Críticas Lucinha no Cinema

Aquarius

“Quem nasceu em Pernambuco há de estar desenganado: ou se é um Cavalcanti ou se é um cavalgado.” Esse era o dito popular que circulava na virada do século 19 para o 20, por conta do fantástico poder dos Cavalcanti de Albuquerque, com três engenhos de açúcar e diversos cargos no Império de Pedro II.

E pensar que tudo começou com um nobre e rico florentino, Filippo Cavalcanti, que no século 16 saiu de Florença, provavelmente por motivações políticas, casou-se com uma mameluca pernambucana, Catarina de Albuquerque, e deu origem ao poderoso clã dos Cavalcantis, a maior família do Brasil, se se considerar que seriam todos descendentes de um mesmo ancestral.

O mais interessante é que algumas coisas não mudam no Brasil. Mesmo com a queda da produção de açúcar no Nordeste, os Cavalcantis, que já tinham se espalhado por todo o país, eram, e continuaram, ricos e poderosos.

Mas, provavelmente, também deixaram lembranças desagradáveis. Se assim não fosse, por que esse dito seria repetido em ‘Aquarius’, o segundo longa-metragem de Kleber Mendonça Filho, diretor, produtor, roteirista e crítico de cinema pernambucano?

Pois é, e esse filme se tornou polêmico, antes mesmo de sua estréia em circuito nacional, por conta do protesto político de seu elenco em Cannes, onde concorreu à Palma de Ouro. Protestos à parte, o filme não tem conotação político-partidária, nem mesmo seria uma obra política, apesar do seu viés crítico, notadamente de crítica social, reiterada tendência do diretor, já manifestada em seu primeiro longa, ‘Som ao redor’ (2013).

Desta feita, ele conta a estória de Clara (Sonia Braga), que mora de frente para o mar no Aquarius, último prédio de estilo antigo da Av. Boa Viagem, no Recife. Jornalista aposentada e escritora, viúva com três filhos adultos e dona de um aconchegante apartamento repleto de discos e livros, ela irá enfrentar as investidas de uma construtora que tem outros planos para aquele terreno: demolir o Aquarius e dar lugar a um novo empreendimento.

Assim como no longa anterior do diretor, há uma espécie de disputa de espaços, uma guerra psicológica de poder. De um lado estão os que gostariam de mudanças, de outro os nostálgicos, que preferem manter suas conquistas, esquecendo-se que eles também ocupam espaços anteriormente de outros, que possivelmente também não teriam cedido facilmente às investidas por mudanças.

Kleber Mendonça está ali em cena, na fala de cada um de seus personagens. É um saudosista, à espera do passado. Quer resgatar uma Recife perdida no tempo, de uma época de famílias grandes e afetuosas, como se o momento atual não fosse seu tempo.

O roteiro, do próprio diretor, intercala diversas fases da vida de Clara, mas o melhor está sempre no passado, segundo suas impressões. Apesar do excelente desempenho de Sônia Braga, sua personagem carece de um perfil psicológico, de uma personalidade. Ela permanece no ‘rasinho’, não tem coragem de dar um mergulho profundo. A única certeza de Clara é não aceitar mudanças, em nenhuma hipótese.

Aliás, resta a questão: trata-se de uma estória de assédio, de ameaça, de constrangimento, de intimidação, que realmente ocorrem, ou simplesmente de relutância, de resistência, de obstinação, de teimosia? Quem teria cometido mais equívocos: o intimidador ou o obstinado? Quem seria a verdadeira vítima?

Bens materiais e conquistas pessoais podem e devem ser valorizados, preservados. Mas situar o novo, a mudança, a modernidade com o errado, o destruidor não levará necessariamente à manutenção de uma vida mais satisfatória para os relutantes.

Por conta do peculiar título, lembrei-me de que li recentemente que os ‘aquarianos’, aqueles nascidos sob o signo de Aquário, estariam sempre dispostos a reformar e inovar. Seriam revolucionários e progressistas, não obstante também serem do contra, com opinião formada sobre tudo. Você nunca vai conseguir dominar um aquariano convicto. Para os que acreditam, ‘Aquarius’ e aquarianos são um prato cheio de contradições.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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