Críticas Lucinha no Cinema

A Senhora da Van (The Lady in the Van)

O que levaria alguém a morar na rua? Podem ser muitas as razões. Provavelmente nenhuma sozinha. Mas, num determinado momento, alguma delas se transforma naquela gota d’água, e não há como reverter a decisão. Pelo menos de imediato. E aquela seria uma decisão vista como irracional, levada pelas alucinações ou previsões alarmistas do futuro ou memórias controversas do passado.

A primeira reação dos outros é de solidariedade. Mas, em seguida, muitos se lembram das questões práticas. E a primeira que surge vem com os odores, propriamente os decorrentes da higiene, das necessidades sanitárias e que tais. E esse também era o maior dos problemas enfrentados por Mary Shepherd em ‘A Senhora da Van’.

Na verdade, esse era o problema dos vizinhos da Mary Shepherd. Para dizer a verdade, de um em especial, pelo menos o que mais se incomodava com ela, Alan Bennett (Alex Jennings). E é ele quem conta a história, baseada na verdadeira Mary Shepherd (interpretada pela magnífica Maggie Smith), uma mulher de origens incertas que “temporariamente” estacionou sua van na entrada de garagem da casa de Bennett, em Londres, e acabou vivendo lá por ininterruptos 15 anos.

O que começa como um favor, a contragosto, se torna uma relação que vai mudar a vida de ambos. Filmado na rua e na casa onde Bennett e Mary Shepherd viveram todos esses anos, o aclamado diretor Nicholas Hytner se uniu ao icônico roteirista Alan Bennett (As Loucuras do Rei George/The Madness of King George, Fazendo História/The History Boys) para levar este retrato raro e comovente às telas.

Falamos da cidade de Londres, década de 1970. Uma van procura uma vaga na Gloucester Crescent Street, em Camden Town. E por ali fica, estacionada como num camping. Os dias vão passando, alguns problemas aparecendo. As vagas vão se alternando. A vizinhança se alarmando. Chega um momento que não há mais vagas e Alan oferece uma solução, que espera seja temporária. Mas, quem pode saber por quanto tempo aquela vaga na frente do jardim de Alan abrigará a van de Mary Shepherd?

Ninguém poderia imaginar que esse empréstimo fosse durar tanto tempo! E durou mais do que muitos casamentos. E essa história é realmente comovente, se levarmos em conta os protagonistas. Ele, um escritor e ator premiados, que mora sozinho, apesar de sua própria mãe dar provas de que necessitaria e gostaria de morar com ele. Ela, uma senhora idosa, rabugenta, de difícil trato, que ninguém sabia direito, nem como, nem por que, escolheu uma van como moradia.

Os relatos dizem que ela teria sido uma ótima pianista, que teria tentado virar freira e finalmente que nada disso teria sido bem sucedido por conta de sua rebeldia ou dificuldade de lidar com as questões atinentes aos tais desejos. Chegou a ser internada numa clínica de doentes mentais e dali fugido. Há até quem diga que nessa fuga teria colidido com uma moto em alta velocidade, cujo motorista não teria sobrevivido.

Qualquer que tenha sido a história verdadeira, ainda haveria muitas dúvidas. Ela própria não se chamaria Mary Shepherd, mas Margaret Fairchild, e teria mudado de nome para escapar de um guarda de trânsito, que tendo presenciado o acidente e, mesmo ciente de que ela não seria a culpada, a extorquia seguidamente. Essas curiosidades estão todas ali no longa, mas o diretor mostra nas sutilezas o melhor da história.

O roteiro revela, por exemplo, o senso de humor irônico e autodepreciativo, bem como, a etiqueta, a cordialidade e as boas maneiras dos britânicos, que apesar do incômodo que aquela van trazia, não viravam as costas para as dificuldades de Mary Shepherd. Apesar da nítida e conhecida sociedade hierarquizada, com disciplina e pontualidade usualmente exercidas e exigidas, o respeito aos outros, aos que estão ao seu redor, prevalece por conta dos laços recíprocos de vizinhança, educação e gentileza.

Muito conveniente e bem sucedida foi a escolha de apresentar Alan Bennett, através de dois personagens: o vizinho, cordial e ao mesmo tempo incomodado com a situação, e seu alter ego, o escritor, observador e crítico do seu comportamento, ambos em constantes e hilários diálogos, situação que serve perfeitamente de apoio durante aquela difícil e longa convivência.

Maggie Smith, indicada ao Globo de Ouro por sua soberba atuação como Mary Shepherd, já havia vivido a curiosa personagem, em peça de teatro homônima na capital inglesa, onde fez enorme sucesso.

Aliás, essa história rendeu muitos trabalhos na carreira bem sucedida de Allan Bennett, que não só é o responsável pelo livro e peça homônimos, como por outros sucessos, incluindo 50 programas de TV, 20 peças de teatro, 30 livros, os quais lhe proporcionaram mais de 30 prêmios, incluindo 5 ‘Laurence Olivier Awards’, 2 ‘Baftas’, 5 ‘Evening Standard Awards’ e 4 ‘British Book Awards’.

Há noticias de que Mary Shepherd teria criado um partido político próprio, o ‘Fidelius Party’, além de ter enviado na época da Guerra das Malvinas/Falklands, uma carta ao então chefe de governo argentino, sugerindo que ela seria a verdadeira ‘ Dama de Ferro’, razão pela qual, aguardava, aliás, ser indicada ao cargo de Primeiro-Ministro.

Sem sombra de dúvida, ser diferente da maioria, viver à margem da sociedade, ter opiniões fortes e manifestá-las publicamente não é tarefa fácil. Por seu temperamento intempestivo, inclusive sob o ponto de vista político, Miss Shepherd, como era conhecida, sofreu sérios revezes, mas soube se pronunciar sempre que possível.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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