Críticas Lucinha no Cinema

A Chegada (Arrival)

Quem ouve falar em filmes de ficção-científica, pensa logo em viagens espaciais, máquinas do tempo, universos paralelos, vida extraterrestre e culturas alienígenas, além, é claro, dos extraordinários efeitos visuais e sonoros. Certamente que esse gênero cinematográfico tem variações, que vão das mais leves, tipo ‘fantasia científica’ como ‘Jornada nas Estrelas’ ou ‘Doctor Who’, às mais complexas, que lidam com questões universais, em discussões filosóficas sobre a evolução humana ou inteligência artificial, como ‘2001: Uma Odisseia no Espaço, ‘Blade Runner’ ou ‘Solaris’.

Quando assisti ao trailer de ‘A Chegada’ [‘Arrival’], do cineasta e roteirista de cinema canadense Denis Villeneuve – diretor dos premiados ‘Sicário: Terra de Ninguém’ – 2015, ‘Os Suspeitos’ – 2013, ‘Incêndios’ – 2010, além da sequência de ‘Blade Runner’, cujo lançamento está previsto para 2017 – fiquei com a impressão de que seria uma ficção-científica um tanto ou quanto leve, do tipo fantasiosa, provavelmente por conta da tosca nave espacial ou dos esdrúxulos seres extraterrestres que dela emergiam.

Ledo engano! Não se trata, na verdade, de um filme de ficção-científica do gênero ‘fantasia científica’, muito menos daqueles onde as tecnologias dirigem os acontecimentos. Imagine doze misteriosas espaçonaves ovais, assemelhadas a gigantescas colmeias, flutuando, absolutamente inertes, em doze países diferentes. O pânico se instala a nível mundial e os diversos governantes, ora se abrem para a cooperação, ora se fecham num confronto velado, na iminência de operações militares sem precedentes.

Na expectativa de resolver o conflito e verificar se os invasores representam alguma ameaça aos habitantes da Terra, o Coronel Weber (Forest Whitaker) convoca a Dra. Louise Banks (Amy Adams), renomada linguista, e o físico e matemático Ian Donnelly (Jeremy Renner), ambos especialistas em semiótica, na tentativa de traduzir os sons e símbolos emitidos pelos alienígenas.

A Dra Louise Banks convive com muitas memórias, nem todas fáceis de lidar, como a perda da filha adolescente. Em certa ocasião, diz para a menina que seu nome, ‘Hannah’, é um palíndromo. O termo não é corriqueiro, mas é utilizado para as palavras, frases, expressões ou sequências de letras ou números que têm a propriedade de poderem ser lidos tanto da direita para a esquerda como da esquerda para a direita.

São interessantes, às vezes engraçados, mas aparentemente sem qualquer significado ou utilidade prática, a não ser a descoberta da tal peculiaridade. Depois da ‘deixa’ do roteiro, fica-se com a impressão de que todo o filme poderia ser uma espécie de palíndromo, tais as sutilezas da edição e do roteiro, que nos permitem ‘leituras’ diversas, com os mesmos resultados.

Certamente que é desejável assisti-lo na ordem apresentada, melhor dizendo, no formato tal como finalizado pela edição, pois esse é o filme proposto pelo diretor. Mas, partindo-se das noções de passado, presente e futuro que interagem de forma aparentemente aleatórias na evolução do roteiro, é interessante perceber que a sequência normal ou uma possível ‘leitura invertida’ manteriam o mesmo entendimento da trama.

O filme aborda questões relativas à condição humana, além de discorrer sobre o que os físicos denominam ‘espaço-tempo’, tanto pelo lado científico, quanto pelo filosófico. E, de quebra, ainda nos convida a refletir sobre a tal inexistência do tempo, isoladamente falando, num quebra-cabeça de eventos, onde tudo acontece simultaneamente. Nesse sentido, o palíndromo seria uma espécie de metáfora do tempo, cuja existência somente ocorre em função da nossa aparente incapacidade de perceber os sinais de velocidades muito baixas ou muito altas.

O roteiro de Eric Heisserer (‘Quando as Luzes se Apagam’) é baseado no conto ‘Story of Your Life’, publicado em 1998 pelo escritor americano Ted Chiang, no qual uma linguista aprende um idioma alienígena que modifica sua visão de mundo. O filme foi aclamado em Toronto e indicado aos prêmios de Melhor Roteiro e Melhor Direção no Festival de Veneza, além de ter sido selecionado como o filme de abertura do Festival do Rio de 2016.

O resultado é realmente intrigante, com discussões subjacentes sobre questões existenciais, tanto pela vertente terrestre, quanto pela alienígena, não obstante a imposição da comunicação, ou sua impossibilidade, guiarem os acontecimentos. Nossos pensamentos e comportamentos seriam determinados, ou ao menos influenciados pela língua que falamos? E, entender a estrutura dessa língua poderia nos levar à elucidação da concepção do mundo que a acompanha? A desconstrução da linguagem serviria para descobrir partes do texto que estão dissimuladas e que interditariam certas condutas?

A chegada de extraterrestres suscita a imaginação, na verdade, exige muito da criatividade humana, quer estes sejam do tipo humanoide ou uma espécie de molusco octópode, que se comunicam por círculos de tinta. O visual contemporâneo do longa é inspirado na obra do artista plástico americano James Turrell, que trabalha a sensação de infinito com luzes, cores e grandes espaços. E, como grande fã dos filmes de ficção-científica das décadas de 1970 e 1980, que Villeneuve faz merecidas homenagens a Kubrick e a Spielberg, heróis da sua adolescência.

Apesar do viés pacifista, o medo do diferente, a paranoia militar e a subreptícia guerra fria dai advindas criam o clima necessário ao desenvolvimento de uma complexa trama de medo e mistério. Não há violência por parte dos invasores, viagens interplanetárias, jovens guerreiros ou armas e guerras de luzes, cores e sons. O que se vê é uma mulher, aparentemente fragilizada, no papel de protagonista, na prática uma heroína sem armas ou exércitos, que se utiliza da intuição e da coragem para perceber aquilo que é invisível aos olhos. Palmas para um filme que discute a condição humana e suas infinitas e insolúveis inquietações sob o ponto de vista feminino.

Segundo o diretor Denis Villeneuve, ‘a idéia de que a cultura e a língua podem mudar a sua interpretação do mundo, expressa no conto de Chiang, é bela e desafiadora. No final das contas, só há o poder da intuição.’

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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