Críticas Lucinha no Cinema

Depois da Tempestade

(After The Storm) – (Umi Yori Mo Mada Fukaku)

O Japão é conhecido como a ‘Terra do Sol Nascente’ porque os caracteres (Kanji), que compõem seu nome – Nippon ou Nihon – em japonês, significam ‘Origem do Sol’. Poesia? Não, geografia! A nomenclatura vem das missões chinesas, que se referiam à posição do Japão, a leste em relação à China. Quem vê o Japão atual, moderno e pujante, às vezes não entende seus costumes tão antigos ou seu conhecido respeito por tudo que existe, seja uma cerejeira que floresce, ou uma simples cerimônia do chá.

Um país que ficou fechado para o mundo por mais de 200 anos (no Xogunato Tokugawa, de 1639 a 1854, período conhecido como Sakoku, literalmente ‘país acorrentado’, quando se punia com pena de morte quem entrasse ou saisse do Japão) e que sofreu bombardeios atômicos em Hiroshima e Nagasaki por conta de sua histórica política militarista e expansionista, se rendeu à paz, se abriu para o mundo e tem muito a mostrar, do antigo e do novo.

Depois da Segunda Guerra, o Japão passou por décadas de recuperação e atingiu um crescimento econômico espetacular. Hoje é um país de recordes mundiais: a maior expectativa de vida e uma das menores taxas de homicídios. Com esses requisitos e altos índices de desenvolvimento humano, seria considerado um dos países mais seguros para se viver, não fosse sua desafortunada posição geográfica, no denominado ‘Círculo de Fogo do Pacifico’.

Essa situação gera uma enorme instabilidade geológica, consequência de estar em uma zona de convergência de três placas tectônicas do Pacífico: Euro-asiática Oriental, Norte-Americana e Filipinas. O encontro desses blocos, que compõem a camada sólida externa da Terra, é responsável por constantes terremotos (mais de mil sensíveis por ano), tsunamis, tufões, tornados, além de oitenta vulcões ativos.

Como dizem os filósofos, o bom da vida é a sua instabilidade. Por bem ou por mal, as pessoas acabam se acostumando, felizmente. E essa atmosfera de adaptação, de resiliência, de tolerância, de sonhos e decepções está presente no longa-metragem ‘Depois da Tempestade’ [After The Storm], do premiado produtor, editor, diretor e roteirista de cinema japonês Hirokazu Kore-eda, aclamado pela crítica na mostra ‘Un Certain Regard’, no Festival de Cinema de Cannes de 2016, Melhor Filme do Festival Internacional de Cinema de Oslo, na categoria ‘Films from The South’ e Melhor Filme da Crítica na Mostra de Cinema de São Paulo de 2016.

Nesse drama, Ryota Shinoda (Hiroshi Abe), um escritor premiado que precisa trabalhar como detetive particular, desperdiça o dinheiro que ganha em jogos de apostas e mal consegue pagar a pensão alimentícia do filho. Após a morte de seu pai, vê sua mãe idosa, Yoshiko Shinoda (Kirin Kiki) e sua ex-mulher, Kyoko Shiraishi (Yôko Maki) seguindo em frente com suas vidas. Tentando se reconectar com a família, Ryota luta para retomar o controle de sua existência e estabelecer um vínculo duradouro na vida do filho, Shingo Shiraishi (Yoshizawa Taiyô), até que numa noite de verão, um tufão lhes oferece a oportunidade de se relacionarem novamente.

Hirokazu Kore-eda é conhecido por retratar dramas familiares, personagens imperfeitos e situações limítrofes. Consegue mostrar a importância dos detalhes, dos pequenos gestos, dos conflitos humanos, através das memórias, das perdas, das ausências. Ficou conhecido no Brasil pelo drama ‘Ninguém pode saber’, de 2004, que mostra um Japão de famílias disfuncionais, onde quatro crianças aprendem a viver sozinhas depois que a mãe as abandona.

‘Ninguém alcança a felicidade sem abrir mão de algumas coisas.’ Esse e outros sábios conselhos surgem nas conversas de Ryota com sua mãe, uma senhora sarcástica, divertida, perfeito contraponto otimista na fracassada vida de Ryota. Ele não quer ser igual ao pai, mas segue seu exemplo, seja nos jogos de azar, na mania de vender tudo para jogar, na prática de atividades sórdidas, na falta de caráter.

Apesar de todo o progresso científico do Japão, os mais pobres e os idosos, em particular, vivem uma triste realidade, fortalecida pela alta densidade populacional e os baixos índices de natalidade. O declínio da força de trabalho e o aumento dos custos com a seguridade social têm enriquecido os roteiros de Hirokazu Kore-eda. Muitos idosos vivem solitários e abandonados, a ponto de morrerem sem que ninguém perceba sua ausência, num país onde 20% da população têm mais de 65 anos, sujeitos a pensões insuficientes, em pequenos apartamentos, nos distantes subúrbios das grandes cidades.

Como em todos os filmes orientais, a cozinha é o ponto de encontro da família. Até porque não há muito espaço e a comida acalma os ânimos. E, como não falar de comida, num país onde a culinária é tratada como arte, não só pela forma de misturar os ingredientes, como pela apresentação dos pratos? Muitos problemas e soluções surgem à mesa, na hora das refeições. Todos participam, todos compartilham, tudo se escuta, tudo se esconde ou se acomoda.

Os tufões vêm e vão, assim como as pessoas, que precisam continuar a viver, custe o que custar. Como pregam as boas práticas orientais, mantenha-se calmo e ativo, cultive bons amigos e o convívio com a natureza, siga seu propósito de vida e viva o momento. Nunca se sabe quando virá outro tufão ou um novo tremor de terra. A serenidade deve prosperar. Sorria para a vida, pois o sol voltará a brilhar depois da tempestade.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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