Críticas Lucinha no Cinema

A Grande Aposta

Sabe aquela estória dos dois amigos que não se viam desde o colegial: ‘mas então, me explica, como você conseguiu ganhar tanto dinheiro na bolsa? E o outro: ‘simples, você compra na baixa e vende na alta’, e dá um sorriso. Isso explica, mas não justifica todos os resultados, como diriam alguns, especialmente quando se trata de especuladores, diriam outros.

Mas por que? Qual é a diferença entre investidores e especuladores? Vai depender do ponto de vista de quem aplica, certamente. Para alguns, especuladores seriam aqueles que têm muito dinheiro e não vão precisar dele tão cedo. E os investidores, seriam aqueles que deixam seu dinheirinho suado com alguém, porque nem sabem como fazê-lo, e torcem para que sua única riqueza dobre no fim do período, quando precisarão dele para fazer os pagamentos do dia a dia.

Esse deve ser o pensamento dos espectadores que aguardam o início da sessão de ‘A grande aposta’ (‘The Big Short’), a comédia dramática, ou seria melhor chamar de drama sarcástico do diretor e roteirista Adam Mckay, baseado no livro de Michael Lewis (‘The Big Short : Inside The Doomsday Machine’), que trata das causas e consequências da crise americana do crédito imobiliária de 2008.

‘São todos uns fdp, especulando com o dinheiro alheio, brincando de ser Deus’, teoriza outro. Qualquer que seja o seu diagnóstico, não há como não se surpreender com o que a tela nos mostra, mesmo depois de tantas avaliações, discussões, prognósticos e mudanças legais, a partir da maior catástrofe ocorrida no mercado financeiro desde a quebra da bolsa de 1929.

Felizmente, desta vez, os bancos centrais, tanto dos EUA, quanto dos demais países ‘não meteram os pés pelas mãos’ como ocorreu na crise de 1929. Naquela ocasião, a intervenção inadequada das autoridades resultou na profunda depressão mundial dos anos trinta. Nesta, graças principalmente aos ensinamentos de Milton Friedman, ganhador do Nobel de Economia justamente por conta da análise dos fatores que levaram àquela terrível situação, seus efeitos foram menores.

Mas, o que realmente aconteceu? O que levou milhares de pessoas a abandonarem seus imóveis? O que alimentou a tal bolha imobiliária? O que ocorreu com o mercado dos títulos de dívida imobiliária nos EUA? Houve ganância, manipulação, fraude dos agentes econômicos, crença desmedida nos cadastros bancários e na capacidade ilimitada de endividamento ou simplesmente descuido e inobservância das medidas de segurança por parte dos órgãos fiscalizadores?

Muito do que Michael Burry (Christiian Bale), Jared Vennett (Ryan Gosling), Mark Baum (Steve Carell) e Ben Rickert (Brad Pitt) fizeram, como o roteiro nos mostra didaticamente, foi perceber, por conta de informações disponíveis, mas aparentemente invisíveis para a maioria das pessoas, a crescente possibilidade de desvalorização dos tais títulos imobiliários. E, por conta disso e pela inerente aptidão para o risco, apostar fortemente contra um dos mais respeitados instrumentos do mercado financeiro americano – os financiamentos hipotecários.

A fórmula adotada por Mckay para conduzir a trama é inovadora e bem sucedida. Há no ar, o tempo todo, um clima de suspense e tensão, alternando-se questões individuais e fatos históricos, numa sequência aparentemente incoerente, mas necessária à evolução satisfatória do roteiro.

Como compensação, há a inserção de abordagens coloquiais com o público do lado de cá da tela, que os cinefilos chamam de ‘quebra da quarta parede’, amaciando sutilmente a aridez das questões financeiras.

No final das contas, a gente sai com mais dúvidas que certezas. Quando efetivamente ocorre o momento da ‘baixa’ e quando será o da ‘alta’? Devo sair com poucas perdas ou esperar e incrementar o ganho? Ninguém pode garantir, a não ser que você assuma riscos.

A única certeza, considerando-se a situação de conflito de interesses inerente aos negócios, é que o ganho de uns pode significar a perda de outros.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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