Críticas Lucinha no Cinema

A garota de fogo

Os quebra-cabeças formam uma categoria própria de passatempo. Sequer são considerados jogos, pois não há interação entre jogadores, muito menos adversários. E, por conta do grande poder de abstração e entretenimento, são considerados uma eficiente válvula de escape para as pessoas esquecerem seus problemas e dificuldades momentâneas. E não é por mera coincidência, que a época de ouro dos quebra-cabeças foi justamente num dos piores períodos do século XX, na década da grande depressão de 1930!

E, é dessa forma, como terapia ocupacional, que Damián (José Sacristán), o personagem misterioso e polêmico do longa ‘A garota de Fogo’, os utiliza. Ele, um pacato professor de matemática, revela-se, quando posto em condições especiais de temperatura e pressão, um perfeito psicopata.

Por conta disso, domina, manipula e controla o destino de todos os personagens do longa de Carlos Vermut, diretor e roteirista espanhol, premiado em 2014, com as Conchas de Ouro e de Prata, de Melhor Filme e de Melhor Diretor, respectivamente, no Festival Internacional de San Sebastian, além do Prêmio Goya de 2015 de Melhor Atriz.

Nesse drama, que mistura suspense, mistério e conflitos morais, emerge Alicia (Lucia Pollán), menina de 12 anos com leucemia, que sonha com o vestido da heroína de um seriado japonês, a ‘Magical Girl Yukiko’. Seu pai, Luís (Luis Bermejo), professor de literatura desempregado, não medirá esforços para satisfazer os últimos desejos de sua única e querida filha.

Aproveitando-se de situações sociais incômodas, o jovem cineasta aproxima personagens tão díspares e ao mesmo tempo tão próximos, não só em angústias como em desejos, cinismo e crueldades de toda a ordem. E não é que o roteiro parece ter lançado na tela as peças de um verdadeiro quebra-cabeças de emoções?

Nesse cenário turbulento, Luís e Damián serão envolvidos por Bárbara (Bárbara Lennie, em excepcional performance), jovem atraente, mas com severos transtornos mentais, em uma complexa teia de traições, chantagens e crimes que desnudarão, inexoravelmente, a religiosa e pacata cidade espanhola.

Bárbara, que encarna uma espécie de ‘femme fatale’, é também o fio condutor numa série de situações bizarras, envolvendo comportamentos compulsivos, ora beirando o sadismo, ora o masoquismo, numa espiral crescente de crueldades, que expõem o pior do ser humano.

A trilha sonora é um destaque à parte. Não só por conta do flamenco ‘La niña de fuego’, na voz de Manolo Caracol, que nos envolve decididamente no clima emocional do enredo, como da japonesa ‘Haru Wa Sara Sara, contada por Yoko Nagayama. Tudo a ver!

Razão ou emoção? Moral, imoral ou amoral? As touradas seriam, efetivamente, a representação da luta entre o instinto e a técnica, entre a emoção e a razão? Só sendo espanhol para entender.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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