Críticas Lucinha no Cinema

Até o Último Homem

por Lucia Sivolella Wendling*

Você, provavelmente, já ouviu falar que princípios religiosos, morais ou éticos podem influenciar de tal forma um indivíduo, que ele se sentiria impedido de aceitar, por exemplo, a prestação do serviço militar, a prática do aborto, da eutanásia, da pena de morte, ou mesmo a exploração animal, incluindo o uso de cobaias e a pecuária. Talvez, você mesmo já tenha refletido a respeito e se perguntado até que ponto iria para defender suas convicções religiosas, morais ou éticas.

Mas, aposto que você não sabia que a utilização desses princípios tem nome, reconhecimento mundial e até dia de celebração. Em memória a homens e mulheres que morreram ou sofreram retaliações em razão de questões de consciência, a ONU reconheceu, em 15 de maio de 1994, a objeção de consciência como um direito e instituiu aquela data como o dia internacional dos objetores de consciência. Nos termos desse reconhecimento, quem faz objeção de consciência deve oferecer uma alternativa de ação pacífica, como assumir uma função administrativa, por exemplo, ao invés do treinamento bélico nas forças armadas.

À primeira vista, poderia haver uma certa confusão entre a objeção de consciência e a desobediência civil, da qual se distancia, no entanto, pelo caráter moral, e não político, no qual se apoia. Na maioria dos países, a questão se limita aos serviços militares, como no Brasil, onde não há divulgação dessa alternativa, apesar da previsão constitucional do ‘imperativo de consciência’.

Muitos opositores de consciência já foram executados,
presos ou receberam sanções quando seus princípios os levaram a ações em oposição aos sistemas legais de seus países. Ao longo do tempo e dependendo do lugar, a abrangência do conceito foi se alterando e a Suprema Corte Americana, por exemplo, entendeu que um indivíduo pode não querer participar de uma guerra por razões de ordem religiosa, moral ou ética, não admitindo, entretanto, o posicionamento político como justificativa de exclusão.

Infelizmente esse entendimento veio mais tarde do que esperava Desmond T. Doss, um paramédico do exército americano que, durante a Segunda Guerra Mundial, se recusou a pegar em armas. Apesar das inúmeras dificuldades enfrentadas por ele depois que se alistou, conseguiu servir na ala médica do regimento e, durante a Batalha de Okinawa, resgatou mais de 75 soldados feridos, figurando como o primeiro Opositor Consciente da história norte-americana a receber do presidente Harry Truman a Medalha de Honra do Congresso.

Estamos falando do filme de guerra, drama e ficção histórica ‘Até o Último Homem’ [Hacksaw Ridge], dirigido pelo ator, produtor, roteirista e diretor de cinema americano, naturalizado australiano, Mel Gibson e estrelado por Andrew Garfield (Desmond T. Doss), à frente de um grande e competente elenco, dentre os quais se destacam Vince Vaughn (Sergeant Howell), Sam Worthington (Captain Glover) e Hugo Weaving (Tom Doss).

O roteiro de Andrew Knight e Robert Schenkkan se baseia na história real de Desmond T. Doss (1919/2006), jovem adventista do Estado de Virgínia, que decidiu se alistar no exército logo depois do devastador ataque dos japoneses a Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, a partir do qual os Estados Unidos entraram oficialmente na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Aliados.

Qualquer um, que tenha conhecimento de um adventista se alistando numa guerra, certamente ficaria perplexo, pois suas crenças religiosas são totalmente incompatíveis com os serviços a serem prestados por um soldado armado. Por isso, soa como um paradoxo ouvir que um pacifista se alistou.

Mas àquela altura, as notícias do ataque surpresa em Pearl Harbor, base naval norte-americana no Havaí, eram terríveis: depois de 141 bombardeiros em menos de 24h, havia nove navios afundados, 21 destruídos, 350 aviões em terra incendiados, 2403 mortos, aí incluídos os 1177 marinheiros do US Arizona detonado por uma bomba de 800 kg, além das 1178 pessoas feridas. No dia seguinte, minutos depois do Congresso dos EUA declarar guerra ao Japão, o presidente Roosevelt assinou a declaração de guerra. Até hoje, o trauma e a humilhação sofridos em Pearl Harbor permanecem na memória coletiva americana.

O filme já ganhou quinze prêmios, com seis indicações ao Oscar, incluindo a de melhor filme, direção, edição, mixagem de som, edição de som e ator, realçando os aspectos mais relevantes da produção. Entre a idéia inicial e a produção final se passaram mais de 14 anos (as filmagens, realmente, tomaram só dois meses), além do longo tempo gasto para que Doss autorizasse um filme da sua história.

Desmond Doss recusou vários convites para levar sua história ao cinema, entendendo que os verdadeiros heróis eram os soldados mortos ou feridos. Somente às vésperas da morte, autorizou o produtor Terry Benedict a fazer um documentário denominado ‘O Opositor Consciente’ [The Conscientions Objector], cujos trechos de entrevistas encerram o longa de Gibson.

O longa-metragem fez um contundente e ultra-realista retrato da Batalha de Okinawa – o maior ataque anfíbio da história e a última grande batalha da Segunda Guerra. Foi considerado um dos mais sangrentos combates do que ficou conhecido como a campanha do Pacifico – na qual morreram mais de oitenta mil soldados, além das 130 mil baixas civis, numa região de difícil acesso, na ilha de Okinawa, arquipélago de Ryukyu.

A história real de Desmond Doss fala muito de Mel Gibson e de suas convicções religiosas, dado que é reconhecido como um católico tradicionalista. Gibson atuou em mais de 40 filmes, desde 1977, quando iniciou sua carreira artística, e dirigiu cinco longa-metragens, incluindo ‘Coração Valente’ [Braveheart], de 1995, pelo qual ganhou o Oscar de melhor filme e melhor diretor e o Golden Globe de melhor diretor, além de diversos outros prêmios e indicações.

Talvez discutir a tolerância religiosa, o sacrifício individual em nome do coletivo ou resgatar soldados feridos sejam a verdadeira redenção de Mel Gibson, dez anos depois de ‘Apocalypto’, tempo no qual ficou numa espécie de lista negra de Hollywood por mau comportamento, resultado de bebedeiras e declarações politicamente incorretas. Depois do castigo, a redenção. Parece que valeu a pena ter fé.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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