Críticas Lucinha no Cinema

Blade Runner 2049

Apesar de todas os benefícios trazidos pelas modernas e inovadoras tecnologias, muitos afirmam que a vida na Terra será pior, muito pior no futuro. Algumas pessoas chegam a negar as vantagens da modernidade, com um olhar no passado, deixando a nostalgia pautar sua existência. Certamente que há muito o que melhorar, mas teremos realmente que nos lamentar no futuro de tudo aquilo que hoje nos ajuda a viver melhor?

Por conta dessa visão catastrófica, baseada em futuros distópicos, povoados de perigos e incertezas, centenas de livros e filmes foram e continuam a ser criados. E, um dos melhores filmes de ficção científica norte-americano de que se tem notícia – “Blade Runner: O Caçador de Andróides” [“Blade Runner”], dirigido pelo britânico Ridley Scott, conseguiu gerar uma continuação – “Blade Runner 2049”, agora a cargo do cineasta e roteirista franco-canadense Denis Villeneuve  (“Incendies” – 2010, “Prisioners” – 2013, “Enemy” – 2013, “Sicario” – 2015 e “Arrival” – 2016).

O roteiro do “Blade Runner” original, lançado em 1982, foi escrito por Hampton Fancher e David Peoples e era baseado no romance “Do Androids Dream of Electric Sheep?” (“Andróides sonham com ovelhas elétricas?”), de Philip K. Dick (1928-1982), que teve outras obras adaptadas para o cinema, como em “Minority Report”, “Total Recall”, “Screamers”, “Paycheck”, entre outros sucessos de Hollywood.

A história do primeiro filme se passa em uma decadente Los Angeles de 2019, atormentada pela poluição exacerbada e pelo colapso da civilização humana, tanto material quanto moralmente, o que leva os líderes da Terra à colonização de outros planetas. Para ajudar nessa tarefa, são criados seres a partir da bioengenharia  (pela empresa Corporation Tyrell), como se fossem seres humanos artificiais – os replicantes – para serem usados nas mais nocivas e difíceis atividades na Terra e nas novas colônias extraterrenas.

O roteiro se concentra em um caçador de replicantes Rick Deckard (Harrison Ford), que procura por um grupo rebelde de replicantes do modelo Nexus-6, que voltou à Terra depois que seus integrantes foram banidos em razão de um motim: eles não aceitavam uma vida útil de apenas quatro anos.

Na continuação, com direção de Denis Villeneuve, co-produção de Ridley Scott e roteiro de Hampton Fancher e Michael Green, o filme se passa na mesma Los Angeles, trinta anos depois, em 2049. Após os problemas enfrentados com os Nexus 8, uma nova espécie de replicantes é desenvolvida, de forma que sejam mais obedientes aos humanos. Um deles é K (Ryan Gosling), um blade runner que caça replicantes foragidos para a polícia de Los Angeles.

Depois de encontrar Sapper Morton (Dave Bautista), K descobre um fascinante segredo: a replicante Rachel (Sean Young) teve um filho, mantido em sigilo até então. A possibilidade de que replicantes se reproduzam pode desencadear uma guerra deles com os humanos, o que faz com que a tenente Joshi (Robin Wright), chefe de K, o envie para encontrar a criança e destruir todas as evidências relacionadas a ela.

Apesar de hoje ser considerado um ‘clássico cult’ pelos aficcionados do gênero, o primeiro “Blade Runner” não foi bem recebido no seu lançamento em 1982 – nem pelo público, nem pela crítica – provavelmente pelo clima neo-noir e pela complexidade do roteiro. O longa-metragem chegou a ter sete versões, incluindo uma com narração em off de Harrison Ford e vários trechos alterados, com finais e explicações diferentes, de acordo com o interesse do diretor e dos produtores.

Esta nova incursão no gênero dos caçadores de andróides se distancia enormemente da obra-prima de Ridley Scott, ao se prender a questões meramente ideológicas, não obstante ter sido considerada como uma das melhores sequências cinematográficas já realizadas.

O “Blade Runner” original apresentava uma espécie de fábula futurista, na qual os replicantes, no lugar dos animais das fábulas tradicionais, discutiam as questões fundamentais que afligem a humanidade. E todas as nossas inquietudes morais e éticas permeavam as discussões metafísicas e filosóficas a respeito do sentido da vida, da sua relevância e finitude, nos complexos diálogos mantidos entre os replicantes.

O problema central dos replicantes em 2019 era viver mais. A vida com curto prazo de validade era muito angustiante. E a grande e magnífica sacada do roteiro foi colocar um dos replicantes confrontando seu criador e exigindo mais tempo de vida. Havia também, como ocorre em 2049, a questão da memória, da herança que permeia a humanidade. Afinal, em que aspectos os replicantes são diferentes dos humanos?

Parece que só os testes de Voigt-Kampff podem responder a essa questão. Para descobrir replicantes,  um teste de empatia é usado, com um número de perguntas focadas no tratamento de animais – um indicador aparentemente essencial da ‘humanidade’ de alguém. Todavia, por mais incrível que pareça, essa ‘humanidade’ teria se desenvolvido mais nos replicantes do que nos humanos, então mais frios e indiferentes ao sofrimento dos animais.

Os dois filmes têm a mesma ambientação de um ‘filme neo-noir’, com cinematografia escura e sombria, inspirado em uma história de Dan O’Banon e Moebius (Jean Giraud), intitulada ‘The Long Tomorrow’. Também possuem diversas semelhanças com o filme ‘Metropolis’ de Fritz Lang, incluindo um ambiente urbano, onde os ricos vivem literalmente acima e melhor que os trabalhadores comuns.

O clima hostil e sombrio do “Blade Runner” de  1982 é fortalecido, ainda, pela excelente trilha sonora do grego Vangelis (vencedor do Oscar de 1981, com a música tema do filme “Chariots of Fire”/Carruagens de Fogo), por conta da combinação melódica de composição clássica e sintetizadores futuristas, além do solo de saxofone de ‘Love Theme’ por Dick Morrissey e de ‘Memories of Green’ do álbum ‘See You Later’ do próprio Vangelis.

A esperada e festejada presença de Harrison Ford em ambos os filmes reacende a discussão no questionamento que ainda hoje atormenta os fãs de “Blade Runner”: afinal, Deckard era ou não um replicante? A ambiguidade, no entanto, permanece, principalmente depois de passados trinta anos. Mas, como isso foi possível? Afinal, eles não tinham prazo de validade?

O termo blade runner é outra incógnita. O que significaria esse título? Ele se refere aos replicantes comuns ou é exclusivo para os caçadores ? O certo é que foi retirado de uma história de ficção científica de Alan E. Nourse, chamada “The Bladerunner”, cujos direitos foram comprados por William S. Burroughs para realizar um filme em 1979, posteriormente abandonado. Apesar da apropriação no novo filme, o termo nunca teve seu significado explicado. Na versão original de Alan Nourse, o termo se referia a traficantes de equipamentos e medicamentos num futuro distópico, onde os tratamentos de saúde eram restritos e a esterilização era a regra.

A inquietude metafísica, exclusiva dos seres humanos, nasceu com a consciência da sua finitude. Há quem entenda que tais questionamentos estariam no âmbito da alma, aprisionada no corpo humano, e incluiriam os instintos, os sentimentos e as emoções humanas. As pessoas nascem, crescem, eventualmente se reproduzem e sempre morrem no final. Mas, felizmente, se esquecem que nasceram com um prazo de validade. Melhor assim.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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