Críticas Lucinha no Cinema

Agnus Dei (The Innocents)

‘As mulheres raramente fazem guerra, mas costumam sofrer suas piores consequências.’

Esta é uma das constatações de um estudo promovido pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), responsável por contribuir com os países para garantir o acesso universal à saúde sexual e reprodutiva, incluindo o exercício do direito à maternidade segura. E a violência sexual, frequentemente usada como retaliação aos vencidos em guerras ou conflitos armados, tem sido a arma hedionda cada vez mais corrente, e a que deixa mais sequelas, não só às vítimas, mas a todos em seu entorno.

Mulheres de todas as idades são as principais vítimas, mas não as únicas. Os estupros coletivos, ocorridos durante as guerras e praticados desde tempos imemoriais, são na verdade uma guerra à parte, uma verdadeira guerra psicológica, que se presta a humilhar e minar a moral do inimigo. Na antiguidade, muitos soldados eram arregimentados sem qualquer soldo, simplesmente pela possibilidade de participar de saques, pilhagens e estupros, prometidos e incentivados pelos próprios líderes militares.

Há relatos de que, nos últimos seis meses da Segunda Guerra, dois milhões de mulheres alemãs teriam sido violentadas sexualmente pelo ‘exército vermelho’, além dos ataques praticados por outros soldados. Mas, apurar e julgar os crimes do nacional-socialismo alemão tomou toda a energia do pós-guerra, como mostrou o Julgamento de Nuremberg. A aplicação da justiça dos vencedores, além da lealdade política em relação aos aliados, inibiram qualquer tentativa de apuração dos terríveis crimes praticados pelos soldados dos diversos países participantes durante o longo e terrível conflito armado.

Apesar dessas barbáries serem reconhecidas pela Convenção de Genebra como Crimes de Guerra e Crimes contra a Humanidade, não há notícia de que se tenha feito qualquer revisão, reconhecimento ou punição do que ocorreu no passado. Provavelmente, a impunidade se manifesta pelo desconhecimento das atrocidades, falta de provas documentais ou por vergonha dos envolvidos. Recentemente, no entanto, chegou às mãos da cineasta francesa Anne Fontaine (‘A garota de Mônaco’, ‘Coco antes de Chanel’ e ‘Gemma Bovery – A vida imita a arte’) uma história dramática e pouco conhecida, envolvendo violência contra mulheres, fé religiosa, maternidade, abandono, suicídio e um forte embate entre o mundo laico e o religioso. As informações da tal história constavam do diário de uma jovem médica francesa, guardado cuidadosamente por mais de setenta anos por seu sobrinho.

No fim da Segunda Guerra, em dezembro de 1945, a jovem médica Mathilde Beaulieu (Lou de Laâge), a serviço da Cruz Vermelha Francesa na Polônia, descobre diversas freiras grávidas, moradoras de um convento vizinho que havia sido invadido por soldados soviéticos. Apesar da ordem de prestar socorro apenas aos franceses, Mathilde começa a tratar secretamente das freiras polonesas violentadas. Ela deve enfrentar o julgamento das próprias pacientes, que se sentem culpadas por terem violado o voto de castidade, e se recusam a ter o corpo tocado por quem quer que seja.

Trata-se de uma co-produção franco-polonesa-belga, filmada em um convento abandonado em Warmia, no interior da Polônia, em pleno inverno europeu, com a quase totalidade da produção e do elenco formada por poloneses, razão pela qual tanto o polonês, quanto o francês são utilizados nos diálogos.

Além da questão do trauma e da vergonha decorrentes da violência perpetrada contra essas religiosas, o filme aborda um embate entre a visão conservadora da Madre Superiora (Agata Kulesza) e a progressista da Freira Maria (Agata Buzek), a única que, por falar francês alcança a liderança no enfrentamento dos fatos, com a ajuda de Mathilde, a médica francesa oriunda de uma família operária e comunista, atuando como uma espécie de líder feminista e humanitária na crise de fé e de valores sem precedentes desencadeada no Convento.

Os fatos mencionados são terríveis, mas o filme não é piegas ou sensacionalista, e sequer mostra o que de fato ocorreu naquele convento, onde mais de vinte e cinco religiosas foram repetidamente estupradas, e pelo menos vinte mortas por resistência. Tampouco se atém ao julgamento dos crimes ou dos seus agentes. O roteiro se ocupa, ao contrário, em mostrar como cada uma das personagens reage aos eventos e como estes repercutem na vida de clausura a que se impuseram aquelas religiosas. Mas, uma fresta de esperança parece surgir, não só por conta da vida que segue, como faz parecer o som harmonioso dos cânticos, das orações, como pela presença da maternidade, que se impõe, apesar de tudo, e sinaliza uma possibilidade de mudança, no mar de incógnitas políticas que virão no pós-guerra.

Por conta de barbáries recentes de que se tem notícia, qualquer pessoa menos atenta poderia imaginar que o mundo está hoje mais perigoso. Uma análise retrospectiva da história, no entanto, revela que a crueldade e a violência contra as mulheres estão e sempre estiveram presentes, não só pela negação, redução ou ignorância dos direitos das mulheres nas diversas culturas ao redor do mundo, como pela falta ou inadequação da punição dos criminosos. O estupro não é um ato sexual. É um ataque numa guerra silenciosa de poder. E, por enquanto, as mulheres estão perdendo essa guerra.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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