Críticas Lucinha no Cinema

Capitão Fantástico

#lucinhanocinema – ‘Capitão Fantástico’ – ‘Captain Fantastic’
por Lucia Sivolella Wendling*

Se eu fosse um ET inteligente, que resolvesse bisbilhotar a Terra lá do espaço, certamente não teria interesse em viver num lugar com sociedades do tipo das que vemos por aqui. Há de tudo um pouco: famélicos e obesos; tiranos e vassalos; consumo excessivo em meio ao desperdício ou à escassez de recursos; discussões estéreis em torno de ideologias ultrapassadas ou falaciosas; violências de toda ordem; questões geopolíticas insolúveis e outros tantos problemas, muitos problemas.

Passados mais de 50 mil anos desde o surgimento da civilização humana tal como a conhecemos hoje, ainda não há um sistema econômico ou de organização social ideal. Que tal um sistema capitalista? Quem sabe um socialista de estado, um socialista libertador, ou um socialista de mercado? Por que não uma economia mista? A propósito, sistema ideal a critério de quem?

Nós, humanos, temos cérebro altamente desenvolvido, somos sociáveis por natureza, dependemos da cultura passada de geração em geração, mas não conseguimos, apesar de todos os esforços, um processo civilizatório pacífico. E a história tem mostrado que todas as inovações surgiram das necessidades primordiais do ser humano, daqueles motivos que fazem o homem se movimentar, se relacionar, agir e criar alternativas para sobreviver, atingir um padrão de vida melhor.

A utopia da sociedade caracterizada pela igualdade de oportunidades e meios para todos os indivíduos existe desde o século XVIII, mas não há consenso sobre como e em que medida isso poderia ser alcançado. Quem, de boa-fé, imagina realmente que todas as desigualdades sociais e econômicas poderiam acabar com a eliminação da propriedade privada ou do próprio Estado?

Pois na ficção muitas dessas ideias vingam e se supõe que possam ser possíveis. Com mais certezas que dúvidas do que a maioria das pessoas comuns, eis que surge, em meio à floresta do noroeste americano, um devotado pai dedicando sua vida a transformar seus seis jovens filhos em adultos extraordinários. Mas, quando uma tragédia atinge a família, eles são forçados a deixar seu paraíso e iniciar uma jornada pelo mundo exterior – um mundo que desafia a ideia do que realmente é ser pai e traz à tona tudo o que ele lhes ensinou.

Esse é o universo do misto de comédia, drama e ‘roadmovie’ intitulado ‘Capitão Fantástico’ [Captain Fantastic], longa-metragem selecionado em 2016 para a mostra ‘Un Certain Regard’ do Festival de Cannes, para o Festival Sundance e para o Festival do Rio 2016. Trata-se do segundo longa-metragem do ator, roteirista e diretor americano Matt Ross – conhecido por atuar em séries e filmes como ‘Silicon Valley’, ‘Big Love’, ‘Ring of Fire’, ‘Psicopata Americano’, ‘Boa Noite e Boa Sorte’, além de ter roteirizado e dirigido ’28 Hotel Rooms’.

Muitas das certezas desse superpai, Ben Cash (Viggo Mortensen), se baseiam no discurso do linguista, filósofo e ativista político norte-americano Avram Noam Chomsky, de 88 anos, idolatrado pela família Cash, que lhe dedica um dia de louvação por ano. Chomsky se autodenomina um anarco-sindicalista, por conta de suas crenças no anarquismo tradicional e no socialismo libertário. Conhecido por suas posições políticas ditas de esquerda, é um anti-americanista ferrenho e partidário das lutas populares como forma de ampliar a democracia.

O roteiro do próprio diretor valoriza o que a seu ver seria a sociedade ideal, o chamado ‘Planeta Chomsky’: liberdade com responsabilidade, valorização dos direitos humanos, crítica e autocrítica, autogestão, autossuficiência, solidariedade, contato com a natureza. Tudo regado com muitas leituras, debates, estudos, exercícios físicos, música e trabalho, ou o que for necessário para justificar o que se come, o que se usa, o que se precisa.

Ninguém pode mentir, ninguém pode esconder nada. Todos têm compromisso com rotinas, com a ordem e com os resultados. A nudez e o sexo fazem parte da natureza humana; são formas de afirmar o bem-estar, de se sentir humano.

Mas nada disso facilita a vida fora dali. Muitos problemas surgirão, principalmente se você sair daquele refúgio, daquela espécie de Edén, do perfeito Shangri-la. Mesmo com todos os conhecimentos que os livros podem fornecer, a realidade vai fazer cobranças e colocar em dúvida todas as suas certezas. Não adianta ter pensamento crítico, referências culturais, educação diferenciada, resignação e catarse sem a convivência com o outro, com o diferente, com a verdadeira vida real.

A síntese do pensamento de Chomsky talvez ajude a entender melhor seus detratores e seguidores: ao invés de um sistema capitalista no qual as pessoas sejam escravos assalariados ou um estado autoritário no qual as decisões sejam tomadas por um comitê central, uma sociedade devia funcionar sem pagamento do trabalho. O trabalho seria voluntário, recompensador em si mesmo e socialmente útil. Os trabalhos degradantes, em contrapartida, seriam obrigatoriamente executados por todos. Seria perfeito se prescindisse dos humanos.

Até que ponto uma vida livre e igualitária se contrapõe ao liberalismo econômico? Podemos prescindir da autoridade de regulação do Estado? Aliás, qual deve ser o tamanho do Estado? Tudo pelo Estado, tudo dentro do Estado, nada fora do Estado? Ou, abaixo o Estado! Qual é a sua preferência? Qual a diferença entre a ditadura do proletariado e um regime tirano, uma sociedade opressora?

Se for para escolher, prefiro o liberalismo econômico. Sou mais Adam Smith, o pai da economia moderna, que afirmava: “Não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover seu auto-interesse. Assim, o mercador ou comerciante, movido apenas pelo seu próprio interesse egoísta, é levado por uma mão invisível a promover algo que nunca fez parte do interesse dele: o bem-estar da sociedade.”

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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