mas, o homem não descansa e, devido aos contínuos avanços na área da inteligência artificial, a robótica atravessa uma época de contínuo crescimento que permitirá, em um curto espaço de tempo, o desenvolvimento de robôs cada vez mais inteligentes fazendo assim a ficção do homem antigo se tornar a realidade do homem do futuro.

Esse é o universo mostrado pelo diretor de cinema britânico Rupert Sanders (‘Branca de Neve e o Caçador’) em ‘A Vigilante do Amanhã – Ghost in the Shell’ [Ghost in the Shell], misto de ação,  fantasia, mistério e ficção científica, baseado no mangá homônimo de Masamune Shirow e no anime de Mamoru Oshii, grandes sucessos no Japão.

Trata-se de um mundo pós-2029, no qual é bastante comum o aperfeiçoamento do corpo humano a partir de inserções tecnológicas. O ápice desta evolução é a Major Mira Killian (Scarlett Johansson), uma ciborgue que teve seu cérebro transplantado para um corpo inteiramente construído pela Hanka Robotics, empresa à frente das pesquisas que visam aperfeiçoar humanos a partir de peças robóticas. Contra a vontade da cientista responsável, Dra. Outlet (Juliette Binoche), o CEO da Hanka, Cutter (Peter Ferdinando), decide treinar Mira como um soldado.

Considerada o futuro da empresa, Mira logo alcança o posto de Major e é inserida na Seção 9, um departamento da polícia local especializado no combate a crimes cibernéticos. Lá ela passa a combater ‘hackeadores de mente’, sob o comando de Daisuke Aramaki (Takeshi Kitano), tendo Batou (Johan Philip Asbaek) e Togusa (Ng Chin Han), uma equipe multiétnica, como parceiros.

Em meio às investigações sobre o assassinato de executivos da Hanka, Mira começa a perceber certas falhas em sua programação, que a fazem ter alucinações do passado, quando era inteiramente humana. Por conta disso, ela inicia investigações e se depara com Kuze (Michael Pitt), o vilão da vez, desafiando seus superiores e colocando em risco, não só seu futuro, como o da própria empresa que a criou.

‘Ghost in the Shell’, o mangá (história em quadrinhos japonesa) de 1989, que deu origem a produções homônimas em diferentes mídias, sofreu forte influência do cyberpunk, um subgênero de ficção científica, onde a alta tecnologia e o baixo nível de vida fazem a festa da juventude contemporânea japonesa, que vislumbra nesses personagens uma espécie de pichadores virtuais. Tudo a ver, lembrando-se que os mangás são um espelho difuso do Japão, onde realizar protestos contra a sistemática vigente das grandes corporações, ainda que na dimensão virtual, é muito recompensador.

Esse universo é sombrio, com  personagens marginalizados, transitando num futuro distópico, onde a  alta tecnologia – que domina tudo e todos – aliada a elementos da cultura pop, como a música eletrônica, embaçam o ambiente, transitando indistintamente entre o virtual e o real. Grandes corporações substituíram o Estado como centros de poder, denunciando os perigos da ‘corporocracia’. Questões filosóficas se sobressaem, expondo a posição do indivíduo, isolado e excluído das decisões – frente a um sistema totalitário e opressor.

A manutenção do título em inglês na distribuição brasileira instiga a imaginação: por que ‘A Vigilante do Amanhã – Ghost in the Shell’? Provavelmente porque Major, a protagonista, seja realmente um fantasma, um fantasma na concha, mantida sua humanidade graças à preservação de seu cérebro, a única parte não fabricada de sua nova configuração terrena. Aliás, uma das características típicas do gênero cyberpunk é a ligação direta entre o cérebro humano e os sistemas de computador. E aí, aflora a questão que não quer calar: quem dominará esse futuro?

 

“Os computadores são incrivelmente rápidos, precisos e burros; os homens são incrivelmente lentos, imprecisos e brilhantes. Juntos, seus poderes ultrapassam os limites da imaginação.” Albert Einstein

 

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Sobre o autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

LUCIA SIVOLELLA WENDLING é advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Esta autora escreve sobre cinema.

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