Críticas Lucinha no Cinema

Corra

“A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo; e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido.” H.P.Lovecraft

Normalmente, as pessoas não gostam de sentir medo, pois essa sensação está sempre acompanhado de expectativas negativas, tais como a ansiedade ou, num grau mais elevado, do pavor. Mas o medo comporta, paradoxalmente, um mecanismo de aprendizagem e se mostrou, ao longo do tempo, indispensável à sobrevivência das espécies e, em particular dos indivíduos.

E na ficção, nada melhor que o cinema para criar situações onde o medo se impõe – ora provocado por algo real, que nos coloca no lugar do personagem sentindo seu desconforto, como nos filmes de suspense – ora pelas forças sobrenaturais, sem racionalidade, que nos causam aquele susto repentino, como nos filmes de terror.

Mas esses conceitos se confundem e muitos filmes são classificados nas duas categorias, indistintamente. É fato que todo filme de terror tem suspense. Nas nem todo filme de suspense tem terror. Há quem os diferencie, ainda, pelo efeito visual: enquanto o suspense sugere, agitando nossa imaginação, o terror, ou o seu extremo, o horror, expõem o desconhecido e provocam o medo pelo que mostram, não pelo que escondem, misturando nojo, aversão e torturas em personagens, na maior parte das vezes, estereotipados.

E há clássicos, como “O Bebê de Rosemary” (1968), de Roman Polanski, ora considerado suspense, ora terror psicológico, ou “A Noite dos Mortos Vivos”, cult de George Romero, que ficou décadas sendo exibido nos cinemas após a meia-noite, e que certamente virou o filme de terror por excelência. Independente dessa distinção, a década de 1970 deixou a melhor e mais profícua herança do gênero horror, como “O Exorcista” (1973), “O Massacre da Serra Elétrica” (1975), “Carrie, a Estranha” (1976) e “A Profecia” (1976), entre muitos outros sucessos do gênero.

Mas foi com “O Iluminado” (1980), obra-prima de Kubrick, que o horror explícito ganhou cores, inteligência e recursos de câmera inovadores. E não tardou a surgir o subgênero de terror com humor, em doses de sarcasmo e ironia, o chamado ‘terrir’ com sucessos como “Um Lobisomem Americano em Londres” (1981) e “Gremlins” (1984), entre outros.

E ainda hoje surgem filmes de suspense ou de terror que fazem sucesso, muito sucesso. Há refilmagens, sequências de clássicos, histórias macabras e até filmes de terror que lidam com questões sociais, raciais e humor. E esse é exatamente do que trata “Corra” [Get Out], primeiro longa-metragem escrito e dirigido por Jordan Peele, ator norte-americano, conhecido por ter feito parte do elenco de MADtv, programa humorístico de esquetes (exibido em 14 temporadas de 1995 a 2009), baseado na Revista MAD e vencedor do Emmy de melhor programa de TV.

A história acompanha um final de semana na vida de Chris Washington (Daniel Kaluuya), um jovem negro que visita a rica propriedade da família de sua namorada Rose Armitage (Allison Williams). A princípio, Chris vê o comportamento exageradamente hospitaleiro da família como uma tentativa desajeitada de lidar com a relação interracial da filha, mas, no decorrer do final de semana, uma série de descobertas perturbadoras o levam a uma verdade que ele nunca poderia imaginar.

Jordan Peele revelou que a inspiração para escrever o roteiro teria vindo de um show de comédia stand-up de Eddie Murphy, no qual o ator contava a experiência de conhecer os pais de uma namorada caucasiana, além de fazer referência a clássicos como “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968) e “Adivinhe quem vem para jantar” (1967).

Curiosamente, o filme foi rodado em apenas 28 dias em Fairhope e Mobile, no Alabama, estado norte-americano com forte passado de segregação racial. E tem se mostrado um tremendo sucesso de público e crítica. Com o custo orçado em cerca de US$ 5 milhões, pequeno para os padrões americanos, já arrecadou mais de US$ 200 milhões de bilheteria ao redor do mundo.

Discutir a questão racial nos Estados Unidos não é  uma situação fácil ou mesmo usual, aliás nunca foi. Mas incluir essa discussão num filme de suspense, com pitadas de humor, ironia e sarcasmo, parece uma sacada de mestre, ainda mais quando há um misto de terror psicológico com sátira social.

Num encontro onde os brancos imperam – só há dois empregados e um convidado negros, todos com comportamentos bem estranhos – Chris é uma espécie de peça rara, exibido pelos Armitage como prova de modernidade e mente aberta. Mas a festa não se encerra naquela noite. E há até uma espécie de bingo ou rifa, que lembra os leilões de escravos negros da época da escravidão. Ouvir à exaustão frases do tipo ‘a mind is a terrible  thing to waste’ não parece pouca coisa. E faz todo o sentido para uma espécie de seita que valoriza o melhor dos dois lados: corpo forte dos negros e mente preconceituosa dos brancos.

Tudo a ver! E ao final, quem vencerá o duelo entre a hipocrisia dos brancos e a habilidade física dos negros?  Vale a pena se assustar um pouquinho para poder conferir o final, surpreendente, como se espera de todo bom filme. E mais do que isso, a última cena é catártica, uma verdadeira libertação do que está reprimido na sociedade americana. O título do filme, aliás, associado à cena final, causam uma estranha sensação de revanche e ‘déjà vu’,  lembrando conselhos que negros sempre ouvem: corra, a polícia chegou!

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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