Críticas Lucinha no Cinema

A Garota no Trem – [The Girl on The Train]

Curiosidade, seu nome é mulher! Será essa afirmação verdadeira? Não há nenhuma evidência de que as mulheres sejam mais curiosas que os homens, mas elas têm, certamente, mais coragem em admitir o desejo de saber ou de olhar. Indiscrição, voyeurismo, imprudência, bisbilhotice, leviandade ou simplesmente curiosidade, qual a verdadeira razão de alguém querer saber, ver ou descobrir algum segredo ou ato indiscreto ou até inconveniente de outra pessoa?

Às vezes, pode ser só muita imaginação, vontade de fantasiar, falta do que fazer ou uma bruta de uma depressão. Pois esse parece ser o caso do suspense ‘A Garota no Trem’ [The Girl on The Train], filme realizado por Tate Taylor, ator, roteirista, produtor e diretor de cinema norte-americano, que ficou conhecido em 2011 pelo aclamado drama ‘Histórias Cruzadas’ [The Help], que retrata o relacionamento de uma patroa e suas duas empregadas negras, em plena discussão dos direitos civis nos Estados Unidos da década de 1960.

Rachel (Emily Blunt) é uma alcoólatra desempregada, deprimida, ainda em luto por seu recente divórcio. Todas as manhãs Rachel viaja de trem, fantasiando sobre a vida de um jovem casal que observa pela janela. Certo dia ela testemunha uma cena chocante e mais tarde descobre que a mulher está desaparecida. Inquieta, Rachel recorre à polícia e se vê completamente envolvida no mistério.

O roteiro de Erin Cressida Wilson (‘Homens, Mulheres e Filhos’) se baseia no romance homônimo, de estréia da jornalista britânica Paula Hawkins, fenômeno editorial lançado no início de 2015 e que permaneceu na lista dos best-sellers, tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido, por mais de sete meses, tendo superado a tiragem de 1,5 milhão de cópias.

O longa-metragem transferiu o suspense psicológico de Ashbury e Londres, para Westchester, em Nova Iorque, com filmagens em White Plains, em Hastings-on-Hudson e em Irvington, Nova Jérsei, lugares que mantêm os cenários de casas confortáveis, em ruas tranquilas de subúrbios, perseguidas por linhas sinuosas e aparentemente intermináveis de ferrovias, iluminadas pelo leito sereno do rio, com a cumplicidade silenciosa das florestas, cenários indispensáveis ao desenvolvimento da trama original.

Nesse suspense com vestígios de drama romântico, mistério e ação policial, há um embate visível entre os personagens femininos e os masculinos. Em cada diálogo, em cada cena, em cada olhar, temos a impressão de que as mulheres estão sob pressão, não só dos homens ao seu redor, como da própria sociedade, que à conta das conquistas feministas, impõem às mulheres os ônus da maternidade, da organização familiar, da independência e do sucesso profissional.

E, por conta dos lances de voyeurismo e dos embates entre patriarcado e feminismo, não há como não se lembrar do icônico ‘Janela Indiscreta’, considerado um dos melhores filmes de Hitchcock. O espetáculo através das janelas, por onde se espia e se desvendam mistérios, aqui como lá, em 1954, expõe a fragilidade feminina, as revelações da vizinhança, o efeito alienante do alcoolismo e da solidão, o mais potente dos combustíveis da depressão.

Apesar do olhar pouco condescendente, mau-humorado, ou talvez preguiçoso da crítica especializada, ‘A Garota no Trem’ tem muitos méritos e o maior deles é o de trazer à baila um dos temas de maior complexidade do momento: a violência contra as mulheres. E em razão da prevalência do ponto de vista feminino, os homens são apresentados como aproveitadores, sem escrúpulos, sempre à espera de uma oportunidade para o prazer. É certo também que as mulheres daquelas bandas não ficam atrás, têm seu lado predador e algumas não conseguem sobreviver sem lançar seus olhares e artimanhas sexuais.

E para que isso tudo funcionasse a contento precisava de um elenco adequado e esse parece saído de uma seleção de modelos. Todos, mulheres e homens, são jovens, musculosos, bonitos, transpirando hormônios sexuais por todos os poros. E estão bem em seus papéis, com destaque para Emile Blunt, que compõe adequadamente a anti-heroína, atraindo tanto a empatia e a compaixão, por sua solidão, suas dificuldades, quanto a aversão e o preconceito, por seus vícios, sua fragilidades, seu desânimo de viver.

Até que ponto a questão da violência contra as mulheres, tanto a física quanto a psicológica, deve sair do nível privado, das quatro paredes onde normalmente ocorre, superar a privacidade do casal e invadir o domínio público? Por que as mulheres são muitas vezes prejulgadas, não só por sua independência, como por suas diferenças, vistas como fraquezas? Muitas vezes o casamento se mantém, não só por conta do medo da solidão, da vergonha, como também pelos filhos. E no final, terá valido a pena?

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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