Críticas Lucinha no Cinema

Chico – Artista Brasileiro

Personagem fundamental da cultura brasileira nos últimos 50 anos, autor, dramaturgo, compositor e cantor, Chico Buarque dialoga com a própria memória, no filme que tem como um dos eixos a descoberta de seu irmão alemão.

‘A gente queria liberdade!’ São mais ou menos essas as palavras de Chico Buarque num dos blocos do documentário sobre sua vida e sua obra. Confesso que fiquei dividida ao comprar o ingresso: qual dos Chicos o filme iria mostrar? Seria o ativista político, o artista engajado ou o poeta sensacional, o melhor intérprete de suas canções, o escritor de sucesso internacional?

Felizmente, o diretor Miguel Faria Jr., responsável também pelo maravilhoso “Vinicius”, e o próprio Chico não caíram na armadilha política. É certo que eles não fugiram totalmente da questão, mas não fizeram dela o mote do filme, nem a exploraram partidariamente. Felizmente, para o bem do filme e do artista.

Posso não concordar com algumas das suas ideias, ou o que a imprensa nos mostra delas, mas não resisti a assistir ao filme. E tenho que admitir: foi recompensador. Como o próprio Chico admitiu, ele entrou na vida artística sem perceber, levado pelas circunstâncias. E de repente, lá em Roma, no exílio voluntário, sem gravar ou fazer qualquer show, ele foi obrigado a admitir que era um artista e que precisava trabalhar para sobreviver.

Além da graça e do prazer de ouvir do próprio Chico sua história e suas estórias, foi uma enorme retrospectiva nostálgica ouvir aquelas músicas. Numa espécie de epifania, tive a certeza de que aquela era a trilha sonora da minha vida! Aliás, bem poderia ser a trilha sonora do Brasil, pois nada fala mais dele e dos brasileiros que as letras do Chico.

E ouvir estórias e curiosidades de Chico por outros ícones nacionais? Foi emocionante poder rever Dorival Caymmi, só dando uma espiadinha no Chico, o Hugo Carvana contando como foi o primeiro encontro, o amor à primeira vista de Chico por Marieta Severo, e que tal o Vinicius, o Tom Jobim e o Edu Lobo mostrando a importância do Chico na história da música popular brasileira?

Uma das partes mais engraçadas e ao mesmo tempo angustiante tem a ver com a ditadura militar e de como a censura impedia a liberdade artística e todas as atividades intelectuais da época. Letras maravilhosas eram censuradas por conterem versos que discutissem a questão do gênero ou mencionassem o fato de ele ser brasileiro, por exemplo, ou simplesmente por alguma conotação sexual, ou qualquer bobagem, ou palavra de duplo sentido que os censores não entendessem.

E das músicas, o que temos? Além dele cantando “A Banda”, seu primeiro sucesso e que ganhou o Festival de Música Popular Brasileira de 1966, temos a montagem de um show de Chico e convidados e, por conta disso interpretações totalmente novas, absolutamente fantásticas! Que tal ouvir “Mambembe” na voz de Moyseis Marques, “Mar e Lua” por Monica Salmaso, “Estação derradeira” por Péricles, “Sabiá”com a portuguesa Carminho, realmente emocionante! E “Biscate”, num divertido e inusitado dueto entre Adriana Calcanhoto e Martnália, ou “Uma canção desnaturada” com emocionante interpretação de Laila Gariin?

O Chico do filme parece muito mais à vontade do que poderíamos imaginar. Como ele mesmo diz no filme, precisou aprender para criar um personagem e vivê-lo no palco. Antes disso se machucava, pois não dá para misturar vida particular e vida artística. Mas, olhe que interessante: neste bate-papo ele abre seu coração e mostra seu método de trabalho, seu processo criativo, suas dificuldades e até suas angústias. Aliás, como um artista tão fechado se abriu para um amigo e permitiu que nós pudéssemos conhecê-lo melhor?

Segundo o diretor, foram 20 dias de entrevista, a partir da qual foi montado o roteiro. Apesar de Chico querer mostrar mais do artista Chico Buarque, tenho a impressão que ficamos conhecendo muito do Francisco Buarque de Hollanda, seus pais, sua família, sua infância, o amor pela bola, pelo futebol e pelo Fluminene.

A despeito do que sabia dele, depois do filme fiquei com a impressão de um Chico Buarque mais sensível, mais humano, mais gente como a gente. Vê-lo ali na tela, ao lado dos netos, cantando e tocando violão, desperta o carinho que sempre tive por ele.

E, lembrando bem, como ele próprio afirma no documentário, as únicas armas que Chico sempre usou foram suas músicas e seu violão. Vida longa ao Chico Buarque dos olhos azuis-ardósia.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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