Críticas Lucinha no Cinema

Café Society

‘Só há um tipo de amor que dura, o não correspondido.’

Este poderia ser o epílogo, o resumo da comédia dramática ‘Café Society’, o novo longa de Woody Allen, na verdade, seu 47° trabalho como diretor e roteirista. Nada mal para um homem de 80 anos, roteirista e ator desde os anos 1950, indicado 23 vezes ao Oscar (dezesseis só por seus roteiros), premiação da qual levou quatro estatuetas, sendo três de Melhor Roteiro Original (‘Annie Hall’, ‘Hannah and her Sisters’ e ‘Midnight in Paris’) e uma de Melhor Diretor (‘Annie Hall’). Ele ganhou também oito vezes o BAFTA, três o Globo de Ouro, dois o César, além dos diversos prêmios em festivais pelo mundo afora, com destaque para os de Cannes, de Berlim e o de Veneza.

A frase é dele, não consta dos diálogos desse filme, mas até poderia ter sido dita por qualquer um dos seus personagens. Que Woody Allen criou um estilo próprio ninguém duvida. E é quase certo que poderemos assistir em seus filmes as DR, as conhecidas, inoportunas e provavelmente inúteis conversas para discutir a relação, ouvir jazz e as inúmeras interpretações do ‘Swing das Big Bands’ embalando sonhos, desilusões e desencontros amorosos. Enfim, conhecer um novo viés do sonho americano, o surgimento de triângulos amorosos, de dramas morais, em inacreditáveis e desconcertantes descobertas do melhor e do pior do ser humano.

O estranho é ler e ouvir, de críticos amadores e até de profissionais, que seus filmes se repetem, que falta criatividade, química, emoção. Não compreender o argumento do filme, não perceber suas ironias ou não atinar com sua percepção mordaz da vida é até aceitável, mas dizer que ele não é criativo, que se repete, ou simplesmente que não é bom diretor ou bom roteirista, aí é desconhecer sua obra, seu estilo.

Quem quer que se proponha a assistir a um filme de Woody Allen fica sempre na expectativa de surpresas, de um novo modo de perceber o mundo, as pessoas e em especial o amor. E ele não decepciona ninguém. Mais uma vez temos um romance, conduzido por uma leve e solar comédia romântica, que nos leva aos anos trinta do século XX. E lá, vamos conviver com aquele pessoal de cinema, agentes de estrelas, produtores, roteiristas, atores e toda uma galeria de tipos querendo um lugar ao sol, uma chance de marcar a calçada da fama.

À procura de mais oportunidades na vida, Bobby Dorfman (Jesse Eisenberg) troca o trabalho medíocre com o pai joalheiro em Nova York por Hollywood, onde terá uma oportunidade com o tio Phil (Steve Carell), agente de celebridades. Logo, ele se apaixona pela charmosa assistente do tio, Vonnie (Kristen Stewart). Ao descobrir que ela já está envolvida com outro homem, Bobby volta para Nova York onde conhece a linda socialite Veronica Hayes (Blake Lively). Tudo parece caminhar bem para Bobby até Vonnie chegar inesperadamente a Nova York.

Interessante perceber que as situações são tratadas de forma pouco traumática pelos personagens, mesmo quando sonhos são desfeitos e desilusões levam a dramas e desencontros amorosos. Não há desespero ou sofrimento sem fim. Paira no ar uma espécie de elegância sentimental, de serenidade amadurecida, de maturidade emocional. Às vezes temos a impressão de que alguém vai virar o jogo, proferir alguns desaforos, mas os únicos desvios de caráter vêm de Ben (Corey Stoll), o irmão gângster de Bobby, a ovelha negra da família, aquele que resolve tudo com pouco diálogo e muita violência. Não que ele queira, é claro, as circunstâncias assim a exigem, segundo sua percepção.

E isso nos leva à família Dorfman, a típica família judia da infância de Allen, com a típica mãe judia, Rose (Jeannie Berlin), num contraponto hilário com o irascível marido, Marty Dorfman (Ken Stott), a pragmática irmã Evelyn (Sari Lennick), casada com um condescendente e sonhador professor comunista, Leonard (Stephen Kunken), além do já conhecido irmão mais velho Ben, numa versão do judeu mafioso do Broxn, provavelmente inspirado em Ben ‘Bugsy’ Siegel, um dos mais temidos gângsteres de origem judaica a ganhar fama entre as celebridades do cinema.

Aliás, as melhores e mais bem humoradas cenas do roteiro têm a ver com a família Dorfman. E quem não conhece o humor judaico de Woody Allen? Esse humor que ri de si mesmo e dos outros, principalmente dos outros judeus e suas características, seu modo de viver. E fazendo isso, afirma sua superioridade, seu ego, sua sobrevivência.

O humor judaico cria personagens, como é o caso da mãe judia, uma figura superprotetora e sobretudo alimentadora. E Woody Allen usa e abusa dessa personagem. As melhores tiradas e as mais ferinas autocríticas do roteiro saem das palavras ditas por Rose, a supermãe dos Dorfman, destacando a importância do papel representado pela mulher judia na manutenção e transmissão dos valores e tradições judaicos. E é dela, Rose, que vem a melhor distinção entre o judaísmo e o cristianismo, mais uma das especulações filosófico-religiosas sempre presentes nos roteiros de Woody Allen.

O elenco está fantástico, na medida das necessidades. Jesse Eisenberg, o alter ego de Allen, pode parecer um ingênuo romântico, mas supera em muito as expectativas maternas, assim como Steve Carell, o ator camaleão, que resvala de um quase canalha para um romântico irrecuperável. E a sensualidade casta de Kristen Stewart, que dá conta de seduzir todos ao seu redor. Aliás, sensualidade não falta às mulheres do longa, desde Kristen até Blake Lively, a outra Veronica de Bobby, todas envolvidas nas luzes e nos tons fantásticos criados por Vittorio Storaro, o premiado diretor de fotografia italiano, que já levou três estatuetas do Oscar.

Mas, afinal, aonde está o olhar perdido do homem apaixonado? Do que se lembram ou o que emociona o ser humano? Eles têm melancolia, nostalgia ou simplesmente desilusão? Viver pode causar tristeza profunda, desgosto? De que ou de quem você tem saudade? Terá razão o personagem Bobby quando diz que ‘a vida é uma comédia escrita por um sádico autor de comédias’?

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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