Críticas Lucinha no Cinema

Estados Unidos pelo Amor

Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.”
Thich Nhat Ha

Um grupo de amigos se reúne num momento eufórico de liberdade e incertezas com o futuro, no início da década de 1990, numa Polônia pós-colapso do comunismo. Esse é o ambiente retratado por Tomasz Wasilewski, jovem diretor de cinema e roteirista polonês, indicado ao ‘European Film Awards’ e vencedor do ‘Urso de Prata’ de Melhor Roteiro no Festival de Berlim, com o filme ‘ESTADOS UNIDOS PELO AMOR’ [‘UNITED STATES OF LOVE’ – ‘ZJEDNOCZONE STANY MILOSCI’]. O longa-metragem ganhou, ainda, o Prêmio José Carlos Avellar de Experimentação de Linguagem no BIFF – Festival Internacional de Cinema de Brasília.

Nesse drama, com ares de revolução de costumes, quatro mulheres decidem mudar suas vidas, na busca da tão almejada felicidade. No primeiro bloco surge Agata (Julia Kijowska), mãe de uma adolescente, em um casamento infeliz, que sonha com um relacionamento impossível, enquanto trabalha na locadora de filmes em VHS. No seguinte, Renata (Dorota Kolak), professora de literatura russa em vias de se aposentar, que resolve expor sua paixão pela vizinha Marzena (Marta Nieradkiewicz), bela e solitária professora de aeróbica, dança e hidroginástica, cujo marido trabalha na Alemanha, e que sonha em ser modelo. E a quarta personagem é Iza (Magdalena Cielecka), irmã de Marzena, que trabalha como diretora da escola do bairro e vive um romance clandestino com o pai de uma das suas alunas.

Sonhos, desejos e frustrações fazem parte do imaginário de qualquer pessoa, desde que a humanidade se pôs a pensar. Supor, no entanto, que mais maturidade, experiência ou conhecimento possam levar a decisões acertadas ou prazeirosas é, no mínimo, uma grande ingenuidade. Como e por que escolhemos determinada profissão, aquele parceiro e tal ou qual projeto, entre tantos disponíveis?

Haveria por conta de tais escolhas, correlação objetiva entre as razões dessas opções e os resultados alcançados? Aquela sensação de bem-estar, ou o que normalmente chamamos de felicidade, certamente depende dessas escolhas, mas por que muitas vezes esses objetivos não são alcançados, se, aparentemente, tudo foi feito com aquela intenção? O que influencia nossas escolhas, nosso modo de viver, nossa forma de sobreviver e morrer?

Desde Aristóteles, que afirmava que felicidade não é simplesmente um sentimento ou uma promessa dourada, mas uma prática – conhecida pelos gregos como ‘eudaimonia’ – muito já se falou a respeito da busca desse estado de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, também traduzido como bem-estar espiritual ou paz interior.

Há quem viva da busca por prazer a qualquer custo e há os que acreditam que a felicidade é uma meta, um destino final que faz com que os tormentos da vida valham a pena. Hedonismo, altruísmo, ou simplesmente racionalismo, com qual filosofia você encara as vicissitudes da vida?

Resultados de pesquisas recentes mostraram que existe sim o tal gene da felicidade. Nosso corpo seria programado para transformar sofrimento em morte e experiências positivas em benefícios para o organismo como um todo. A felicidade, segundo esses estudos, viria como um bônus, sempre que houvesse conexão entre nossas necessidades individuais e nossa capacidade de realização.

Expor as ansiedades amorosas e profissionais dessas quatro mulheres revela mais dos seres humanos do que da Polônia, em plena crise financeira e de valores morais que se estabeleceu depois da reviravolta ideológica. Homens e mulheres reagem da mesma forma às dificuldades da vida, independente da cultura, da época ou da religião. Certamente que a índole ou os desvios da mente, personalíssimos que são, podem melhorar ou dificultar sua adaptação à vida.

Tomasz Wasilewski aponta sua lente de aumento sobre um Conjunto Habitacional, igual a tantos outros do Leste Europeu Comunista, revelando uma espécie de microcosmo da Polônia de suas memórias, com solidão, sonhos desfeitos, desejos reprimidos e carências de toda ordem, na qual as mães, professoras e enfermeiras se sobressaem.

Com mais de mil anos de história e quase 100% de católicos, a Polônia tem forte influência dos dogmas religiosos e das liturgias da Igreja Católica, assim como das mulheres na vida das famílias. E o roteiro se apropriou desses símbolos e do ambiente liberalizante da economia para revelar a intimidade daquelas famílias e das mulheres que as comandavam. À primeira vista, elas parecem diferentes umas das outras, na intimidade, porém, são muito mais semelhantes do que imaginam, pois têm exatamente as mesmas frustrações que a maioria dos seres humanos: estabelecem metas ou propósitos fora de suas possibilidades.

Melhor seria se lembrássemos mais vezes das sábias palavras de Aristóteles:

“A felicidade é um princípio; é para alcançá-la que realizamos todos os outros atos; ela é exatamente o gênio de nossas motivações.”

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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