Críticas Lucinha no Cinema

A intrometida

‘Luto (do latim luctu): conjunto de reações a uma perda significativa, geralmente pela morte de outro ser. Quanto maior o apego ao objeto perdido (pessoa, animal, fase da vida, status social), maior o sofrimento do luto.’

Os especialistas dizem que o luto deve ser vivido. E o primeiro passo para tal é reconhecê-lo e admitir que, em algum momento, precisamos superá-lo. Como em qualquer evento traumático, há que se ter vontade de seguir em frente, de interromper um ciclo, de reconhecer a finitude da vida, eventualmente de mudar radicalmente o curso da existência.

E essa situação de luto me lembrou um antigo costume hindu, que obrigava a viúva devota a se sacrificar na fogueira da pira funerária de seu marido morto. Hoje proibido, o sati era supostamente voluntário, algo como um tributo ao morto. Mas, existem relatos de autoimolações forçadas, possivelmente por razões financeiras. Como os casamentos hindus levavam as esposas a conviver com a família do marido, na sua ausência, as questões relativas à herança e à perda de prestígio social da agora viúva parecem confirmar tais costumes culturais perdidos na história.

Felizmente, os tempos são outros e os costumes não andam tão bem conservados. Mas o luto se mantém em todas as culturas, como um momento universal e atemporal. E é disso que trata a comédia dramática ‘A intrometida’, da diretora, roteirista, produtora, atriz, cantora e compositora americana Lorene Scafaria (‘Nick and Norah’, ‘Ricki and The Flash’, ‘Procura-se um Amigo para o fim do Mundo’), que resolveu viver seu próprio luto na vida real (tinha acabado de perder seu pai), através desse filme autobiográfico.

Com um celular novo, um apartamento bem localizado e uma conta bancária confortável deixada pelo falecido e saudoso marido, Marnie Minervini (Susan Sarandon) está entusiasmada com o futuro, após se mudar de Nova Jersey para Los Angeles, para ficar perto de sua filha Lori (Rosé Byrne), uma bem-sucedida roteirista, mas que também acabou um relacionamento. Quando as dezenas de mensagens de texto, visitas inesperadas e conversas dominadas por conselhos não solicitados obrigam Lori a estabelecer limites pessoais estritos, Marnie encontra formas de canalizar seu eterno otimismo e sua generosidade contundente mudando as vidas de outras pessoas – bem como a sua própria – descobrindo um novo propósito na vida.

Ninguém é capaz de entender tais situações sem ter vivido algo semelhante. Por mais que se queira entender as agruras de quem vive um luto, esse drama é personalíssimo e cada o viverá de uma forma diferente. Até para os casais que não viviam tão bem, a morte de um dos parceiros rompe um ‘status quo’, uma situação à qual todos estavam acostumados. E esse rompimento gera incertezas, desconstrói a rotina, cria um vazio. E esse vazio provoca dor e sofrimento.

O roteiro da própria Lorene não se prende a questões psicanalíticas profundas, mas traz algumas repercussões, de forma criativa, e até pitoresca, quando promove encontros surreais entre a mãe abandonada e a psicóloga da filha, por exemplo. E daí surgem dúvidas, culpas e castigos. E do lado de cá da tela, aparecem outros questionamentos. Por que se valoriza tanto, em pleno século XXI, o casamento tradicional, principalmente de mulher para mulher? Por que as escolhas pessoais das jovens mulheres se sobrepõem às profissionais? Mulher só se realiza se encontrar uma companhia? Mulheres acima dos sessenta estão condenadas à solidão?

O melhor do filme é, sem nenhuma sobra de dúvida, a personagem e o desempenho de Susan Sarandon. Perfeita, sem exageros, na medida das necessidades. Uma mulher a serviço da valorização da mulher. Merecem também atenção os desempenhos de Rose Byrne, a filha carente, depressiva, numa composição bem realista das jovens que se dedicam mais aos companheiros que a si mesmas, além do excelente policial aposentado, vivido por J.K. Simmons, um homem maduro, doce, com muito senso de humor, isento de culpas, cobranças ou revanchismo contra as mulheres.

Não espere resposta para tudo. Aliás, não espere resposta para nada. Problemas existenciais devem ser vividos e entendidos, se é que isso é possível, a cada experiência pessoal.

‘Antes, a questão era descobrir se a vida precisava de ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado.’ [Albert Camus]

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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