Críticas Lucinha no Cinema

Cães de Guerra

O que governos, burocracia e guerras podem ter em comum? Aparentemente muitas coisas, mas, certamente, negociatas, falcatruas e negócios escusos. E nem adianta dizer que há regras, regulamentos e punições para quem ousa burlar a lei. Nada disso impede a criatividade de quem pensa em ganhar dinheiro fácil.

A propósito, burocracia e governo são duas palavrinhas que parecem nascidas para viverem eternamente juntas. Por conta dessa perfeita união, muitos se valem da lei para burlar a própria lei. Pois é, e ainda fazem tudo pela internet. Para o bem e para o mal, a internet chegou e não há como impedir ou limitar a facilidade que trouxe aos que a utilizam para encontrar oportunidades de negócios pelo mundo.

De vez em quando a gente sabe de estórias que parecem saídas da imaginação de bons roteiristas. Mas a realidade, por incrível que pareça, supera muitas vezes a imaginação! Se não houvesse provas, fatos e fotos, ninguém acreditaria na estória contada no filme norte-americano ‘Cães de Guerra’.

Baseado em uma reportagem do jornalista canadense Guy Lawson, publicada em março de 2015 na Revista ‘Rolling Stones’ e, posteriormente, transformada no livro ‘Arms and The Dudes’, o diretor e roteirista americano Todd Phillips [‘Se beber, não case’] lançou um misto de drama, comédia, ação e filme de guerra.

A estória gira em torno de dois ex-colegas de colégio na casa dos 20 anos, Efraim Diveroli (Jonah Hill) e David Packouz (Milles Teller), moradores de Miami durante a Guerra do Iraque, que descobrem como participar de licitações para intermediar a compra e venda de armamentos e uniformes militares para o governo americano.

Partindo quase do zero, eles fazem muito dinheiro e passam a viver uma vida de luxo. Mas a dupla enfrenta alguns problemas, quando consegue um contrato de US$ 300 milhões para armar o exército afegão, o que os coloca em contato com pessoas suspeitas, perigosas e aparentemente conhecidas do próprio governo.

Na verdade, tudo o que aconteceu com essa dupla tem muito a ver com a personalidade dos dois rapazes. David e Efraim eram colegas, mas não exatamente amigos. E também muito diferentes. Enquanto David não tinha grandes ambições, nem talento para ganhar dinheiro, Efraim era um negociador nato, incrivelmente criativo e manipulador. O roteiro fornece algumas dicas de que David seria pessoa de boa índole, em um relacionamento estável com Iz (Ana de Armas), enquanto Efraim não se relacionava bem com ninguém, nem com a própria família, revelando sérios desvios de caráter e propensão a vício com drogas.

A partir dessas informações, fica mais fácil entender porque tudo aquilo aconteceu. Parece ter havido uma série de coincidências e oportunidades, incrementadas pelos dramas pessoais e familiares dos ex-colegas, agora sócios. O mais incrível, no entanto, é constatar a facilidade com que os dois, antes perfeitos idiotas, conseguem penetrar na burocracia estatal e, não só impressionar os funcionários do governo responsáveis pelas licitações, como também ganhar dinheiro, muito dinheiro, com o comércio de armas de guerra.

O elenco se sai muito bem, perfeitamente ajustado aos personagens, com destaque para Jonah Hill (indicado duas vezes ao Oscar de melhor ator coadjuvante por sua atuação em ‘O Homem que mudou o jogo’ -2012 e em ‘O Lobo de Wall Street’ -2013), numa versão bem humorada do sociopata Efraim Diveroli, papel que lhe exigiu certa mudança física, pois precisou engordar tudo o que tinha perdido recentemente para esse papel.

Outra atuação de destaque, que se mostra decisiva no desenrolar e na conclusão da estória, apesar da pequena participação, é a de Bradley Cooper (indicado ao Oscar de melhor ator por ‘O lado bom da vida’ – 2013 e por ‘Sniper Americano’ – 2015, além da indicação de melhor ator coadjuvante por ‘Trapaça ‘ – 2014), que chama a atenção como um importante traficante internacional de armas, o sedutor Henry Girard.

Que a estória da dupla é incrível, ninguém duvida. Conhecer como tudo aconteceu, isso sim é fantástico! Mas, por pouco, muito pouco, tal trama não ficou no ostracismo, surpreendentemente. Não fosse pelo pequeno, mas persistente pecado de Efraim Diveroli, de nunca manter a palavra, ser desleal e ambicioso, muito ambicioso, quem sabe, ainda não estariam intermediando e incrementando o nefasto, mas lucrativo comércio de armas? Se não tivesse realmente acontecido, quem acreditaria numa estória dessas?

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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