Críticas Lucinha no Cinema

A Bruxa

Tenho que admitir, o gênero terror não me atrai. Normalmente passo longe desses estórias de pavor, pânico, grandes sustos. Mas, não resisti ao ‘bonequinho aplaudindo de pe’. E, eis que me vejo sentada no escurinho do cinema, esperando, um tanto ou quanto ansiosa, a sessão de ‘A bruxa’ começar. Os sustos virão de pronto ou aos pouquinhos? Espero não passar vergonha, com gritos e solavancos na poltrona.

Mas o terror propriamente dito não veio. Na verdade, o que se sente, desde os primeiros acordes sonoros, é um clima de mistério e de suspense psicológico surgindo aos poucos, não só pelo ambiente, coalhado de sons e sombras da natureza, como pela eficiente trilha sonora e pela tensão crescente no semblante dos personagens.

A estória se passa na Nova Inglaterra, década de 1630, numa comunidade extremamente religiosa, que expulsa a família de colonos ingleses, formada pelo casal William (Ralph Ineson) e Katherine (Kate Dickie), sua filha adolescente Thomasin (Anya Taylor-Joy), o filho Caleb (Harvey Scrimshaw) e os gêmeos fraternos Mercy (Ellie Grainger) e Jonas (Lucas Dawson), devido ao crime de heresia.

A família passa a morar num local inóspito, à beira de um bosque soturno e estéril, sofrendo todo tipo de escassez. Um dia, o bebê recém-nascido desaparece. Teria sido levado por um lobo ou por uma bruxa?

Quem quer que tenha prestado atenção, tanto nas primeiras imagens, quanto nas últimas, se lembrará dos letreiros alertando que o roteiro é baseado em relatos registrados por jornais e documentos de tribunais da época, assim como em estórias do folclore daquela região.

Levando-se em conta a religiosidade exacerbada vigente no século XVII, bem como as vertentes de puritanismo, fanatismo, misticismo e a ignorância reinante, é perfeitamente possível imaginar o quadro de histeria coletiva derivado de tais episódios.

Por conta do isolamento, do pecado e da culpa, há uma total inversão de valores, e o mistério, a sugestão e o delírio assumem o imaginário dos personagens, exibindo o pior do ser humano, inibindo qualquer discernimento razoável e racionalmente esperado.

Este filme, decididamente, não vai ser do agrado de um espectador comum de terror, interessado em sustos fáceis, violências de adolescentes ou serial-killers munidos de serras elétricas.

Há que se abrir corações e mentes para visualizar um filme inquietante, da chamada arte gótica, com enredo sobrenatural, ambientado em cenário sombrio, medieval, discutindo perspectivas sobre a existência, os dogmas religiosos, a solidão, a melancolia, o misterioso, o diabólico.

É razoável imaginar, ainda, que o diretor e roteirista americano Robert Eggers, premiado pela direção do longa no Festival de Sundance de 2015, tenha se inspirado nos primeiros ‘contos de fadas’, os quais, diferentemente do que se possa imaginar, não foram escritos para crianças, muito menos para transmitir ensinamentos morais.

Influenciados pela atmosfera mágica céltico-bretã, tais contos apresentavam fadas diabólicas, também chamadas bruxas, destacando, através da imortalidade, do poder e da magia, o posicionamento elevado das mulheres na cultura celta, notadamente em comparação ao povos contemporâneos e mesmo posteriores.

Aliás, a questão do feminismo, em contraposição à existência das bruxas é o pano de fundo do enredo, o melhor do roteiro, o ponto alto do longa. No contexto mágico e sobrenatural do longa, a figura clássica das bruxas pode ser identificada nas mulheres poderosas e determinadas, que povoam o imaginário popular. ‘No creo en brujas, pero que las hay, las hay!’.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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