Críticas Lucinha no Cinema

Estrelas Além do Tempo

Assim como Martin Luther King, eu também tenho um sonho. Soa presunçoso? Quiçá ingênuo? Ou, como dirão alguns, usurpação de uma luta que não é a minha e com a qual eu não tenho intimidade, sofrimento pessoal ou familiar? Para os puristas e críticos da raça humana, tenho a dizer que se trata, no mínimo, de empatia, de solidariedade ou, simplesmente, de adesão a uma causa, a um princípio.

Citar um mito e usar a memória de um dos mais importantes líderes do movimento pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos para falar de uma estória sobre discriminação racial é prestar homenagem a esse herói e trazer à discussão as raízes do problema que, infelizmente, ainda não terminou.

Sonhar não é proibido. E, sinceramente, o sonho de um precisa ser sonhado por muitos para se tornar realidade. Às vezes, meu sonho viaja no tempo, e chego a  imaginar se o mundo seria diferente, não tivesse havido a diáspora africana, entre 1500 e 1900, que forçou a emigração de mais de 23 milhões de africanos mundo afora, em especial no recém-descoberto continente americano.

Para começo de conversa, não podemos cair na armadilha do anacronismo e analisar os conceitos e os fatos do passado com os olhos do século XXI. Não se trata, por outro lado, de aceitar ou amenizar práticas hoje condenadas, mas entender como e por que elas ocorreram. E, se possível, nunca repetí-las.

Era uma outra época, com interesses exploratórios e mercantilistas bem diversos dos de hoje, apoiados em idéias etnocêntricas, guerras de tribos no continente africano, além de um brusco rompimento de valores éticos e religiosos tradicionais, dentre os quais o respeito de todos como seres humanos e a autodeterminação dos povos e dos cidadãos, em particular, de decidir sobre seu trabalho e a terra onde pretendem viver e constituir suas famílias.

Nos Estados Unidos, em especial, as consequências da escravidão se mantiveram muito além do período legalmente permitido. Mesmo depois de uma terrível guerra civil, mesmo com as tropas federais tentando garantir a emancipação dos escravos, a segregação se tornou de tal forma institucionalizada, que o fato de não mais existir a escravidão virou, na prática,  letra morta.

Os ânimos estavam de tal modo acirrados, que uma lei, chamada ironicamente de reconstrução, impunha mais segregação, pois cada estado podia estabelecer suas próprias regras. E, uma simples gota de sangue, por exemplo, podia segregar mais que qualquer costume ou imposição social. Os confederados não se conformaram com a derrota e tentaram manter, à base da violência e da intimidação da Ku Klux Klan, os parâmetros de uma suposta superioridade racial.

Doutrinas que separavam, mas só em tese não tratavam diferente [separate but equal], assim como leis anti-miscigenação, segregação nas forças armadas, nas escolas públicas, nos meios de transporte, nos locais públicos e privados se impuseram, tornando a vida dos negros um inferno e armando, literalmente, uma verdadeira bomba relógio.

Com o tempo, questões isoladas foram detonando a aparente estabilidade do ‘apartheid’ e obrigando a Suprema Corte e o Governo Federal a tomar decisões sobre a dessegregação racial. E eis que se fazem ouvir Rosa Parks, W.E.B.Du Bois, Malcolm X e Martin Luther King Jr, uns de forma pacífica, outros mais violentos, questionando as restrições dos direitos civis e as consequências derivadas da imposição de leis segregacionistas em relação aos negros nos Estados Unidos.

Boicotes, manifestações, ocupações e a clássica desobediência civil em massa foram as armas utilizadas para tentar acabar com a discriminação formal e a desigualdade econômica e social. Mas, apesar de todas as leis a favor da discriminação terem sido revogadas e da existência de ações  afirmativas para a reparação dos erros históricos, a segregação de fato nunca acabou.

Hoje há mais negros em prisões ou em liberdade condicional do que escravos em 1860, quando começou a Guerra de Secessão. Desde a década  de 1980, por conta do aumento da consciência negra na política de união nacional, o termo afro-americano começou a ser utilizado. Tenho dúvidas se não seria outra forma de segregação e estigmatização dos negros. Não seriam simplesmente americanos? Nesse sentido, todos os norte-americanos, descendentes que são das diversas nacionalidades que compõem os Estados Unidos, também deveriam ser denominados italo-americano, latino-americano e por aí vai. Qual o proveito disso? Quem ganha com isso?

Com esse cenário posto, podemos entender melhor o que está por trás do drama biográfico ‘Estrelas além do tempo’ [Hidden Figures], longa-metragem do diretor e roteirista norte-americano Theodore Melfi (‘Um Santo Vizinho’/ ‘St. Vincent’), cujo roteiro se baseia no livro de não-ficção ‘Hidden Figures – The American Dream and The Untold Story of The Black Women Mathematicians Who Helped Win The Space Race’, da escritora Margot Lee Shetterley, não por acaso, negra e filha de um cientista da NASA.

O filme se passa em 1961, em plena Guerra Fria, quando os Estados Unidos e a União Soviética disputam a supremacia na corrida espacial, ao mesmo tempo em que a sociedade norte-americana lida com uma profunda cisão racial entre brancos e negros. Tal situação é refletida também na NASA, onde um grupo de funcionárias negras é obrigada a trabalhar a parte. E lá estão Katherine Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), grandes amigas que, além de provar sua competência dia após dia, precisam lidar com o preconceito arraigado para que consigam ascender na hierarquia daquela instituição científica.

Aquelas mulheres tiveram que esperar mais de 50 anos para terem suas estórias reveladas. Antes tarde do que nunca! Muitas estórias ainda virão. A própria Shetterly criou, em 2013, o projeto ‘The Human Computer, com o propósito de resgatar todos os trabalhos dessas centenas de ‘mulheres computadores’, matemáticas e programadoras nos primeiros anos da National Advisory Committee for Aeronautics (NACA) e da National Aeronautics and Space Administration (NASA).

A segregação deixou graves sequelas, mas o machismo e a hierarquia, numa corporação tão fechada quanto a NASA, também causaram e, certamente, ainda devem causar muitos sofrimentos e vítimas. Felizmente alguém resgatou essas heroínas da memória de alguns poucos e ajudou a disseminar a semente da valorização da mulher e, em especial, da mulher negra, numa época particularmente difícil para os negros de uma forma geral.

Fez bem o diretor em não vitimizar ou só mostrar o sofrimento pelo lado da derrota, mas sim pelo lado da vitória, da mudança de paradigma, da luta pela causa com o uso da não violência, da utilização da competência e da perseverança como ferramentas de mudança social. Foi difícil? Parece que sim. Na realidade, deve ter sido muito mais difícil do que o filme mostra. Mas se assim não fosse, hoje não saberíamos dessas estórias e Katherine Johnson, a única sobrevivente com 98 anos, não teria recebido, das mãos do primeiro presidente negro eleito por todos os americanos, a medalha Presidencial da Liberdade.

As palavras proferidas pelo pastor e ativista político Martin Luther King, no histórico discurso de 28 de agosto de 1963 (popularmente conhecido como ‘I have a Dream’/ ‘Eu tenho um sonho’), nos degraus do Lincoln Memorial em Washington, D.C., como parte da marcha por empregos e pela liberdade, no movimento então iniciado contra a segregação racial, continuam a inspirar pessoas de todas as gerações e nacionalidades.

O discurso em si é belíssimo, uma aula de formação da sociedade norte-americana,  verdadeira apologia à igualdade, à fraternidade e à tolerância. Vale a pena relembrar este pequeno excerto, que parece resumir todos os ideais de Martin Luther King: “…Tenho um sonho de que meus quatro filhos viverão um dia em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo teor de seu caráter…”. Infelizmente, o sonho ainda não se realizou plenamente. Tenho certeza, de que para isso ocorrer, todos, senão muitos, precisarão sonhar juntos o mesmo sonho.


Estrelas Além do Tempo – L (Brazil)
Ano: 2016 ‧ Drama/Ficção histórica ‧ 2h 7m
Data de lançamento: 2 de fevereiro de 2017 (Brasil)
Direção: Theodore Melfi
Música composta por: Pharrell Williams, Hans Zimmer, Benjamin Wallfisch
Indicações: Oscar de Melhor Filme
Elenco:
Taraji P. Henson: Katherine Johnson
Octavia Spencer: Dorothy Vaughn
Janelle Monáe: Mary Jackson
Kevin Costner: Al Harrison
Kirsten Dunst: Vivian Michael
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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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