Críticas Lucinha no Cinema

Em ritmo de fuga

Quando você pensa em um bom filme, pensa logo em um daqueles com roteiro complexo, personagens densos, produção caprichada, talvez muita ação, talvez um pouco de mistério, ou até alguma história de amor com pitadas de humor, certo? Mas você já imaginou um filme com roteiro escrito em cima de uma trilha sonora preexiste, onde as músicas sugerem as cenas, antes sequer de uma história e dos seus personagens?

Pois esse filme já existe! Trata-se do longa-metragem “Em Ritmo de Fuga” [“Baby Driver”] – um misto de musical de ação, ‘filme de assalto’, comédia, drama, suspense, videoclipe com algumas pitadas de humor negro – o mais recente lançamento do diretor, roteirista, produtor e ator britânico Edgar Wright.

Conhecido pela ‘trilogia de sangue e sorvete’, com os filmes: “Shaun of the Dead”/”Todo Mundo Quase Morto” (2004), “Hot Fuzz”/”Chumbo Grosso” (2007) e “The World’s End”/”Heróis de Ressaca” (2013) e pelo filme baseado na história em quadrinhos homônima “Scott Pilgrim vs the World”/”Scott Pilgrim contra o Mundo” (2010), além dos roteiros de “The Adventures of Tintin: The Secret of the Unicórnio”/”As Aventuras de Tintin – O Segredo do Licorne”  (2011) e de “Ant-Man” (2015) – Edgard Wright passou mais de vinte anos planejando o roteiro de “Baby Driver”.

Inspirado na canção “Bellbottoms”, de Jon Spencer Blues Explosion – que surge na sequência inicial do filme – e no clipe musical de “Blue Song”, da banda inglesa ‘Mint Royale’, dirigido pelo próprio Edgar Wright, o roteiro mostra as peripécias de um jovem e talentoso ‘piloto de fuga’ chamado Baby (Ansel Elgort), que se vê acuado numa difícil encruzilhada: continuar dirigindo para uma quadrilha de ladrões de banco ou fugir com a garota dos seus sonhos.

Por conta de um grave acidente sofrido na infância (quando inclusive perdeu seus pais), Baby tem um zumbido permanente nos ouvidos. Para sobreviver, ele se acostumou a ouvir e a fazer – com todo e qualquer som – música em uma espécie de trilha sonora pessoal. Baby é o melhor piloto de fugas que existe no mundo do crime, mas tem algumas questões não totalmente resolvidas do passado, além das que surgem diariamente no seu trabalho.

Quando conhece a garota de seus sonhos (Lily James), Baby vê uma chance de abandonar sua vida criminosa e fazer uma fuga limpa. Mas depois de ser coagido a trabalhar em mais um assalto por Doc (Kevin Spacey), um criminoso misterioso, Baby deve enfrentar seus piores pesadelos num assalto mal realizado, que ameaça sua vida, seu amor e sua chance de liberdade.

O filme é um perfeito entrosamento entre música e ação. Os movimentos do personagem Baby estão perfeitamente cronometrados ao ritmo das trinta músicas – entre clássicos dos anos 60 e 70, rock clássico, soul, hiphop, jazz instrumental – que compõem a excelente trilha sonora do filme. Para Baby, aliás, nada acontece sem sua trilha musical preferida: sua vida íntima, seu trabalho, suas lembranças, suas dúvidas – tudo, exatamente tudo, está sincronizado – numa espécie de coreografia, que marca o ritmo vertiginoso, envolvente e sedutor desse contagiante longa-metragem.

As letras das músicas têm total comprometimento com os diálogos e com as cenas. As pichações nas paredes também fazem referências às canções. O comportamento dos personagens – em especial o de Baby – estão marcados pelo ritmo que toca em cada momento. Até um trompete numa vitrine aparece bem na hora em que o instrumento soa numa música. Uma verdadeira coreografia, num trabalho bem orquestrada do coreógrafo Ryan Heffington – conhecido por clipes como ‘Chandelier’, da cantora pop Sia – assinalam o perfeito entrosamento entre som e imagem.

Mas o filme tem isso e muito mais. Além da originalidade na utilização da trilha sonora – no que se convencionou chamar pelos entendidos no meio audiovisual como ‘música diegética’, ou que faz parte do contexto ficcional, sem a qual a narrativa seria diversa – tem perseguições com carros de tirar o fôlego e personagens hilários, aparentemente irracionais ou psicopatas, usando a violência como comportamento padrão, sem qualquer sentimento de culpa ou remorso: uma tremenda comédia!

Além do protagonista, Ansel Elgort (do tristíssimo “A culpa é das estrelas”), numa ótima atuação como Baby, o ágil motorista, o elenco tem muitos atores premiados, como Kevin Spacey, Jon Hamm e Jamie Foxx, perfeitos como gângsters, fazendo pequenas ou maiores participações, com sugestivas  referências a bandidos ou a cenas de perseguição de filmes famosos do cinema como “Operação França”, “Fogo contra Fogo” e “Cães de Aluguel”.

A eclética trilha sonora, que mescla The Beach Boys, Dave Brubeck, T-Rex, The Commodores, Queen e Barry White é mais do que um personagem: ela é a própria razão de ser do filme. Alias, até no nome, “Baby Driver” o filme se inspira no título da canção de 1970 de Simon & Garfunkel. E não há como negar: os americanos tem músicas para todos os deleites.

 

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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