Críticas Lucinha no Cinema

Anomalisa

O que seria uma anomalia? Assim de pronto, só puxando pela memória, poderíamos dizer que é tudo aquilo (fora da normalidade), (diferente do padrão). E os dicionários confirmam essa (exceção à regra), (singularidade), registrando ainda, tanto a origem grega ‘anomalía’ (desigualdade), como a latina, ‘anomalîa’ (irregularidade).

O propósito dessa introdução é entender melhor o universo de Charlie Kaufman, responsável pelos roteiros de ‘Quero ser John Malkovich’ (1999), ‘Adaptação’ (2002) e ‘Brilho eterno de uma mente sem lembranças’ (2004), além da direção e roteiro de ‘Sinédoque – Nova York’ (2008) e do atual ‘Anomalisa’, a animação em ‘stop-motion’, com bonecos tão perfeitamente humanos quanto muitos dos humano ao nosso redor.

O protagonista, Michael Stone (voz de David Thewlis), é uma espécie de celebridade no mundo empresarial, especialista em atendimento ao consumidor, e, por conta disso, palestrante e escritor de sucesso. Nosso primeiro encontro ocorre dentro de um avião que se dirige para Cincinnati, onde ele fará, no dia seguinte, mais uma de suas palestras.

Muito do que Stone faz, fala ou pensa, sugere algumas das suas dificuldades, tanto pessoais quanto profissionais, como certa confusão mental, uma constante crise existencial, ou a aparente dificuldade de manter relacionamentos, interagir com pessoas, características mais do que frequentes, na verdade inerentes aos personagens criados por Kaufman em seus roteiros.

E a forma criativa que Kaufman desenvolveu para mostrar essas questões foi através da animação, o que simplifica a abordagem, acrescida de uma especial particularidade: a utilização de uma mesma voz para os demais personagens, com o ator Tom Noonan, à exceção de Lisa, com a voz de Jennifer Jason Leigh.

Numa primeira tomada, essa equalização das vozes dos personagens gera um mal estar, uma dissonância auditiva, uma certa incompreensão das dificuldades de Stone. Com o passar do tempo e a evolução da narrativa tudo vai se encaixando, e o que era um desconforto surge como uma revelação, uma grande sacada do roteiro.

O mais bizarro, por assim dizer, é a total incoerência entre a atividade profissional de Stone, especializado em lidar com pessoas e suas necessidades, frente às limitações pessoais, com fracassos nos relacionamentos e dificuldades em cultivar sentimentos. Puro e irresistível Charlie Kaufman!

Mais bizarro, porém, foi encontrar nos diálogos de Stone e Lisa referências ao Brasil, por conta de uma aparente similaridade de anomalias – falar português num continente de espanhóis. Nem melhor, nem pior, só diferente!

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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