Críticas Lucinha no Cinema

A Luz entre Oceanos

“Guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra.”
William Shakespeare

Você seria capaz de perdoar alguém que tenha lhe ofendido, lhe causado uma injustiça, um dano material ou algum tipo de sofrimento físico ou mental? E quanto aos seus próprios erros ou fracassos, alguma vez você se perdoou, aceitou suas limitações e se reconciliou com você mesmo e com sua consciência?

Difícil, não é? Pois o perdão é um dos temas mais frequentes nas preleções dos religiosos e se refere à necessidade dos seres humanos se desprenderem dos ressentimentos, dos rancores, das vinganças e praticarem o perdão como pré-requisito para o aprimoramento espiritual.

Nessa mesma direção, uma série de estudos científicos têm apontado o perdão como necessário para uma vida mais saudável, não só do ponto de vista espiritual ou mental, como pelos efeitos terapêuticos em relação às defesas do organismo, à saúde cardíaca, à elevação da expectativa de vida e ao fortalecimento do sistema imunológico, por conta da redução do estresse e do aumento do bem-estar de uma forma geral.

Infelizmente, perdoar não é simples, muito menos corriqueiro. Mas, no final das contas, não se perdoa o comportamento, o malfeito, mas seu autor, uma pessoa que em algum momento incomodou outra pessoa. E para que isso ocorra é imprescindível que sentimentos negativos sejam transformados em positivos, pois só a partir da empatia, da simpatia e da compaixão pode surgir o perdão.

E esse embate entre perdão e ressentimento é a ideia por trás do drama ‘A Luz entre Oceanos’ [The Light Between Oceans], do diretor americano Derek Cianfrance (‘Blue Valentine’/’Namorados para Sempre’ de 2010 e ‘The Place Beyond The Pines’/‘O lugar onde tudo termina’ de 2012), responsável também pelo roteiro, adaptado do livro homônimo da australiana M. L. Stedman.

O livro foi publicado em 25 países e alcançou as principais listas dos mais vendidos do mundo, incluindo o cobiçado ranking do The New York Times, onde permaneceu por mais de quatro meses em 2012. Do gênero ficção de guerra, o enredo aborda perdas trágicas e escolhas difíceis, com a maternidade e os limites do amor como pano de fundo, sob diferentes pontos de vista éticos e morais.

Veterano da Primeira Guerra Mundial, Tom Sherbourne (Michael Fassbender) é contratado para trabalhar em um farol, que orienta os navios exatamente na divisão entre os oceanos Pacífico e Índico. Trata-se de uma vida solitária, já que não há outras casas na ilha. Logo ao chegar, Tom é apresentado a Isabel Graysmark (Alicia Vikander), com quem se casa. Isabel tenta engravidar, mas enfrenta problemas e perde dois bebês, o que, inevitavelmente, provoca traumas. Um dia, surge na ilha em que vivem um barco à deriva, contendo o corpo de um homem e um bebê que chora.

Tom deseja avisar as autoridades do ocorrido, mas é convencido por Isabel para que enterrem o falecido e passem a cuidar da criança como se fosse sua filha, já que ninguém sabia que ela tinha tido um aborto. Mesmo reticente, Tom concorda com a proposta. Mas à medida que a criança cresce, seus novos pais descobrem as consequências de assumir uma criança desconhecida como sendo sua, especialmente após conhecerem uma mulher, Hannah Roennfeldt (Rachel Weisz), que perdeu sua filha e seu marido no mar, na mesma época em que Tom e Isabel adotaram sua Lucy.

As filmagens ocorreram na Tasmânia, onde os próprios moradores atuaram como figurantes, numa perfeita reconstituição da Austrália na década de 1920, ainda sob os graves efeitos da guerra. Para se ter uma idéia daquele momento, além das grandes perdas materiais, dos 416 mil australianos que lutaram como aliados do Império Britânico, cerca de 60 mil foram mortos e outros 152 mil ficaram feridos.

Sem contar as doenças (tifo endêmico, malária e gripe espanhola) e todas as demais instabilidades criadas pela guerra, o clima de revanchismo do pós-guerra, com todo tipo de animosidade entre cidadãos dos países aliados e cidadãos originários dos países perdedores, entre os quais os alemães, impregnam aquele ambiente, produzindo sequelas e cicatrizes dolorosas.

Nenhuma outra guerra mudou tanto o mapa geopolítico da Europa ou desfez tantos impérios e dinastias quanto a Primeira Guerra Mundial. Apesar do movimento pacifista após o fim da guerra, as perdas impostas aos perdedores, germinaram um nacionalismo irredentista e revanchista que culminaram com a eclosão da Segunda Guerra Mundial.

E esse sentimento de amargura, vivido tanto pelos sobreviventes, quanto pelos derrotados, pode ser percebido na performance do elenco, todo ele fantástico, com destaque para a perfeita sintonia do casal de protagonistas, Alicia Vikander e Michael Fassbender. Mas o filme conta ainda com duas forças que se impõem – o mar e o farol, num duro embate que lembra a eterna luta entre vida e morte.

Desde tempos imemoriais, os belos e majestosos faróis espalhadas pelo mundo evocam nostalgia e nos lembram das dificuldades do trabalho tedioso, da força da natureza e de todas as mazelas despertadas pela solidão dos faróis. O mundo ainda se recuperava dos traumas da guerra e trabalhar num farol podia ser terapêutico para quem perdeu tudo, inclusive o sentido da vida. Talvez isso nos ajude a entender a razão de alguém poder amar e perdoar incondicionalmente.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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