Críticas Lucinha no Cinema

Elis

Andreia Horta como Elis Regina

Quem poderia imaginar que, em plena ditadura militar, nasceria a tão decantada Música Popular Brasileira, ou MPB, como a apelidavam os entendidos? Talvez pelo autoritarismo, quiçá pela repressão, ou quem sabe pela impossibilidade de se fazer o que quer que fosse, as pessoas andassem sem espaço, sem rumo, daí precisassem se reinventar, se manifestar de alguma forma, colocar a criatividade para funcionar. E nada é mais suscetível a manifestações populares que a cultura: seja na literatura, no cinema, no teatro ou na música.

Nessa mesma época surgiu uma série de programas transmitidos por algumas emissoras de TV brasileiras (Excelsior, Record, Rio, Globo), que revelaram grandes compositores e intérpretes (Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Elis Regina, Nara Leão, Tom Jobim e Baden Powell, entre muitos outros), alguns famosos, outros ainda desconhecidos, que a partir daí se firmaram no cenário musical brasileiro.

Esses programas, conhecidos como ‘festivais de música popular brasileira’, eram realizados em intervalos regulares, principalmente em São Paulo, e transmitidos a várias regiões do país, onde alcançavam elevada audiência, não só por conta da disputa apaixonada por canções e intérpretes, como pela atuação dos órgãos de censura, que via a esfera da cultura com suspeição ‘a priori’.

Há relatos de que essa ‘explosão’ de festivais da canção, a partir de 1966, coincidiu com o crescimento da agitação estudantil e, em contrapartida, com uma maior vigilância e repressão do ambiente em que se realizavam. É fato também que amenizaram ou, de alguma forma, escamotearam um ambiente repressor e controlado da sociedade brasileira e, em pouco mais de vinte anos de existência, alteraram profundamente o campo da MPB, curiosamente cada vez mais politizada pela atuação repressiva do regime militar.

E, por uma dessas coincidências do destino, a intérprete da canção ‘Arrastão’, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, classificada em primeiro lugar no Primeiro Festival de Música Popular Brasileira (realizado em abril de 1965, pela TV Excelsior em Guarujá-SP), foi Elis Regina, a gaúcha de 20 anos, recém-chegada no Rio de Janeiro e ainda desconhecida do grande público.

Aliás, essa interpretação campeã de Elis é frequentemente associada ao início formal do gênero musical brasileiro por excelência, a tal MPB. A partir dali, difundiram-se artistas novatos e herdeiros da Bossa Nova (Geraldo Vandré, Taiguara, Edu Lobo e Chico Buarque), que apareciam com frequência em festivais de música popular e foram considerados marcos de ruptura e mutação da Bossa Nova para a MPB.

Esse e outros acontecimentos da vida de Elis Regina (1945-1982) estão no drama biográfico ‘ELIS’, do diretor Hugo Prata, responsável também pelo roteiro do longa, ao lado de Vera Egito e Luiz Bolognesi. Não espere intimidades contundentes, revelações bombásticas, dramas familiares ou pessoais que expliquem seu súbito e inesperado destino. Todos conhecem a estória de Elis e, infelizmente, sabem como ela termina. Foi uma vida muito curta para tanto talento. O filme me emocionou. Talvez por lembranças embaladas por aquelas canções, por aquela voz, ou pela nostalgia de uma vida que poderia ser e não foi, quem sabe pela cumplicidade de uma época, de uma mesma geração. Sempre que ouço Elis me emociono.

Cantora desde a infância, Elis Regina Carvalho Costa (Andreia Horta) entra na vida adulta deixando o Rio Grande do Sul para espalhar seu talento pelo Brasil a partir do Rio de Janeiro. Em rápida ascensão, ela logo conquista uma legião de fãs, entre eles o famoso compositor e produtor Ronaldo Bôscoli (Gustavo Machado), com quem acaba se casando. Estrela de TV, polêmica, intensa e briguenta, a “Pimentinha” não tarda a ser reconhecida como a maior voz do Brasil, em carreira marcada por altos e baixos.

O melhor do roteiro, sem nenhuma dúvida, é a belíssima, emocionante e merecida homenagem à maior cantora da música popular brasileira. Até hoje não surgiu ninguém que a superasse! E, já estava mais do que na hora de exaltar a magnífica competência e extensão vocal da melhor ‘mezzo-soprano’ brasileira, a perfeita afinação, a enorme musicalidade e a exuberante e dramática presença de palco da ‘Lilica’ ou ‘Elis-cóptero’, como a chamava Rita Lee.

E, como numa retrospectiva por aqueles antigos e esquecidos filmes familiares e velhos álbuns de fotografia perdidos no fundo do armário, temos um pouco dos seus conturbados relacionamentos amorosos (Ronaldo Bôscoli e César Camargo Mariano), uma pequena lembrança de seus três amores maternos (João Marcelo Bôscoli, Pedro Camargo Mariano e Maria Rita Camargo Mariano), uma passada de olhos pela parede da fama, com seus inúmeros sucessos fonográficos, por seus shows nacionais e internacionais (‘Falso Brilhante’) e, como não poderiam faltar, as definitivas e marcantes influências recebidas de seus amigos, confidentes e parceiros profissionais (Miéle, Lennie Dale, Henfil, e Nelson Motta).

Andréia Horta tem uma interpretação magistral, por conta da qual levou o Kikito no Festival de Gramado. E, para nossa felicidade, temos a voz de Elis em todas as interpretações. E é emocionante poder ouví-la em alguns de seus inúmeros sucessos: ‘Como Nossos Pais’, ‘Menino das laranjas’, ‘Arrastão’, ‘Upa Neguinho’, ‘Cinema Olympia’, ‘Atrás da porta’, ‘Madalena’, ‘Cabaré’, ‘Fascinação’, ‘O bêbado e a equilibrista’, ‘Aos nossos filhos’, ‘Velha roupa colorida’, ‘A noite do meu bem’, ‘Deus lhe pague’ e ‘Começo’.

Quando a saudade apertar, não se intimide, ponha o seu CD, LP ou o que mais tiver para tocar, pois suas gravações a eternizaram, para sorte de todos que um dia a conheceram e daqueles que ouviram falar dela. E, como dizia em uma de suas interpretações antológicas:

‘Mas sei, que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente, a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista tem que continuar.’

Filme: “Elis”
Direção: Hugo Prata
Roteiro: Luiz Bolognesi, Nelson Motta, Patrícia Andrade, Vera Egito, Hugo Prata

Elenco:

Andreia Horta – Elis Regina
Gustavo Machado – Ronaldo Boscôli
Caco Ciocler – César Camargo Mariano
Lúcio Mauro Filho – Miéle
Júlio Andrade – Lennie Dale
Zé Carlos Machado – Romeu
Rodrigo Pandolfo – Nelson Motta
Ícaro Silva – Jair Rodrigues
Cesar Troncoso – Marcos Lázaro
Isabel Wilker – Nara Leão
Eucir de Souza – Samuel

Comentários

Print this entry

Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

Obrigado por visitar o nosso site.

Facebook
%d blogueiros gostam disto: