Cinema

Budapeste: atores falam do filme homônimo de Chico Buarque

Erika Liporaci
Escrito por Erika Liporaci

Aconteceu na última terça, dia 12, a coletiva de imprensa de Budapeste, aguardada versão cinematográfica do livro homônimo de Chico Buarque. Estavam presentes o diretor Walter Carvalho, a produtora e roteirista Rita Buzzar e os atores Leonardo Medeiros, Giovanna Antonelli e Gabriella Hámori. Walter Carvalho iniciou o encontro apresentando os demais e elogiando o pulso firme e dedicação de Rita, que o convidou para assumir a direção do longa e se empenhou na realização de cada etapa dele.

Aberto o debate, tive a oportunidade de inciar com a primeira pergunta. Considerando a naturalidade com que o ator fala húngaro em grande parte do filme, quis saber de Leonardo Medeiros como havia sido a experiência de filmar em Budapeste e interpretar em húngaro.

“O húngaro é uma língua muito diferente da nossa. As raízes linguísticas, a estrutura de formação de frases, as composições… É uma língua que não tem nenhum parâmetro de reconhecimento para a gente. É especialmente complexa e, ao mesmo tempo, de uma beleza ímpar. Parece que você está falando poemas, versos. Eu rapidamente percebi que ia ser uma tarefa muito difícil, para não dizer impossível, e me dediquei quase exclusivamente a entender e interpretar as falas do filme. Mesmo assim, naqueles momentos em que eu falo realmente não dá para saber o que acontece. É um mergulho no vazio, porque no momento em que eu estava falando se parasse para pensar, iria travar. Se eu traduzisse para o português, iria travar. Falar húngaro, não ia conseguir. Então, ali é um momento que implica em algum tipo de magia.”

Perguntado sobre a eterna discussão entre “filme de mercado” e “filme de autor”, Walter Carvalho deixou claro que não é adepto deste tipo de separação. O diretor esclareceu que, embora Budapeste tenha potencial para atingir um público amplo, acredita que existe uma forte carga autoral no longa e que não vê sentido em segmentar os filmes em classificações rígidas como essas:

“Na verdade, são filmes. E deveriam ser considerados apenas filmes (…) É uma coisa muito perigosa você eleger tipos de filmes e colocar em prateleiras.”

Rita Buzzar reforçou o argumento, ao dizer que não vê sentido na postura dos que consideram filme de autor como um mero sinônimo de pouco público.

“O cinema de autor é a cereja do bolo. É a coisa mais difícil do mundo fazer um filme que tenha uma marca própria, uma precisão dessas. Porque autor todos os diretores são, à medida que fazem filmes. Mas essa marca, essa cereja no bolo, é uma coisa muito específica. Então eu acredito em bons filmes. Assim como não acredito em dizer de antemão que determinado filme vai dar dois milhões de espectadores, porque cinema é risco. Se você faz um filme porque acha que vai dar público, pode não não dar (…) Cinema é muito complexo, há uma grande quantidade de variáveis num filme até você conseguir chegar ao lançamento. É insano. Muitos filmes são feitos, e poucos conseguem chegar onde todo mundo quer, que é na visibilidade, no imaginário das pessoas.”

Walter Carvalho, complementando sobre a questão autoral, disse acreditar que é o plano que define o cinema: “Colocar uma câmera num determinado ponto de vista e registrar uma situação de emoção de um filme é uma bandeira que você coloca num território. A câmera só pode ver um momento de cada vez, e a atitude de colocar a câmera em um determinado ponto é onde reside a autoria de um diretor.”

Já a atriz húngara Gabriella Hámori, para quem o livro foi traduzido, contou que a obra literária de Chico é tão conhecida na Europa quanto sua música. A seguir, a moça elogiou o diretor e o ressaltou o quanto este a deixou à vontade em seu processo criativo. No que Giovanna Antonelli, simpaticíssima, fez coro e elogiou a liberdade criativa que recebeu de Carvalho.

Esgotado o sempre escasso tempo para as perguntas e encerrada a coletiva, Rita Buzzar fez a gentileza de me responder a uma última pergunta (essa exclusiva). A questão era o fato dela ter lido o livro em uma única noite e desde já ter tomado a decisão imediata de tornar realidade sua versão para o cinema. Quis saber de Rita o que tanto a apaixonou na época:

“Eu tinha acabado de sair do Olga, uma história de uma mulher com todas as coisas do mundo contra ela, uma história real, com rigor histórico. E de repente no Budapeste, todos os problemas do personagem são internos nele. E quando eu li me empolguei com isso, porque é legal realizar outros desafios. No Olga não precisei viajar, a gente fez Alemanha e Rússia aqui no Rio de Janeiro mesmo. Só que no caso do Budapeste a cidade, assim como a língua, é personagem. E eu tinha ficado com essa coisa da co-produção na cabeça, engasgada de não ter conseguido no Olga, e pensei ‘vou ter que conseguir co-produção pra gente filmar em Budapeste’. E deu certo.”

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Sobre o Autor

Erika Liporaci

Erika Liporaci

*ERIKA LIPORACI é graduada em Jornalismo, pós-graduada em Artes Cênicas e especialista em cultura e língua italiana.

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