Críticas Lucinha no Cinema

De Amor e Trevas

A maior parte das pessoas que vivem hoje no mundo nasceu depois da Segunda Grande Guerra Mundial e, pelos comentários e atitudes, muitos demonstram não ter a mínima noção das razões, que levaram os países àquele conflito, muito menos das consequências dali advindas. A maioria está acostumada a ver o mapa-múndi com a atual divisão político-geográfica, com limites e fronteiras distintas, e imagina que foi sempre assim.

A história, no entanto, persiste na sua incansável função de nos mostrar, didaticamente, que os impérios podem ser poderosos mas também podem ruir, mesmo aqueles de longa duração. E esse foi o caso do longevo Império Otomano, também conhecido como Estado Turco, que existiu entre 1299 e 1922 e que no seu auge compreendia a Anatólia, o Médio Oriente, parte do norte da África e do sudoeste europeu. Declinou marcadamente ao longo do século XIX e terminou por ser dissolvido após sua derrota na Primeira Guerra Mundial.

Há historiadores que chegam a admitir que as circunstâncias que caracterizaram a queda do Império Otomano eram similares àquelas que existiam quando do declínio do Império Romano, por conta das tensões entre os diferentes grupos étnicos e a incapacidade das lideranças então existentes.

Parte dessas tensões foi apaziguada com o Sistema de Mandato da Liga das Nações, criado pelos principais Aliados após a Primeira Guerra Mundial, para administrar os territórios do extinto Império Otomano, que dominava o Oriente Médio desde o século XVI, até que fossem capazes de se tornar independentes.

Algumas dessas questões servem de pano de fundo no primeiro longa de Natalie Portman, ‘De amor e trevas’, com roteiro da própria diretora, baseado no livro homônimo do escritor israelense Amos Oz, obra autobiográfica vencedora dos Prêmios ‘France Culture’ e ‘Goethe’, em 2004 e 2005, respectivamente. Amos Oz, considerado um dos escritores mais influentes de seu país, nasceu em Jerusalém há 77 anos, como Amos Klausner. Depois de entrar para o Kibbutz Hulda, abandonou a família de origem ucraniana, mudou de nome e se tornou notável ativista no conflito Israel-Palestina, sendo co-fundador do movimento pacifista Paz Agora (Shalom Akhshav).

O drama mostra a infância de Amos em Jerusalém, no final do Mandato Britânico na Palestina, antes da criação do Estado de Israel, depois da fuga de seus pais Arieh (Gilad Kahana) e Faina (Natalie Portman), da Europa para a Palestina. Numa tentativa de driblar a dura realidade de guerras e fugas, Fania inventa estórias de aventuras no deserto para seu filho Amos (Amir Tessler). O garoto cresce em um família culta, mas a vida familiar desmorona, por conta da instabilidade emocional de Faina, que sucumbe às agruras da vida, em especial depois da morte de uma grande amiga.

O roteiro fez bem em dar destaque à relação mãe-filho, notadamente por conta do ambiente emocional criado por Faina, que influenciou decididamente o futuro de Amos, sublimando a dura realidade da guerra e das fugas, através de um mundo paralelo de fantasia e esperança para um menino de doze anos.

Com potente efeito de reconstituição de uma época, o filme é bastante emocionante, não só pelos horrores vividos pelas pessoas naquela região, como também, e especialmente, pelas dificuldades do menino Amos, numa fase tão carente de valores e estabilidade emocional. A direção e a atuação de Natalie Portman são merecedoras de notáveis elogios, notadamente por sabermos de suas origens judaicas, por conta do que revela com muita sensibilidade o ambiente físico e emocional que circundava aquele momento histórico da criação do Estado de Israel.

Desde tempos imemoriais, as guerras por territórios têm significado perdas e grandes modificações na geopolítica mundial. Aos vencidos sempre são impostos altos tributos, com sacrifícios materiais, fora a destruição da dignidade do país e da autoestima dos cidadãos. Quando se fala no conflito do Oriente Médio, há muita discussão ideológica e pouco conhecimento histórico. Nesse pormenor, o longa de Natalie Portman joga luz em questões familiares e nos fatos históricos, confirmando que todos são merecedores de suas raízes e memórias, estejam elas onde estiverem.

Modernamente, a despeito de todas as possibilidades apresentadas com as novas tecnologias e do avanço nos processos de negociação entre os países, as disputas de fronteiras ainda são tratadas através do uso da força e das armas. Quanto mais avançamos, mais nos damos conta de que estamos longa da verdadeira civilidade para chegar à solução de conflitos. E, como bem afirmou Amos Oz: “A herança genética do povo israelense é irrelevante. A identidade humana está na mente, não nos genes. Podemos mudar a sociedade, não a natureza humana.”

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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