Críticas Lucinha no Cinema

A juventude – Youth – La Giovinezza

Segundo Freud, o ser humano seria movido pela busca da felicidade. Mas, pela impossibilidade de o mundo real satisfazer a todos os nossos desejos, essa busca estaria fadada ao fracasso. Por essa equação freudiana, o princípio do prazer seria sempre subjugado pelo princípio da realidade. O máximo a que poderíamos aspirar seria uma felicidade parcial.

Essa ideia utópica de felicidade gera uma enorme frustração na vida das pessoas e nos remete a outra questão, a infelicidade. Há quem diga que a nostalgia vem daí, da falta de felicidade no tempo presente. E essa insatisfação com o aqui e o agora, nos remete a um passado idealizado, à saudade de momentos felizes.

Ser ou não ser feliz, eis a questão do momento. E esse é também o foco de ‘A juventude’, o novo filme de Paolo Sorrentino. O longa dá um mergulho na alma humana, vasculhando os escaninhos mais recônditos da memória, revelando seu mais temível algoz: a nostalgia.

Qual a importância do tempo? Jovem ou idoso? Experiência ou criatividade? Por que o futuro está sempre associado à juventude e às mudanças? Por que buscamos tanto a fama e o sucesso? A amizade é realmente o fermento das relações humanas?

Pelo roteiro, do próprio Sorrentino, somos apresentados a Fred Ballinger (Michael Caine) e Mick Boyle (Harvey Keitel), dois amigos de longa data, quase octogenários, que se encontram num luxuoso hotel nos Alpes Suíços. Fred é um maestro e compositor conceituado, que há muito abandonou a carreira musical. Mick, um bem sucedido cineasta, se preparando para realizar uma última obra que, segundo diz, será o seu “testamento”.

Naquele lugar paradisíaco, Fred e Mick recordam o passado, fazem planos para o futuro e, ao mesmo tempo, reflexões sobre a juventude e o elevado preço do envelhecimento. E o filme expõe mais do ser humano: confissões íntimas, cobranças familiares, paixões não correspondidas, esperanças que não se realizam.

Ali se hospedam, ainda, pessoas de idades e objetivos distintos, entre as quais Lena Ballinger (Rachel Weisz), a filha e secretária de Fred, num momento de perdas e ganhos, Jimmy Tree (Paul Dano), um jovem ator em busca de um personagem, além de vários tipos exóticos, como um ex-jogador de futebol, que nos lembra Maradona, uma atriz famosa, mas decadente, Brenda Morel (Jane Fonda), uma lindíssima Miss Universo (Mådålina Diana Ghenea) e uma cantora inglesa (Paloma Faith), em seu papel preferido, ela própria.

Fica mais fácil entender o filme quando se conhece o significado da palavra nostalgia, do grego (nostós) regresso e (álgos) dor. Tudo a ver com a filmografia desse jovem diretor italiano, responsável por ‘Il Divo’, ‘Aqui é o meu lugar’ e o vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2014, ‘A grande beleza’, uma verdadeira sessão de psicanálise em grupo.

Quem já viu qualquer desses filmes, provavelmente se lembrará de outro grande cineasta italiano, o saudoso Federico Fellini. E não será por acaso. Ambos exploram as carências humanas nas relações sociais, na vida pública, unindo memórias, sonhos, fantasias e desejos.

E Sorrentino parece estar sempre bebendo na fonte desse magistral diretor, ora fazendo referências a ‘La Dolce Vita’ em ‘A grande Beleza, ora a ‘8 ½’ em ‘A juventude’. E aqui não faltam referências a Fellini, desde o surrealismo circense, passando pela natureza poeticamente ilustrada, mulheres belas e poderosas e o cinema, essa fantástica linguagem que ultrapassa tempo e espaço.

Lamentavelmente, a distribuidora brasileira, Fênix Filmes, não deu legendas à sinfonia que fecha a belíssima trilha sonora, de David Lang, ‘Just’ ou ‘Simple Song’, como é denominada no filme, indicada ao Oscar e ao Globo de Ouro de 2016 de Melhor Canção, que tem uma fantástica interpretação da soprano sul-coreana Sumi Jo.

Há uma frase que simboliza a busca do verdadeiro caminho da iluminação no Budismo e tem tudo a ver com este belo filme: ‘Tudo muda. Tudo aparece e desaparece. Somente haverá perfeita tranquilidade, quando se transcender a vida e a morte.’

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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