Críticas Lucinha no Cinema

Amor e Amizade (Love & Friendship)

“Velho demais para controlar, jovem demais para morrer!’ A frase soou cruel? Talvez com um certo ar de cinismo? Pois saiba que retrata fielmente o caráter de quem a pronunciou. Imagine uma dessas mulheres predadoras, típica alpinista social, cujo futuro depende de um casamento financeiramente compensador.

Pois esse é o perfil da bela Susan Vernon (Kate Beckinsale), protagonista de ‘Amor e Amizade’ [‘Love & Friendship’], adaptação cinematográfica da novela ‘Lady Susan’, de Jane Austen, pelo diretor e roteirista americano Whit Stillman (‘Metropolitan’ – 1990, ‘Barcelona’- 1994, ‘Os últimos embalos da Disco’-1998, ‘Descobrindo o Amor’- 2011).

Numa época marcada pela troca de correspondências, ‘Lady Susan’ ficou conhecida como uma novela epistolar, desenvolvida a partir das cartas trocadas entre seus inúmeros personagens. Por conta dessa peculiar natureza, cada personagem é descrito pela visão que os demais têm dele. E essa abordagem fica muito divertida no filme, beirando quase uma psicanálise em grupo daqueles personagens. Além disso, a obra subverte todas as normas dos romances tradicionais daquela época, colocando a mulher num papel ativo na sociedade, a protagonista dos acontecimentos.

Nesse drama com ares de comédia, Lady Susan, jovem viúva fogosa, pensando em fugir das fofocas sobre seus casos amorosos, busca refúgio na propriedade dos antigos cunhados. Lá, ela reflete sobre a vida e decide arranjar um novo marido para si e um bom pretendente para a filha adolescente Frederica (Morfydd Clark).

Assim como a maioria dos romances de Jane Austen (‘Sense and Sensibility’- 1811, ‘Pride and Prejudice’-1813, ‘Mansfield Park’ – 1814, ‘Emma’ – 1815, Northanger Abbey’ – 1818 e ‘Persuasion’ – 1818), ‘Lady Susan’, escrito em 1794, mas somente publicado em 1871, por conta do ambiente moralista vigente anteriormente, retrata a sociedade rural pré-vitoriana, contexto da própria escritora, em plena expansão do colonialismo britânico, com a nobreza ameaçada pelas mudanças sociais e o florescimento da burguesia.

Mas, em ‘Lady Susan’, não vemos as heroínas indefesas comumente retratadas por Jane Austen, sofrendo as agruras e incertezas do amor verdadeiro não correspondido ou as limitações femininas em face da prepotência do masculino. Ele se diferencia, dos outros romances da autora, pela tom de paródia, malícia e ironia, tanto do casamento por interesse, quanto da infidelidade e do divórcio, pouco comum, mas necessário em tempos onde o futuro das jovens dependia do casamento, num mundo dominado pelos estereótipos da nobreza britânica.

Em pleno período britânico da regência de Jorge IV, Príncipe de Gales, durante a enfermidade de seu pai, Jorge III, ponte entre o período georgiano e o vitoriano, esses filmes de época têm um atrativo especial: abrir uma janela no tempo para quem tem interesse em conhecer a aristocracia rural no apogeu do Império Britânico. E Jane Austen tem um estilo próprio de mostrar aquele universo. Seus romances adentram os domínios familiares e desvendam as intrigas de comadres, a falta de perspectivas das mulheres, o cotidiano das famílias, suas peculiaridades, seus pecadilhos e sua hipocrisia, uma verdadeira autocrítica daqueles tempos.

Apesar de ser considerada conservadora, confinando seus personagens no andar superior das ‘houses’ de então, Jane Austen revelava um viés feminista, numa sutil crítica do papel da mulher no limiar do novo século. E, de quebra, mostrava também o pior do ser humano. E aí surge Lady Susan, uma mulher sem escrúpulos, capaz de tudo para atingir seus objetivos. Faz pouco da família, dos amigos, dos códigos morais, da sociedade.

Interessante perceber a ironia perpassando os diálogos, se fixando nos cenários, no vestuário, nas locações. Às vezes tem-se a impressão de que estamos em uma ópera de costumes, com uma marcação quase estática de espaços, sem grandes movimentação. Não há que se falar de efeitos visuais, de grandes tomadas exteriores. O importante se revela na cumplicidade de olhares, na espera ansiosa do mensageiro, na ironia escamoteada das mulheres casadas em relação às solteiras, na inusitada prevalência da mulher frente ao homem, numa total subversão da ordem, não obstante tal mulher ser a predadora, a destruidora de lares, a vilã da estória.

Além de Kate Beckinsale em perfeita sintonia com a maquiavélica protagonista, chama atenção a escolha de Chloe Sevigny, como Alicia Johnson, a confidente e única amiga de Lady Susan, monitorada todo o tempo por seu intransigente marido americano, Mr. Johnson, papel, ironicamente, do britânico Stephen Fry, o menos patético dos personagens masculinos do romance.

O desfecho surpreende, não só pelas circunstâncias da estória, como por ter sido escrito no início do século XIX, onde as questões extraconjugais eram condenadas pela sociedade e os direitos patrimoniais e heranças eram disputados em casamentos de conveniência e acordos de cavalheiros. Mas, surpreende muito mais pelo caráter da protagonista, uma mulher egoísta, astuta, interesseira, manipuladora, saída da imaginação da filha de um reverendo.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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