Críticas Lucinha no Cinema

Alice através do Espelho

Manipular o tempo, eis um desejo do homem desde sempre. Como seria essa façanha? Valeria a pena voltar no tempo e modificar o passado ou, quem sabe, antever os eventos futuros e melhorar o destino? Se há algo que foge da capacidade humana, que sabemos existir mas não conseguimos deter, que nos escorre pelas mãos, esse é o tempo, em sua natural fluidez. Diz-se que o tempo corre. Mas, em uma acepção científica, o tempo não flui. O tempo simplesmente é.

Segundo Albert Einstein, quando publicou sua ‘Teoria da Relatividade’, em 1905, o tempo é uma ilusão. A distinção entre passado, presente e futuro não passa de uma firme e persistente ilusão. Seria uma quarta dimensão do‘continuum’ espaço-tempo do Universo, que possui três dimensões espaciais e uma temporal.

E, deve ter sido a partir dessa visão tridimensional, ou melhor, quadrimensional, que Lewis Carroll, pseudônimo do inglês Charles Lutwidge Dodgson, muito antes de Einstein, imaginou o tempo como um personagem em ‘Alice através do Espelho’, de 1871, numa continuação de ‘Alice no País das Maravilhas’, de 1865, ambas estórias maravilhosas, do‘gênero literário nonsense’, que já inspiraram muitos outros escritores e cineastas e, recentemente, o britânico James Bobin (‘Os Muppets’, 2011 e 2014), em filme homônimo, com produção de Tim Burtom, que já havia dirigido o longa anterior de sucesso do mesmo estúdio Disney, ‘Alice no País das Maravilhas’, em 2010.

Em continuação do filme anterior, onde Alice (Mia Wasikowska), seguindo um curioso coelho falante, o Coelho Branco, cai num lugar fantástico, povoado por criaturas peculiares e antropomórficas, nesta nova aventura, Alice retorna após uma longa viagem pelo mundo, reencontra a mãe e precisa superar várias dificuldades. Em uma festa, ela se vê obrigada a atravessar um espelho mágico, retornando ao País das Maravilhas, onde descobre que o Chapeleiro Maluco (Johnny Depp) corre risco de morte, após fazer uma descoberta sobre seu passado. Para salvar o amigo, Alice deve convencer o Tempo (Sacha Baron Cohen) a voltar à véspera do evento traumático, mudando o destino do Chapeleiro. Nesta nova aventura, Alice também descobre o trauma que separou as irmãs da estória original, a Rainha Branca (Anne Hathaway) e a Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter).

O roteiro, da dramaturga americana Linda Woolverton (‘Bela e a Fera’ e ‘O Rei Leão’), não segue a estória original, na qual Alice tem de ultrapassar vários obstáculos, estruturados como etapas de um jogo de xadrez, para se tornar rainha. O filme, no entanto, exalta as mesmas características da protagonista das estórias de Carroll, notadamente a esperteza, a coragem e o raciocínio lógico e arguto de Alice. Nesse sentido, aproveitando bem a nova realidade que cerca Alice, agora adulta e trabalhando na empresa de seu pai, o roteiro explora as questões da então sociedade machista, os problemas familiares e sentimentais dos personagens, sem perder de vista o mundo da fantasia, dos sonhos e a lógica do absurdo, característica da literatura fantástica de Lewis Carroll.

Além do elenco maravilhoso, os efeitos especiais são verdadeiramente impressionantes, com destaque para as enormes e complexas estruturas do Palácio do Tempo e seus personagens, os Segundos, servos do Tempo, mostrados como garotos-relógios antigos e seus sucedâneos, os Minutos e as Horas, que surgem conforme o tempo evolui e os tais relógios antigos são aglutinados, numa espécie de quebra-cabeça móvel, realmente extraordinários! Da mesma forma, são surpreendentes as viagens de Alice no tempo, as peripécias com a cobiçada ‘Chronosphere’, a chave do tempo, além de todos os outros cenários, o vestuário e a maquiagem extravagante dos personagens, tudo perfeitamente adequado e adaptado à evolução das estórias que se cruzam no roteiro.

Como fez questão de ressaltar Tim Burton, a idéia de personificar o tempo foi do próprio Lewis Carroll, quando escreveu as estórias e imaginou o Chapeleiro Maluco revelando que está perpetuamente destinado a beber chá, no mesmo lugar e na mesma hora, porque o Tempo puniu-o em vingança, depois de uma discussão. O tempo, em suas várias nuances e consequências, é verdadeiramente o grande personagem das estórias de Lewis Carroll, mostrado ali nos mínimos detalhes, seja no modo preguiçoso de Alice, despreocupada e independente, antes de conhecer o Mundo das Maravilhas, num contraponto à forma apressada e assustada do Coelho Branco, sempre a repetir ‘I’m late’, atento ao seu relógio de bolso, ou mostrando os eventos que se sucedem, na incessante, marcada e constante fluidez dos segundos, dos minutos, das horas e dos dias, num moto-contínuo do tempo, que flui e se esvai mesmo a contragosto dos personagens.

Segundo os críticos literários, Lewis Carroll teria elaborado as narrativas de Alice como um contraponto fantasioso e feérico, numa tentativa de ridicularizar a postura moralista e edificante da literatura infantil então em voga na Inglaterra vitoriana, construindo, no entanto, obras-primas da literatura fantástica para leitores de todas as idades. As estórias de Alice eram repletas de alusões satíricas, que seriam dirigidas tanto aos amigos como aos inimigos de Carroll, de paródias a poemas populares infantis ingleses ensinados no século XIX, além de referências linguísticas e matemáticas, já que o próprio Carroll era professor de matemática, frequentemente através de enigmas que contribuíram para a sua popularidade na época.

Manipular o tempo, talvez nem Alice consiga. O importante para Carroll, na verdade, é tornar o impossível possível. Essa sim é a grande lição de Alice através das suas estórias fantásticas. Puro sonho, pura fantasia. Mas, para que mais serviria o tempo, afinal?

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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