Críticas Lucinha no Cinema

Animais Noturnos

Susan Morrow (Amy Adams) é uma negociante de arte que se sente cada vez mais isolada do marido, o empresário Walker Morrow (Armie Hammer). Um dia, ela recebe o manuscrito de um romance de autoria de Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal), seu primeiro marido, de quem estava separada há 25 anos.

O romance, intitulado ‘Nocturnal Animals’, acompanha o personagem Tony Hastings numa viagem de carro com sua mulher e filha, que toma um rumo violento ao cruzar o caminho de uma gangue. Durante a tensa leitura, Susan pensa sobre as razões de ter recebido o texto, descobre verdades dolorosas sobre si mesma e relembra traumas de seu relacionamento fracassado.

Esta é a sinopse de ‘Animais Noturnos’ [‘Nocturnal Animals’], o segundo longa de Tom Ford, famoso estilista norte-americano que revitalizou a marca Gucci nos anos 1990 e hoje comanda, juntamente com o empresário italiano Domenico De Sole, a Maison Yves Saint Laurent, a grife Balenciaga, além de patrocinar a marca de Stella McCartney e a de Alexander McQueen.

Mesmo bem-sucedido e sem intenção de abandonar a indústria da moda, Ford resolveu investir também na indústria cinematográfica, dirigindo, coproduzindo e roteirizando o drama ‘A Single Man’/’Direito de Amar’, longa-metragem de 2009, premiado e aclamado pela crítica e pelo público, e que propiciou ao ator britânico Colin Firth o BAFTA, o Volpi Cup, além da indicação ao Oscar na categoria de Melhor Ator.

‘Animais Noturnos’ é uma espécie do subgênero cinematográfico neo-noir de suspense psicológico, com muitas das características pelas quais os ‘films noirs’ ficaram conhecido nos Estados Unidos entre os anos 1939 e 1950: películas em preto-e-branco, cenários noturnos, personagens desesperados, violentos ou corruptos, crimes, geralmente assassinatos, personagens de moral ambígua, policiais corruptos, ‘femmes fatales’, locações remotas, emboscadas, uso de ‘flashbacks’, sobreposições narrativas e final em aberto ou ambíguo.

A cena inicial de ‘Animais Noturnos’ é impactante e parece preparar nossos sentidos para as surpresas e impactos que se sucederão. A galeria de Susan faz uma performance de excentricidade, sensualismo e bizarrice em alta voltagem. Várias mulheres obesas, vestindo apenas chapéus e botas com as cores da bandeira americana, se apresentam em fotos gigantescas, vídeos e ao vivo, em poses e danças ao som da trilha sonora assinada por Abel Korzeniowski.

Enquanto a performance acontece, os convidados conversam e bebem despreocupadamente, como se as tais modelos não estivessem ali. Segundo Tom Ford, esse evento seria uma declaração metafórica da sociedade americana, onde exibicionismo e individualismo estão em alta.

Lidar com beleza e estilo fez de Tom Ford um esteta. Desde seu primeiro longa, nada que se vê na tela está ali por acaso. Além da beleza singular das atrizes – Julianne Moore em ‘Direito de Amar’ e Amy Adams em ‘Animais Noturnos’ – a estética predomina nos mínimos detalhes. Seja para o julgamento e percepção dos que assistem, seja para a produção das emoções dos personagens, o prazer derivado do que é belo sobressai em todas as cenas do longa, num deleite para os olhos.

O roteiro é uma adaptação do romance ‘Tony and Susan’, do escritor americano Austin Wright, publicado em 1993. Assim como no livro, o filme entrelaça três estórias: a vida de Susan no presente, a vida de Susan no passado e a estória de terror psicológico do manuscrito escrito por seu ex-marido.

À medida que Susan lê o romance, ela imagina o protagonista Tony Hastings, como Edward, seu ex-marido, vivido por Jake Gyllenhaal. Há uma superposição de espaço e tempo, ficção e realidade, dando-nos a impressão de que Susan não só procura vestígios de seu ex-marido na estória, como reavalia, a partir do tal manuscrito, suas desventuras passadas, seu problemas presentes e suas perspectivas futuras.

O manuscrito existe realmente? O episódio hiper- violento, envolvendo estupros e assassinatos, pode ser uma espécie de vingança de Edward? Estaria a insônia de que sofre Susan alterando sua percepção da realidade? Ela teria sido casada com Edward Sheffield há 25 anos ou tudo não passa de uma alucinação vinculada à sua fértil imaginação ou às vivências registradas na sua memória? A edição do filme é seu grande trunfo e a cena final pode ser a chave de todos os enigmas de Susan.

SINOPSE:
Um escritor pede a sua ex-mulher para ler o manuscrito de seu novo romance, uma história sobre um homem de família cuja vida dá uma guinada sombria.
Data de lançamento: 14 de outubro de 2016 (Reino Unido)
Direção: Tom Ford
Música composta por: Abel Korzeniowski
Indicações: Leão de Ouro
Prêmios: Festival de Veneza: Prêmio Especial do Júri, Prêmio Globo de Ouro: Melhor Ator Coadjuvante em Cinema
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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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