Críticas Lucinha no Cinema

A Garota Dinamarquesa

Você sabe a diferença entre ‘drag queen’, ‘travesti’ e ‘transexual’? Os três pertencem ao grupo dos ‘transgêneros’, cuja característica principal é a não identificação com comportamentos ou papéis esperados do sexo biológico, ou seja o gênero designado no nascimento.

As ‘drag queens’ atuam com roupas femininas como manifestação artística. Os ‘travestis’ têm uma dependência do ato de vestir roupas do outro sexo em privacidade, relacionado à excitação sexual. Já os ‘transexuais’ têm sentimentos e desejos internos de adequar-se fisicamente ao que ele é psicologicamente.

Apesar da maioria das pessoas ter mais preconceitos do que informações científicas a respeito desses assuntos, a impressão é que, tanto no Brasil quanto no resto do Mundo, há atualmente muito mais informações a respeito da percepção dos fenômenos típicos e recorrentes da diversidade sexual humana.

Talvez por conta dessas ‘percepções’, a indústria cinematográfica esteja chamando à baila questões relacionadas à identidade de gênero, com especial atenção à transexualidade, como em ‘A garota dinamarquesa’ (‘The Danish Girl’) de Tom Hooper, diretor e roteirista britânico, responsável pelos premiados ‘Os Miseráveis’ e o ‘O Discurso do Rei’.

O drama pseudo-biográfico se baseia na história real de Lili Elbe Elvenes (Eddie Redmayne), considerada a primeira mulher transexual, após a cirurgia de redesignação sexual feita em Einar Mogens Wegener (Eddie Redmayne). Há relatos de que Einar seria intersexual, com características tanto masculinas quanto femininas.

O roteiro de Lucinda Coxon é baseado no livro homônimo de David Ebershoff, vagamente inspirado na vida do casal de ilustradores dinamarqueses, Einar Mogens Wegener e Gerda Wegener (Alicia Vikander), a partir do diário da própria Lili, denominado ‘Man into Woman, publicado na década de 1950.

O filme foi criticado, entre outras razões, por usar um ‘cisgênero’, ou pessoa cujo gênero é o mesmo que o designado em seu nascimento, para interpretar uma mulher transexual.

Na verdade, acho que esse pseudo-defeito foi o que o longa tinha de melhor. Eddie Redmayne tornou o que seria um filme monótono, triste, e talvez confuso, por algumas omissões da história real, numa obra de arte, singelo e emocionante, simplesmente por sua magnífica atuação.

Temos que admitir que Alicia Vikander também é responsável por esse resultado. A atriz transforma sua personagem Gerda no elo do mundo real com o imaginário de Lili. Ela apoia e efetivamente segura todas as pontas pendentes, tornando a estória factível, apesar das muitas mudanças na história real daquele estranho casal.

Conhecendo a ‘Arte Erótica Lésbica’ de Gerda Wegener, que retrata toda a feminilidade e sensualidade de Lili, e não foi mencionada no filme, muitas das questões pendentes são esclarecidas, como, por exemplo, a suposta bissexualidade de Gerda e as razões que a levaram a propor casamento a um jovem de 21 anos, imaturo sexualmente. Há quem veja essa situação como um caso típico de ‘poliamor’, já que eles permaneceram casados por 26 anos.

Lembrando-se que o drama se passa na década de 1920, é estarrecedor perceber que, mesmo sem nenhum caso semelhante ou qualquer informação, Einar assumiu o risco inimaginável de mudar de sexo, cirurgia totalmente desconhecida na ocasião, e que ensejava castração, amputação do pênis e vaginoplastia.

A transexualidade de Lili importava sérios conflitos sexuais e de gênero, com profundos transtornos emocionais. Mas a possibilidade real da reprodução também a incentivava. E este último desejo foi o que acabou com o sonho de Lili. Mesmo depois de conseguir a anulação de seu casamento e o reconhecimento de sua identidade feminina pelo próprio Rei da Dinamarca, ela insistiu num implante de útero e não resistiu às complicações da rejeição.

Uma das melhores cenas do filme mostram Einar Wegener vestido de mulher chegando de um encontro. Ele havia acabado de descobrir sua mente feminina refém de um corpo masculino. Percebeu também que não queria ser simplesmente um travesti em relacionamento com homossexuais. Ele encontra sua mulher que lhe pergunta se está tudo bem e ele responde que não. Esta cena retrata todo o sofrimento de Einar e vale por todo o filme.

Levando-se em conta que a cultura ocidental é pautada pelo saber masculino, que o lugar do indivíduo nem sempre corresponde ao sexo biológico e que temos uma enorme capacidade de categorizar sem contextualizar culturalmente o tempo e o espaço em que essas categorias foram constituídas, acho que precisamos falar mais da diversidade sexual humana!

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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