Críticas Lucinha no Cinema

Carol

Como afirmou certa feita o cantor Elton John, se a sexualidade fosse opção, não haveria homossexuais! Concordo. Veja o sofrimento que lhe impõe a família, a sociedade, a religião, a vida. Quem optaria por ser infeliz? Quem, em sã consciência, gostaria de ter sua vida e seus relacionamentos vasculhados, sujeitos a escrutínio, escárnio?

Na verdade, essas questões são muito mais complexas do que parecem, e há uma enorme confusão entre orientação sexual (e não opção sexual, pois não se trata de algo que se possa mudar conforme o desejo) e identidade de gênero, ou como nos reconhecemos dentro dos padrões de gênero estabelecidos socialmente.

Se hoje, em pleno século XXI, ainda há tantas dificuldades para se falar, quiçá definir conceitos desprendidos de tradições, religiões e preconceitos, imagine pensar nisso na década de 1950!

Pois este é o ambiente em que conhecemos ‘Carol’, o novo longa de Todd Haynes, com roteiro de Phyllis Nagy, baseado no livro ‘The Price of Salt’ de Patricia Highsmith, que o lançou sob o pseudônimo de Claire Morgan (por conta da recusa de seu editor, em razão do tema), reeditado em 1990 como ‘Carol’.

Naquela Nova York de 1952, não havia como se cogitar de categorias diversas do homem e da mulher comuns, clássicos, heterossexuais tradicionalistas, com a predominância do gênero masculino e feminino, respectivamente.

Mas Patricia Highsmith queria ousar com uma estória de amor, ou como definiu o The New York Times, ‘um romance moderno de duas mulheres’, com foco na relação romântica-sexual, assunto tabu naquela época.

A literatura dessa grande escritora de ‘thrillers psicológicos’’ (‘O talentoso Mr. Ripley’, ‘ Pacto Sinistro’, ‘O Livro das Feras’, ‘Carol’, entre mais de 20 livros, vários levados ao cinema) é muito pessoal. Conforme descobriu sua biógrafa, Joan Schenkar, ‘ela utilizou todos os detalhes de suas obsessões e de seus inúmeros casos amorosos com outras mulheres como inspiração para sua escrita e para dar um colorido aos seus personagens. Pat foi a mais autobiográfica das romancistas e também a mais misteriosa.’

O filme é um primor, tanto na reconstituição da época, com seus trajes, seus carros, seus bares, suas lojas, seus personagens, como no elaboração do relacionamento entre Carol Aird (Cate Blanchett) e Therese Belivet (Rooney Mara), ambas fantásticas em suas caracterizações.

Os olhares, os gestos, os diálogos, tudo, absolutamente tudo delicadamente apresentado, numa espécie de dança de acasalamento, envolvente, romântica, sensual.

Por mais que se perceba a diferença de idades, experiências e posição social, a personalidade forte também é uma atração reciprocamente exercida. Elas não se oprimem, nem se impõem. Simplesmente são cúmplices na emoção, na descoberta de uma paixão contra tudo e contra todos.

Não há como não se identificar, se colocar no lugar das personagens, sentir suas dores, seus prazeres, suas dificuldades em lidar com os preconceitos, a ignorância em relação ao universo homossexual. E é essa empatia, trunfo almejado pela espetacular direção do longa, que alcança a simpatia, a afinidade, a identidade e o apoio da platéia, sem sombra de dúvida.

A cena final é absolutamente fantástica, e mesmo sem palavras, traduz , nos olhares, toda a essência do longa.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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