Críticas Lucinha no Cinema

Conspiração e Poder

Há uma palavra que não costuma frequentar o vocabulário popular, mas cujo significado diz muito das pessoas que lhe tem afinidade: empáfia. Pense em uma pessoa que talvez você conheça, com atitudes de superioridade injustificada, vaidade, atrevimento e soberba. Soberba, taí, outra palavrinha ausente do cotidiano, mas responsável por toda a culpa que lhe cabe. Não é à toa que consta da lista dos sete pecados capitais.

Imagine, também, aquele indivíduo cheio de ideias, valores e princípios, numa visão muito particular do mundo e das relações humanas. Ele parece muito articulado, falante, sabe de tudo um pouco, mas nada profundamente. Não admite qualquer crítica ou a leve possibilidade de erro, de evolução do pensamento. Ele se sente o dono da verdade. Ele até admite ter uma ideologia.

Empáfia e ideologia, eis uma combinação perigosa. Pois foi o que me veio à mente ao término do longa ‘Conspiração e poder’. No mesmo instante, tive ainda um pequeno lampejo da nossa realidade e de muitas outras, nas quais os indivíduos apresentam dificuldades para aceitar o ponto de vista do outro, a opinião diferente, a controvérsia.

Trata-se de uma história real ocorrida em 2004, conhecida como ‘Killian documents controversy’, por conta da qual a produtora do programa ’60 minutes’ da CBS, Mary Mapes (Cate Blanchett), e o âncora Dan Rather (Robert Redford) acreditando que o então presidente dos EUA, George W. Bush, candidato à reeleição, teria sido um dos muitos jovens privilegiados, que teriam se utilizado de altos contatos, para não combater na Guerra do Vietnã em 1972, utilizaram-se do programa para fazer a denúncia.

O roteiro adaptado por James Vanderbilt, também diretor e produtor do longa, é baseado no livro ‘Truth and Duty: The Press, The President and the Privilege of Power’, de Mary Mapes, a ex-produtora da CBS. Trata-se da primeira incursão de Vanderbilt, mais conhecido por seus roteiros (‘Zodíaco’ e ‘O espetacular Homem-Aranha’), na direção de um longa.

Como o conflito central do longa trata de um ‘furo jornalístico’, em plena campanha eleitoral americana, o roteiro deu grande importância ao trabalho de apuração dos fatos e respectivas provas, desenvolvido pela equipe de Mary Mapes, formado pelo Coronel Roger Charles (Dennis Quaid) e pelos jornalistas Lucy Scott (Elisabeth Moss) e Topher Grace (Mike Smith).

Há quem veja nessa estratégia do diretor, de supervalorização do trabalho dos profissionais de imprensa, um demérito da qualidade do longa. Pura falácia, pois foi justamente essa radiografia dos bastidores do programa jornalístico, que revelou a transformação do que seria um furo, numa tremenda ‘barriga jornalística’.

O filme expõe em detalhes a difícil relação entre os jornalistas e suas fontes, a tênue separação entre fatos, boatos e versões e a enorme responsabilidade em assumir riscos, reconhecer erros e sofrer suas consequências. Não há como fugir do duelo entre a imprensa e o poder. Mas, até que ponto a autoridade pode usar seus privilégios? Eis aí um campo minado.

O caso abalou para sempre a reputação e a carreira dos envolvidos, em especial a de Dan Rather, então a principal estrela do jornalismo da CBS e parceiro de longa data de Mary Mapes, em quem confiava cegamente. Há quem veja nas consequências uma questão mal resolvida, abuso de autoridade, hipocrisia e até machismo. Vale a pena conferir!

O elenco estelar faz toda a diferença, mas sem sombra de dúvida, tanto Cate Blanchett, quanto Robert Redford valorizam por demais a famosa dupla da CBS.

Interessante, aliás, lembrar que Robert Redford já havia interpretado o jornalista Bob Woodward em ‘Todos os homens do Presidente’, que desvendou para o mundo o escândalo de Watergate, há 40 anos.

Mais uma vez a questão do poder em duelo com a imprensa. Será que vale a pena, em pleno século XXI, tanto desperdício de tempo e dinheiro para defender uma espécie de monarca eleito?

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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