Críticas Lucinha no Cinema

A segunda esposa – Kuma

O que parece mais perturbador: o confronto de culturas ou a tomada de medidas inusitadas, por conta de situações e necessidades consideradas insuperáveis? E quando isso tudo vem junto, num pacote embrulhado como presente de casamento?

Pois foi o que o diretor curdo-austríaco, Umut Dag fez em seu longa ‘A segunda esposa’. Para entender melhor, imagine uma festa de casamento. Mas não de qualquer casamento, como aqueles do tipo ocidental a que estamos acostumados. Pense num casamento arranjado, daqueles em que a iniciativa de selar a união não parte dos noivos, mas de seus pais, ou de algum casamenteiro contratado.

Depois de sair do Curdistão turco, onde a cena das bodas ocorreu, com evidente mal-estar entre todos, incluindo aí noivos, parentes e convidados, chegamos em Viena, num apartamento onde cabem pelo menos três gerações de imigrantes turcos e muitas questões não resolvidas, incluindo violência doméstica e segredos de sexualidade reprimida.

Neste drama, Fatma (Nihal Koldas), casada com Mustafa (Vedat Erincin) e mãe de seis filhos, escolhe Ayse (Begüm Akkaya), uma jovem que morava na Turquia, para se casar com seu filho Hasan (Murathan Muslu), como manda a tradição. Mas, o que parecia ser o início de uma nova família, na verdade é uma grande farsa.

Fatma está muito doente e deseja deixar uma sucessora, alguém que ela treinará para cuidar de sua casa, seu marido e seus filhos. Um plano perfeito se os participantes não fossem humanos, a realidade pudesse ser manipulada e o futuro predeterminado.

Certamente que o diretor, sendo filho de imigrantes curdos nascido na Áustria, tem muito a dizer, não só em relação aos relacionamentos derivados de tais casamentos tradicionais muçulmanos, como também em relação ao amálgama das tradições trazidas com as encontradas no país adotado.

Interessante lembrar que por conta do chamado Curdistão turco, situado na parte sudeste da Turquia e que ocupa quase um terço do país, há uma questão política em aberto, com movimentos separatistas em atividade desde 1920, quando a região foi incorporada pela Turquia. E não é por acaso, que a Áustria possui uma grande comunidade de origem turca, de primeira e segunda geração de imigrantes, com cerca de 270 mil pessoas, a maioria morando em Viena.

Nessa inquietante estória, que às vezes se assemelha a um dramalhão familiar, tal a diversidade de questões mal resolvidas, os protagonistas que emergem das tramas têm sempre vozes e necessidades femininas. Quer para ordenar, para lamentar, ou mesmo para alterar o rumo da estória.

A renda pode vir das mãos calosas dos homens, trabalhando duro para manter numerosas famílias, mas a autoridade familiar, aquela ditada entre as quatro paredes, essa advém de uma mulher, a primeira esposa, a verdadeira matriarca, e quem efetivamente dita o ritmo da vida naquela casa.

E as atrizes e suas personagens não decepcionam. Tanto Fatma, que no início parecia conciliadora e preocupada com o futuro da família, quanto Ayse, cordata e tímida na medida das oportunidades, assumem suas verdadeiras personalidades, e o egoísmo com a tradição de um lado, e a resiliência com a novidade de outro, se declaram como faces da mesma moeda.

Pequenos detalhes, em cenas aparentemente irrelevantes, como quando Ayse fala ao telefone com parentes na Turquia, ou quando conversa com Hasan no banheiro, assim como o áspero diálogo de mãe e filha no parquinho infantil, revelam motivações e segredos surpreendentes. Nada é o que parece à primeira vista.

E, mesmo ao final, ainda permanece a grande questão abordada na trama: afinal, por que as mulheres, subjugadas pelos preceitos religiosos e sociais impostos pela tradição, acabam por perpetuar a opressão de que são vítimas?

a-segunda-esposa-kuma-02 a-segunda-esposa-kuma-03

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

Facebook
%d blogueiros gostam disto: