Bingo – O Rei das Manhãs

by Lucia Sivolella Wendling | atras 1 semana

Olhando pelo retrovisor da memória cultural brasileira, podemos ver muitos excessos na década de 1980, além da inflação crescente – beirando os 330% ao ano: babados e ombreiras em roupas espalhafatosas, cabelos super volumosos e botas brancas de cano longo, muitas vezes acompanhadas por shortinhos e maquiagem pesada.

Esse visual, aliás, nos lembra alguém que se tornou um fenômeno na TV brasileira, com mais de dois mil programas infantis, incluindo o ‘Clube da Criança’ (1983-1986) e o ‘Xou da Xuxa’ (1986-1992): a modelo, cantora e apresentadora Xuxa  Meneguel, mais conhecida como a ‘Rainha dos Baixinhos’.

Considerando o carisma e a beleza de Xuxa, assim como seu jeito moleca, extrovertido e diferente para lidar com crianças, parece estranho que alguém ousasse competir com ela, chegando a se destacar nesse campo de atuação, especialmente se lembrarmos que a TV Globo era praticamente imbatível, tanto na audiência nacional, quanto na programação infantil.

Naquela época a rádio e a televisão brasileiras eram os principais meios de disseminação da dita ‘cultura pop’ e entre programas importados, como o seriado mexicano ‘Chaves’, e tupiniquins, como o ‘Balão Mágico’, surgiu um personagem criado em 1946 pelo americano Alan Livingston, originalmente para uma coletânea de discos da Capitol Records, com histórias infantis e livros ilustrados, intitulado ‘Bozo at the Circus’.

Depois de se tornar o mascote da gravadora – ‘Bozo the Capitol Clown’ – fez sua estreia televisiva e foi transformado em uma franquia de enorme sucesso em diferentes canais americanos. Um dos atores que mais se destacou foi Bob Bell que personificou Bozo por 25 anos na WGN-TV de Chicago, cuja versão é até hoje satirizado no desenho animado ‘Os Simpsons’, através do palhaço Krusty, uma paródia do Bozo.

Outro personagem muito famoso – o palhaço Ronald McDonald, da cadeia de lanchonetes homônima, também deve sua notoriedade ao Bozo, nesse caso o interpretado por Willard Scott, que fazia merchandising para as lanchonetes e deu origem ao mascote da rede. Nessa época, por conta da repercussão de sua popularidade junto ao público infantil, Bozo recebeu o título de ‘Embaixador Mundial da Boa Vontade’, concedido pela Unicef.

O programa do palhaço Bozo – conhecido por seu nome completo Bozo Bozoca Nariz de Pipoca – chegou a ser produzido em mais de 240 estações de televisão em 40 países, entre eles o Brasil, trazido por Silvio Santos, que havia acabado de inaugurar a TV Studios, onde foi exibido entre 1980 e 1991. O comediante Wandeko Pipoka foi escolhido por Larry Harmon, o dono da franquia, para ser o primeiro Bozo brasileiro.

E agora o famoso palhaço volta a ser destaque no Brasil com o lançamento da comédia dramática “Bingo: O Rei das Manhãs”, primeiro longa-metragem dirigido por Daniel Rezende, conhecido editor de filmes como os premiados “Cidade de Deus” (2002); “Tropa de Elite” 1 e 2 (2007 e 2010); “Ensaio sobre a Cegueira” (2008); “A Árvore da Vida” (2011) e “Robocop” (2014) entre outros filmes.

O longa-metragem não é exatamente uma cinebiografia (que relataria a vida de um personagem) possibilitando maior liberdade criativa aos produtores, mas tem referências reais da vida de Arlindo Barreto – um dos quinze atores que interpretaram Bozo no Brasil –  mostrando seus excessos com drogas, mulheres, brigas de bastidores e decepções pessoais, tudo concentrado na década de 1980, quando o programa infantil fazia enorme sucesso na televisão brasileira.

O Bozo de Arlindo Barreto se destacou, apesar de o ator jamais ter sido reconhecido pelas pessoas, por estar sempre fantasiado. Na verdade, havia proibições contratuais de não divulgação da real identidade dos intérpretes do Bozo. Esta frustração, aliada a outras decepções na vida privada, teriam levado Arlindo Barreto a se envolver com drogas, chegando a utilizar cocaína e crack nos bastidores do programa.

No filme, Arlindo Barreto é Augusto Mendes (Wladimir Brichta), um ator que sonha em ter uma carreira na televisão, mas que só consegue fazer pornochanchadas e pequenas participações em novelas na TV Mundial, a emissora com maior audiência no país. Num golpe de talento e oportunidade, Augusto consegue ser contratado como o palhaço Bingo, protagonista de um programa infantil nas manhãs da TV concorrente.

O roteiro de Luiz Bolognesi (conhecido por ‘Elis’, ‘Como nossos Pai’ e ‘Bicho de Sete Cabeças’ entre outros roteiros) foge das limitações impostas por direitos autorais e pela realidade dos fatos, ao alterar todos os nomes das personalidades então envolvidas no programa infantil, com exceção da personagem vivida pela cantora e dançarina Gretchen (Emanuelle Araújo), única personagem efetivamente real no filme.

E Bozo vira Bingo numa divertida história de ascensão e queda de um mito, em uma época em que o excesso, o jeitinho e a malandragem imperavam e o politicamente correto ainda não tinha nascido. Quer uma prova? Imagine a cena: você liga a TV para assistir a um programa infantil com seu filho de seis anos, às 9 h da manhã, e se depara com uma cantora em traje e dança sensuais cantando Conga Conga Conga, o grande sucesso do momento. Esse era o Brasil dos anos 1980: tudo acabava em sexo, drogas e Rock and roll!

Por ironia do destino ou pelos excessos da época, Arlindo Barreto saiu das festas, regadas a drogas e orgias, direto para os braços da igreja evangélica frequentada por sua então produtora e diretora Lucia (Leandra Leal), com quem se casou e vive até hoje.

Mais do que mostrar esse anti-herói da cultura brasileira, “Bingo” traz à discussão a difícil convivência entre sucesso e família, fama e anonimato. Até que ponto você suportaria a notoriedade de um personagem em detrimento da pessoa por trás da máscara? Há atores que dizem que isso é pior que a morte!

Como condição para permitir a filmagem de sua história, Arlindo Barreto impôs que o filme terminasse com uma visão redentora do ator, que após a conversão religiosa teria conseguido superar seus vícios e limitações. Bingo virou o ‘Palhaço de Deus’ e atualmente faz turnês com o espetáculo ‘Mr Clown’, em comédias de cunho religioso.

Valeu muito conhecer os bastidores da televisão brasileira, uma grande curiosidade do público. Além disso, o elenco faz toda a diferença, no chamado ‘filme de personagem’, com a extraordinária performance de Wladimir Brichta: em seu melhor papel até hoje! E que alegria poder rever a última performance do ótimo Domingos Montagnier, numa pequena, mas importante participação como o mentor do Bingo de Arlindo Barreto. Ainda temos Pedro Bial, Tainá Müller, Ana Lúcia Torre e Augusto Madeira: quem precisa de mais estrelas?

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