Críticas Lucinha no Cinema

Chocolate

“Messieurs, il faut parler plus haut et plus vrai! Il faut dire ouvertement qu’en effet les races supérieures ont un droit vis-à-vis des races inférieures… Je répète qu’il y a pour les races supérieures un droit, parce qu’il y a un devoir pour elles. Elles ont le devoir de civiliser les races inférieures…”

Essa foi uma das declarações do Primeiro-Ministro francês, Jules Ferry (1832-1893), político republicano, adepto das ideias positivistas de Auguste Comte, em discurso na Câmara dos Deputados em 28 de julho de 1885. Lembrado como o líder da expansão colonialista francesa, ele sustentava que a França tinha uma missão civilizadora no mundo. Que as ditas ‘raças superiores’ tinham um direito em relação às chamadas ‘raças inferiores’, porque existia um dever de civilizá-las. E essa era também a voz corrente que dominava o século XIX, o momento das crenças geográficas baseadas no determinismo ambiental, da chamada cruzada civilizatória empreendida pelas potências colonialistas que se dispusessem a conquistar os ditos povos inferiores.

Felizmente, desde que se utilizaram métodos genéticos para estudar populações humanas, a noção de raça foi abandonada pela ciência. E, acredite se quiser, há provas irrefutáveis de que todos os seres humanos modernos compartilham um ancestral em comum, que viveu há cerca de 500.000 anos na África. E a diferença de coloração da pele, tipo facial (forma dos lábios, olhos, nariz), perfil craniano, textura e cor do cabelo, indicam, simplesmente, que a evolução do homem é o resultado de sua constante e progressiva adaptação aos diferentes meio-ambientes. Não há nada mais poderoso para a existência do ser humano que sua constante, infindável e perseverante luta pela sobrevivência.

No final daquele mesmo século emblemático, marcado pelo colapso do Império Francês, surgiu e se tornou famoso o primeiro palhaço negro na França. Ele se chamaria Rafael Padilla, mas não há certeza sobre seus pais, muito menos se esse era realmente seu nome. Há quem diga que poderia ser Rafael De Leïos ou Rafael Patodos. Ele teria nascido escravo em Havana de Cuba, provavelmente em 1868, e vendido ainda criança para um mercador de Bilbao, na Espanha. Anos depois conseguiu fugir e foi encontrado nas docas por um palhaço que o colocou em suas apresentações, onde passa a ser conhecido como Chocolat.

Do circo ao teatro, do anonimato à glória, a incrível trajetória do palhaço Chocolat (Omar Sy), primeiro artista circense negro da França, é o tema de ‘Chocolate’ [‘Chocolat’], o quarto longa do ator, roteirista e diretor Roschdy Zem, francês de ascendência marroquina, indicado seis vezes ao ‘César’ do prestigiado Festival de Cannes (vencedor do ‘César de Melhor Ator’ de 2006 por ‘Dias de Glória’) e duas vezes ao ‘Globo de Cristal’.

Além de mostrar a vida desse incrível personagem, o filme retrata um extraordinária momento da história mundial e outro fantástico personagem, o circo, um espaço mágico em qualquer época e lugar. Provavelmente, o sucesso do longa se deve à maravilhosa performance de Omar Sy, ator, humorista e dublador francês, filho de mãe mauritana e pai senegalês. Omar Sy se tornou conhecido no mundo ao ganhar o ‘César de Melhor Ator’ por sua atuação em ‘Os intocáveis’, o filme mais visto na França em 2011, e o mais rentável da história do cinema francês, com 19 milhões de pagantes.

Como todas as adaptações de uma história real, a cinebiografia de Chocolat revela as muitas dificuldades vividas por um ex-escravo negro na Paris do fim do Século XIX, esconde algumas situações e inventa outras tantas. Há um pouco daquele clima de surpresa e preconceito em relação ao primeiro negro trabalhando como palhaço num circo, a difícil vida dos artistas circenses e o glamour da Belle Époque, uma época de efervescência cultural, com divertimentos incentivados pelo desenvolvimento dos meios de comunicação e de transporte, que aproximaram ainda mais as principais cidades do planeta, gerando otimismo, paz e prosperidade econômica, num momento mágico e politicamente complexo, exatamente antes da Primeira Grande Guerra Mundial.

O duo cômico formado por Chocolat, um palhaço do tipo ‘Augusto’, ridículo, desastrado, vagabundo, representando a anarquia, e que provoca risos e empatia com o público, ao fazer pouco da autoridade e das convenções sociais, e o inglês George Foottit (James Thiérrée, neto de Charlie Chaplin, ator, artista de circo e músico, em grande performance), o tipo ‘Branco’, também conhecido como Carabranca ou Pierrot, elegante, melancólico e controlador da situação, alcança um imenso sucesso popular, e por quase vinte anos fascina a Paris da Belle Époque, antes que a fama, o dinheiro fácil, os jogos, as bebidas e as discriminações desgastassem a amizade da dupla.

Assim que conheceu um picadeiro, Rafael Padilha tratou de aceitar apresentações individuais, como um ‘selvagem canibal’, o tipo exótico explorado pelos circos da época. Como Chocolat, ele alcançou a fama e a riqueza, mas se manteve escravo da humilhação, no papel do palhaço sofredor e subserviente, apesar de muitas vezes aproveitar os esquetes criados por Foottit para ridicularizar o próprio chefe, o sistema e a sociedade parisiense, cruel e despreparada para os novos tempos que surgiram com o fim da escravidão no mundo então dito civilizado.

A escravidão, aliás, é um pesadelo com o qual a humanidade convive desde tempos imemoriais. Ora surge como espólio de guerras, tendo o Estado como proprietário, ora como uma mercadoria privada, com um ser humano assumindo direitos sobre outro, por conta de invasões, pagamento de dívidas ou, simplesmente, mão de obra dos ditos colonizadores europeus, que aproveitaram-se largamente da escravidão de negros africanos.

Apesar dos diversos escritos religiosos trazerem preceitos sobre os escravos, nenhum deles se mostra contra a prática da escravidão. E, mesmo com alguns pronunciamentos papais, ao longo da história, condenando a prática, a Igreja Católica foi uma das maiores proprietárias de escravos no mundo. E, por mais incrível que pareça, o liberalismo econômico fez mais pelo fim da escravidão que todas as religiões e religiosos, ao mostrar como ela era pouco produtiva e moralmente incorreta.

‘Chocolate’ é um retrato triste da história da humanidade, mas imperdível sob o ponto de vista da adaptação e resiliência do ser humano. Rafael Padilla fez de tudo para ser respeitado: tentou ser um homem livre, um palhaço engraçado, um ator Shakespeariano. Mas nada disso era importante. O que valeu a pena mesmo, foi viver a vida intensamente.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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