Críticas Lucinha no Cinema

45 Anos

Kate Mercer (Charlotte Rampling) está planejando a festa de comemoração dos 45 anos de casada. Cinco dias antes do evento, o marido, Geoff Mercer (Tom Courtenay), recebe uma carta: o corpo de seu primeiro amor, sua Katya, foi encontrado congelado e intacto, depois de um acidente ocorrido há 50 anos, no Alpes Suíços. A estrutura emocional dele é seriamente abalada e Kate já não sabe se vai ter o que comemorar durante a festa.

Por que, afinal de contas, os casais precisam celebrar bodas de casamento? E, ainda por cima, na frente de tantas pessoas? Dizem que é para renovar os votos, as promessas do casamento. Mas vem cá: quem se lembra mesmo das promessas feitas há 45 anos? Ainda vale a pena renovar promessas que você foi instado a trocar, senão não haveria casamento?

Ah! Sinceramente, as pessoas se levam muito a sério. É pior, mentem descaradamente para si próprios e com audiência!!

Essas e outras questões me cutucaram durante a exibição do drama “45 anos” de Andrew Haigh, diretor britânico, responsável também pelo roteiro, e que anteriormente dirigiu “Looking” e “Weekend”. E, não por acaso, os três longas tratam de relacionamentos.

Pelas estatísticas dos terapeutas de casais, das páginas criminais e dos advogados de família, relacionamentos podem gerar problemas. Mais cedo ou mais tarde vai surgir uma dúvida, uma suspeita, uma fofoca, uma notícia do passado. Num casamento, o passado está sempre sendo alterado. Não há como impedir isso.

E é também o passado que detona o relacionamento de Kate e Geoff. Na verdade, ninguém pode dizer que aquele casamento ia bem, apesar das bodas de 45 anos, cuja celebração se aproxima, mas que só ela dela se ocupa. Eles vivem, como qualquer casal maduro, já aposentados, sem expectativas, sem cobranças. Encontram amigos, passeiam com o cachorro, sobrevivem com suas dores, suas lembranças. Não há filhos, o que aumenta a sensação de isolamento, de solidão, de uma espécie de egoísmo nos casais da espécie: não te peço, não me cobre.

Há uma sensação de desapontamento, de descobertas, de amargura quando o passado retorna, cobrando explicações. Afinal, ele era o parente mais próximo dela. Já passou, é passado, mas não está enterrado. Aliás, há muitas coisas mal resolvidas, acasos sem explicações, lembranças esquecidas nos sótãos e gavetas do passado, prontas para implodir a aparente harmonia a qualquer toque.

A performance dos atores é perturbadora, especialmente de Charlotte Rampling, e não foi sem motivos que ambos ganharam os prêmios de melhor ator e atriz, o Urso de Prata, no Festival de Berlim de 2015. Eles já haviam trabalhado juntos em ‘Trem noturno para Lisboa’, de Billle August, em 2013. “45 anos” é baseado no conto ‘In Another Country’ de David Constantine. O título do conto diz muito da estória contada no filme. Longe dos olhos …

Não adianta imaginar como teria sido se a primeira namorada não tivesse morrido. Talvez o melhor do filme tenha sido justamente tratar disso sem discussões, sem palavras jogadas ao vento. Há, em contrapartida, muito olhares questionadores, enciumados e silêncios sofridos, melancólicos. Como não se solidarizar com essa notícia, com essa recordação? A cena final é uma obra aberta. Pode ser uma coisa ou outra. Parece, na verdade, um pequeno resumo da vida de Kate. Viver por si só é muito difícil. Viver a dois então…

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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