Críticas Lucinha no Cinema

Brooklyn

A realidade muitas vezes supera a ficção, tanto nas tragédias, quanto nas comédias. Como seria a recepção de um filme, que rendendo homenagens aos ‘ imigrantes que fizeram a América’, recebesse o ‘Oscar de Melhor Filme’, num momento tão suscetível ao surgimento de políticas de contenção da imigração com base em preconceitos e falsas premissas?

O filme em questão é ‘ Brooklyn’, do diretor irlandês John Crowley (’Circuito Fechado’, ‘Dias Selvagens’, ‘Rapaz A’ e ‘Tem Alguém aí’), com roteiro do inglês Nick Hornby (‘Febre de Bola’ e Alta Fidelidade ‘), a partir do romance homônimo do escritor, jornalista e crítico literário Colm Tóibín, nascido em Enniscorthy, na Irlanda, a mesma cidade de origem de alguns dos personagens do longa.

O drama mostra a estória de Eilis Lacey (Saoirse Ronan), uma jovem irlandesa que se muda para o Brooklyn, em Nova York, para realizar seus sonhos. Ela sente falta de casa e tenta se adaptar aos poucos, até que se apaixona por Tony Fiorello (Emory Cohen), um encanador descendente de italianos.

Interessante perceber como a Igreja Católica participava do dia a dia daquela cidadezinha do interior, exercendo forte influência entre as famílias, a ponto de patrocinar os sonhos de seus paroquianos, como fez o padre Flood (Jim Broadbent), amigo da família, pagando todas as despesas da viagem de Eilis.

A criteriosa reconstituição de época ajuda a entender bem aquele difícil período para os irlandeses, tanto em Enniscorthy, logo após a proclamação da república em 1949, com a saída da Commonwealth Britânica e o desmantelamento do protecionismo econômico, como no Brooklyn, com as dificuldades de adaptação e os problemas decorrentes da solidão, do distanciamento da família e dos amigos.

Apesar do tema tão atual, surpreende a inclusão de ‘Brooklyn’ na lista dos indicados ao Oscar. O filme não é ruim, mas está longe de ser considerado um dos oito melhores de 2015. Quem sabe seus eleitores não seriam nostálgicos descendentes de irlandeses, ansiosos por uma justa homenagem aos seus ancestrais?

A relação dos irlandeses com a América é muito mais antiga e estreita do que se possa imaginar. Desde meados dos séculos XVI, os protestantes de Ulster, parte do que hoje se denomina Irlanda do Norte, seguidos dos católicos do Sul, emigravam para os EUA.

Posteriormente, entre 1845 e 1849, no flagelo que ficou conhecido como ‘a grande fome’, por conta dos graves problemas nas plantações de batatas e cereais, cerca de um milhão de irlandeses morreram e outro milhão e meio emigraram, no que ficou conhecido como a ‘diáspora irlandesa nos EUA’, reduzindo em cerca de 30% o então mais populoso país da Europa.

A princípio, em razão da proximidade com o porto de chegada e a falta de dinheiro, os irlandeses se fixavam em Nova York, estabelecendo ali uma grande colônia. Com o passar do tempo e o aumento dos imigrantes, eles se espalharam por vários estados, com grandes colônias em Massachusetts e na Califórnia. Em 1910, havia mais irlandeses em Nova York do que em Dublin!

Pelo censo de 2011, cerca de doze por cento dos americanos disseram ser descendentes de irlandeses, contando-se aí vinte e seis presidentes com alguma ascendência irlandesa, de Andrew Jackson, passando por John F. Kennedy, o primeiro católico, até o atual presidente, Barack Obama.

‘Brooklyn’, o filme, pode, no máximo, ser visto como uma estória de amor edificante, na qual irlandeses e italianos se cruzam além-mar e se identificam a partir de pontos em comum nas suas culturas, religião, culinária, festas, famílias. A experiência de Eilis Lacey foi transformadora, mas faltou um pouco mais de conflito nesse drama.

Apesar das dificuldades, dos sofrimentos e dos preconceitos, a terra estrangeira que recebe um imigrante será sempre melhor que a terra natal sem oportunidades. Às vezes é preciso ousar e enfrentar o novo, o distante, o desconhecido.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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