Críticas Lucinha no Cinema

A Promessa

A maioria das pessoas, muito provavelmente, nunca ouviu falar do genocídio armênio, mas certamente já leu ou conversou com alguém a respeito do Jardim do Éden bíblico ou da Arca de Noé. Apesar de referidos a fontes e eventos aparentemente distintos, os três se encontram, em momentos diferentes, no mesmo espaço físico: um lugar idílico, sem costa marítima, localizado numa região montanhosa na Eurasia, entre o mar Negro e o mar Cáspio, ao sul do Cáucaso. Estamos falando do país que hoje é conhecido como Armênia, onde a famosa Arca teria encalhado após o dilúvio, no entorno do monte Ararat, segundo fontes religiosas.

Talvez esses fatos, aliados à posição estratégica da Armênia – entre os continentes asiático e europeu – expliquem os sucessivos períodos de independência, alternados com outros de submissão daquele país a diversos impérios, entre os quais se destacam assírios, gregos, romanos, bizantinos, árabes, mongóis, persas, turcos otomanos e russos, desde sua origem, há cerca de 2500 a.C.

No maior desses períodos de submissão, entre o século XV e o fim da Primeira Guerra Mundial, os armênios estiveram sob o domínio do Império Otomano. Com o desenrolar daquela Guerra, líderes otomanos (os ‘Jovens Turcos’, um movimento encabeçado por oficiais das Forças Armadas que tomou o poder em 1908) culparam a então frágil união nacional pelas derrotas nos Balcãs e em outros locais, enxergando na minoria armênia uma ameaça, especialmente por muitos armênios terem se alistado ao lado dos russos. Na mesma ocasião, ganhava força uma idéia de independência entre os armênios.

Essas teriam sido as circunstâncias políticas – acrescidas de questões étnicas, territoriais e religiosa – do que ficou conhecido como o genocídio armênio, ocorrido entre 1915 e 1919, quando cerca de um milhão de pessoas foram perseguidas e mortas pelo governo otomano, a maioria por inanição em marchas forçadas pelo deserto sírio. Após as perseguições, expropriações e expulsões, mais de 8 milhões de sobreviventes formaram comunidades em diversos países, especialmente nas Américas, no que ficou conhecido como a diáspora armênia, uma das maiores da história da humanidade.

Esse é o pano de fundo do drama épico “A Promessa” [The Promisse], do diretor e roteirista Terry George, nascido em Belfast, na Irlanda do Norte, ativista político preso na década de 1970, conhecido mundialmente pelo roteiro do longa-metragem “Em nome do Pai” [In The Name of The Father], que revelou, sob o ponto de vista dos irlandeses, fatos e eventos ligados aos ataques do IRA na Grã-Bretanha, além de ser o responsável pelo roteiro, direção e produção do longa-metragem “Hotel Ruanda”, que expôs para a comunidade internacional o massacre perpetrado por extremistas hutus contra os tutsis e os hutus moderados, em Ruanda, entre 6 de abril e 15 de julho de 1994, quando mais de 800 mil pessoas foram mortas violentamente.

O roteiro de “A Promessa” se baseia no romance épico ‘Anatolia’ de Robin Swicord, reescrito pelo próprio diretor Terry George, que ampliou com sua visão política o entendimento histórico do genocídio armênio, ressaltando as perdas, as guerras e os sobreviventes, numa história de amor e superação.

A produção é verdadeiramente grandiosa (orçamento de US$ 90 milhões), apesar de não estar ligada às grandes produtoras de Hollywood, com cenas de guerra e um número elevado de extras e locações (Portugal, Espanha e Malta) e só foi possível graças ao apoio dos herdeiros de Kerkor Kerkorian (1917-2015), norte-americano de origem armênia, criador de mega resorts em Las Vegas (MGM Grand Hotel, entre outros), que doou mais de um bilhão de dólares para caridade na Armênia através da Fundação Lincy, criada em 1989, por conta do terremoto que devastou aquele país.

Nos últimos dias do Império Otomano, Mikael Boghosian (Oscar Isaac), estudante de medicina armênio, conhece Ana (Charlotte Le Bon), uma mulher sofisticada, também de origem armênia, que vive entre Constantinopla e Paris. Por conta da identidade armênia que ambos compartilham, nasce uma paixão imediata entre eles. Mas, os dois já estão comprometidos: ele com a filha de um influente negociante, vizinho na pequena aldeia onde morava, que antecipou o dote do casamento para financiar seus estudos de medicina em Constantinopla, e ela, com Chris Myers (Christian Bale), renomado fotojornalista americano da Associated Press. Apesar do aparente conflito amoroso, os três precisam encontrar um meio para sobreviver, quando o Império Otomano decide atacar violentamente os armênios.

Desde o fim da União Soviética, em dezembro de 1991, a Armênia tornou-se uma república democrática semi-presidencialista. Apesar dessa independência recente, o país possui uma cultura milenar riquíssima, sendo reconhecido como o primeiro estado a adotar o cristianismo como religião, em 301, dez anos antes do Império Romano.

A história dos armênios, infelizmente, não difere muito da história de diversos povos oprimidos ao longo dos tempos. Qualquer um que estude as causas das guerras modernas – em especial a da Primeira Guerra Mundial – constatará como as políticas imperialistas das então grandes potências influenciaram decisivamente no fim de diversos desses impérios, entre os quais se alinhavam o Alemão, o Russo, o Austro-Húngaro e o Otomano, resultando num total redesenho de forças e limites territoriais mundiais.

A questão do genocídio armênio, no entanto, se destaca em razão da controvérsia mundial quanto à sua real existência, especialmente por parte dos turcos, que sucederam ao Império Otomano, que negam o dito genocídio por falta de premeditação. Segundo afirmam as autoridades turcas, não teria havido um plano de extermínio da população armênia, mas um conflito civil, no qual morreram cerca de 300 mil armênios e o mesmo número de turcos.

A própria denominação ‘genocídio’ (palavra híbrida do grego ‘genos’ – raça/tribo  e do latim ‘cidium’ – assassinato)  teria sido utilizada pela primeira vez na história por Raphael Lemkin, advogado polonês, que fez campanha na Liga das Nações, em 1943, para banir o que ele chamou de barbárie – no sentido de massacre de um povo – e vandalismo – com referência à destruição da sua cultura – para se referir ao que ocorreu com os armênios e posteriormente com os judeus.

Apesar do genocídio armênio ainda ser um tabu na Turquia e da maioria dos países se omitir quanto ao seu reconhecimento (somente 20 países o admitem oficialmente, apesar de muitos lamentarem as mortes, sem, no entanto, utilizar o termo genocídio) a questão permanece na memória e na história da humanidade. Mas, com o lançamento do filme “A Promessa”, o assunto voltou a ser discutido, cem anos depois dos acontecimentos. E essa era a intenção do diretor Terry George, que afirmou não estar preocupado com a bilheteria e nem em distorcer os fatos, por conta do patrocínio armênio, mas sim em discutir as causas do massacre e evitar que fatos semelhantes ocorram novamente.

“O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.” Martin Luther King

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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