Críticas Lucinha no Cinema

A Vingança está na Moda

Que as palavras têm força, ninguém duvida. Algumas ganham significado em decorrência da época ou das circunstâncias em que foram usadas ou repetidas ad nauseam. E esse é justamente o caso da palavra do momento –empoderamento. E o mais significativo desse substantivo masculino singular, do inglês empowerment, é que ele tem sido associado ao longo processo de emancipação e consequente autonomia e autodeterminação das mulheres no mundo dito civilizado. Infelizmente não de todas as mulheres, nem em todos os lugares. E há situações nas quais esse reforço de poder é visível, não há como negar. Ele se impõe e elas se impõem no rastro desse poder.

Mas essa palavra às vezes soa um tanto ou quanto, soberba, outras arrogante e até duvidosa, pois pode ainda sugerir uma espécie de delegação de poder, e não simplesmente a emancipação individual ou da consciência coletiva. Mas, foi a vitalidade e a atualidade do empoderamento feminino que me veio à mente logo que vi surgir Kate Winslet como Myrtle ‘Tilly’ Dunnage no longa ‘A vingança está na moda’.

E o tal do empoderamento feminino está ali, em cada cena, aliás, antes das próprias cenas, por conta da diretora de cinema, escritora e produtora australiana Jocelyn Moorhouse, conhecida pela direção de ‘Terras Perdidas’, de 1997, e ‘Colcha de Retalhos’, de 1995, como roteirista e produtora de ‘Amor à toda prova’, de 2002, além de produtora dos longas dirigidos por seu marido, o cineasta australiano P.J.Hogan, com ‘Mental’, de 2012, ‘Peter Pan’, de 2003, e ‘O Casamento de Muriel’, de 1994.

E continua nessa estória, meio comédia, meio drama, com a tal da Tilly Dunnage que retorna à sua cidade natal, uma mistura de Outback australiano com faroeste americano, nos confins da Austrália, depois de ter sido dali escorraçada, ainda menina, acusada de envolvimento em um assassinato. Da Austrália para a Europa, ela conquista fama e reconhecimento por seu trabalho na alta-costura. Decidida a acertar as contas com seu passado, Tilly volta transformada em uma mulher atraente, sofisticada e auto-suficiente.

O roteiro, adaptado pela própria diretora com a ajuda de P.J.Hogan, é baseado no romance homônimo de Rosalie Ham, The Dressmaker. E o que chegou à telona se assemelha a uma fábula, que transforma caipiras em ladies e meninas assustadas em mulheres destemidas. Lembra aquele tipo de estória de transformação, mas não se trata de uma simples estória, nem de uma simples transformação. Tem um pouco de romance, outro tanto de humor negro, doses de sarcasmo e a tão falada vingança do título, numa bem-sucedida cena, incrivelmente inspirada em Shakespeare, lá no finalzinho do filme.

O melhor da estória são as descobertas dos segredinhos tenebrosos dessa pequena comunidade rural, conservadora e discriminatória, com aparência de cidade fantasma, que, mesmo naqueles longínquos anos da década de 1950, parecia muito mais atrasada que o restante do país.

Além dos pecadilhos de cada um, terríveis comportamentos se mantém, e Tilly ainda se surpreende, mesmo depois de tantos anos fora da cidade. E lá havia um pouco de tudo de ruim que a humanidade pode oferecer, desde professores que praticam bullying a políticos que manipulam, maridos que traem e estupram, passando por policiais corruptos, adultos que agem como adolescentes irresponsáveis e as hipocrisias e malícias do dia a dia.

Como só costuma ocorrer nos filmes de sucesso, o melhor está no elenco. Da protagonista aos coadjuvantes, os atores valorizam seus esdrúxulos personagens. A vingança veste bem e Kate Winslet e demais mulheres estão lindíssimas num desfile para lá de estranho naquele fim de mundo! E o tal do Hugo Weaving, que não resiste aos brocados, bordados, plumas e paetês? Da mãe, Molly Dunnage, nem se fale, pois Judy Davis talvez não queira ou não possa se lembrar do passado, muito menos do presente, mas esta soberba como a louca do pedaço. E que tal um personagem que não fala, mas transforma tecidos e acessórios em beleza e poder? Pois é, apresento-lhes Singer, a marca que virou sinônimo de máquina de costura, a chave que abre as portas do sucesso para Tilly.

Como disse Malala Yousafzai, a jovem paquistanesa atacada pelo Talibã e agraciada com o Prêmio Nobel da Paz, ‘nós percebemos a importância da nossa voz quando somos silenciadas.’

É isso aí! Viva a diferença! A mulher faz a diferença!

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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