Críticas Lucinha no Cinema

A qualquer custo

Jeff Bridges como Marcus Hamilton e Buck Taylor como Old Man

Por Lucia Sivolella Wendling*

Dizem que um bom roteiro é aquele que tira os personagens da sua zona de conforto. E um bom personagem, assim como um bom roteiro, necessitam de conflitos para se tornarem interessantes, atrair a atenção e fazer a estória continuar, justificando sua ida ao cinema.

Em outras palavras: sua vidinha comum e pacata, provavelmente, não renderia um bom filme. Com certeza, você vai preferir continuar a ser um anônimo, viver sua vida sem muitos percalços, mas sobreviver e, na medida do possível, envelhecer e morrer como todo mundo, sem grandes arrependimentos ou culpas na bagagem. A maioria das pessoas passa pela vida desse jeito. Não lamente, o contrário seria muito, muito difícil de aguentar.

Mas uma vida extraordinária, cheia de surpresas e percalços faz parte de roteiros, normalmente, de bons roteiros. E quando a gente sai do cinema com aquele nó na garganta, ou sorrindo sem motivo aparente, meio sem jeito, sem conseguir se conter, com mais dúvidas que certezas, o filme foi bom, provavelmente muito bom, com personagens repletos de conflitos e de estórias.

E é esse, com toda certeza, o caso do longa-metragem ‘A qualquer custo’ [Hell or High Water], dirigido pelo cineasta escocês David Mackenzie (‘Perfect Sense’/’Sentidos do Amor’- 2011, com Eva Green e Ewan McGregor, entre outros oito filmes), com roteiro do ator e roteirista norte-americano Taylor Sheridan (do premiado ‘Sicário: Terra de Ninguém’).

O misto de drama, suspense e faroeste mostra dois irmãos, um ex-presidiário e um pai divorciado, que acabaram de perder a mãe e estão em vias de perder também o rancho da família em West Texas por conta de dívidas. Sem alternativa, ambos planejam assaltar pequenas e desprotegidas agências de um determinado banco, uma em cada cidade do Texas, até alcançar o valor necessário para saldar a hipoteca e liberar o imóvel. Eles não esperavam, no entanto, que um intrépido policial, na verdade um Texas Ranger prestes a se aposentar, fizesse o impossível para capturá-los.

Tudo que um bom personagem precisa é de uma boa performance do ator. E eis o casamento perfeito: Ben Foster (de ‘X-Men 3: O Confronto Final’, ‘Alpha Dog’, ‘Os Indomáveis’, ‘30 Dias de Noite’ e ‘Pandorum’) está extraordinário no papel do irmão mais velho – ex-prisioneiro, explosivo e violento – Tanner Howard, assim como Chris Pine (o emblemático capitão James T. Kirk da refilmagem da série ‘Star Trek’), que finalmente se expõe num personagem denso e cerebral, como o irmão divorciado com dois filhos, Toby Howard. Mas, a melhor atuação, com toda a certeza, é a do premiado Jeff Bridges, no papel do politicamente incorreto, mas incorruptível policial Marcus Hamilton, ao lado de Gil Birmingham, no papel do Texas Ranger auxiliar Alberto Parker – parte índio, parte mexicano, puro texano – formando a dupla da lei no encalço dos ladrões de bancos.

Sem qualquer outra explicação, somente com a ajuda do título original, ‘Hell or High Water’, derivado da expressão idiomática ‘come hell or high water’, numa tradução literal ‘para o que der e vier’, a trama fica clara e se encaixa perfeitamente numa espécie de faroeste-moderno-urbano, onde o vilão da vez é o sistema financeiro e a única solução possível, a qualquer custo, como faz questão de acentuar o título em português, é mesmo a vingança planejada e executada pelos irmãos Howard. O título em Portugal – ‘Custe o que custar!’ – parece mais adequado, talvez melhor que o brasileiro, porque pega o filme pela medula. E é mais engraçado, como sempre ocorre, aliás!

Chris Pine como Toby Howard

A trama em si é ardilosa, apesar de tosca, assim como seus mentores. Certamente que na vida real, o resultado obtido seria pouco provável, mas num lugar onde armas, carros e deserto são os ingredientes do cotidiano e do individualismo exacerbado de uma América empobrecida pós-recessão econômica, os anti-heróis da narrativa, com senso de humor e dolorosas estórias familiares, justificam ações extremas em situações de aparente injustiça social.

Texas é um estado muito peculiar, bem diferente do restante da América cosmopolita ou industrial que se conhece. Avistar manadas de gado no horizonte, centenas de bombas para sucção de petróleo – conhecidas como ‘cabeça de cavalo’ – ou topar com caubóis modernos, armados e prontos para defender a própria vida ou possíveis ameaças ao redor, assim como deparar-se com tiroteios e perseguições de carros não é incomum, assim como parece não ser incomum menores consumirem álcool em casa ou sob supervisão do responsável, tal como o filme sugere.

Como nos lembram seu apelido – ‘Lone Star State’ – por causa da estrela solitária na bandeira, seu lema – amizade – ou a origem do seu nome – derivado de ‘tejas’, palavra indígena que significa ‘amigos’ – o Texas é uma grande estrela de cinco pontas, resultado de uma verdadeira confraria de amigos: os descendentes de mexicanos e de espanhóis – os ‘tejanos’; os de comanches – os nativos norte-americanos; os de africanos – os afro-americanos e os de europeus, entre os quais prevalecem alemães, ingleses e irlandeses.

Mas, um filme que se preza e que fica na memória das pessoas precisa de sons, além de imagens. E fica difícil se esquecer de músicas como as da trilha sonora de ‘A qualquer custo’, a cargo de Nick Cave e Warren Ellis, com 15 faixas, que vão de ‘Comancheria’ a ‘Outlaw State of Mind’, passando por ‘Knockin’ On Heaven’s Door’, a alma sonora do longa-metragem, evocando a atmosfera de uma América amarga e nostálgica, mas sedenta de justiça, seja lá o que isso possa significar ou exigir em troca.

Você pode até não gostar de faroestes, ainda mais os modernos ou urbanos, como quer se parecer ‘Hell or High Water’, mas certamente você vai sair surpreso do cinema. Talvez até sorrindo, sem nem entender exatamente a razão. Os tais conflitos, que se grudam nos personagens, dão o ritmo e estabelecem total cumplicidade, verdadeira empatia com a platéia, que torce pelos bandidos, apesar de suas ações não resistirem ao julgamento da lei. E, ao final, fica no ar a questão, que ninguém consegue responder: quem exatamente roubou de quem?

Filme: A Qualquer Custo
Data de lançamento:
5 de janeiro de 2017 (Brasil)
Direção: David Mackenzie
Roteiro: Taylor Sheridan
Música composta por: Nick Cave, Warren Ellis
Indicações: Prêmio Globo de Ouro: Melhor Filme Dramático
Elenco:
Chris Pine: Toby Howard
Jeff Bridges: Marcus Hamilton
Ben Foster: Tanner Howard
Gil Birmingham: Alberto Parker

Katy Mixon: Jenny Ann

Ben Foster e Chris Pine no filme A Qualquer Custo

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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