Feito na América

by Lucia Sivolella Wendling | 03/10/2017 13:51

Você sabia que a prostituição, uma das primeiras profissões a existir no mundo, foi legalizada na Holanda desde 1830? Tudo isso porque os holandeses chegaram à conclusão de que é muito mais fácil combater o tráfico de mulheres, a exploração e a prostituição de menores em um ramo legalizado e, por isso, sujeito à fiscalização.

Além disso, as profissionais do sexo têm apoio médico, transporte e segurança para exercer sua atividade. Na Holanda, a prostituição é considerada  uma atividade como qualquer outra e, desde que as mulheres a exerçam de livre e espontânea vontade, pode ser vista como uma boa profissão, com os mesmos encargos e benefícios de qualquer outra atividade profissional.

Mas, por que será que essa legalização não ocorre no Brasil, por exemplo, se sabemos que existe forte e continua demanda por serviços de sexo? Provavelmente por causa do preconceito, baseado em crenças religiosas ou ideologias sem um fundamento crítico ou lógico. E, infelizmente, sem regulamentação, temos que conviver com um mercado sexual que inclui crianças, cafetões, situações de risco, crimes e doenças.

E, por que estamos tratando de sexo quando o filme aqui referido fala de drogas? Pelo mesmo motivo pelo qual as drogas são consideradas como um problema de polícia e não como um problema médico: o preconceito!

Tal como o medo, a ignorância e a intolerância, o preconceito acaba por guiar as decisões políticas e, em consequência, a vida privada dos cidadãos. Não por acaso, aliás, nesse mesmo país, a Holanda,  considerado o mais liberal do mundo na atualidade, as drogas são toleradas, com incentivo ao tratamento e ao uso controlado das drogas mais pesadas.

Você gosta de ter escolhas, certo? Você se considera adulto, maior de idade e acha que pode tomar decisões e sofrer as consequências dessas decisões, não é ? Então imagine, por exemplo, sua vida sem o prazer do que você mais gosta: café, álcool, cigarro ou chocolate!

Parece absurdo pensar nesse tipo de restrições, não parece? Mas é assim para as pessoas que gostam de alguma coisa considerada ilícita: elas veem a vida sem aquele prazer, estão privadas daquela escolha. E ainda têm que ouvir que aquele ‘vicio’ faz mal para a saúde ou que elas podem ficar ‘fora de controle’ quando fazem uso daquelas drogas, como se o uso do cigarro, dos calmantes ou do álcool, drogas consideradas lícitas, também não fizessem mal à saúde.

Todo mundo sabe que a proibição da comercialização de um produto gera problemas para todo mundo. A época de vigência da chamada  ‘Lei Seca Americana’, com a proibição da produção, venda e consumo de álcool nos Estados Unidos provaram que todos saíram perdendo, muitos crimes e bandidos surgiram e a proibição se mostrou totalmente ineficaz no controle do abuso no consumo de bebidas alcoólicas.

O consumidor, o elo mais frágil, é o primeiro a sofrer com a proibição e as consequentes elevação dos preços e escassez do produto. Os produtores e distribuidores, com a demanda e concorrência acirradas, fazem qualquer coisa para produzir e efetivar a entrega do produto. Isso sem esquecermos que todos – produtores, distribuidores e consumidores – estão praticando um crime.

Esses são os ingredientes de “Feito na América” [“American Made”], longa-metragem dirigido pelo produtor e diretor norte-americano Doug Liman (conhecido por “Bourne Identity” – 2002; “Mr and Mrs Smith” – 2005 e “Edge of Tomorrow” – 2008), e  que trata de todos os males decorrentes da política anti-drogas praticada com enorme fracasso no mundo, com destaque para as Américas, maior centro de produção, distribuição e consumo de todos os tipos de drogas ilegais existentes no mercado.

Nas décadas de 1970 e 1980, Barry Seal (Tom Cruise), um piloto oportunista da TWA (Trans World Airlines), é inesperadamente recrutado pela CIA para realizar uma das maiores operações secretas da história dos Estados Unidos: fotografar pistas de pouso na América Central, região disputada por grupos antagônicos à política externa praticada pelos Estados Unidos naquela ocasião.

O roteiro de Gary Spinelli é baseado em eventos reais ocorridos com Adler Berriman Seal, mais conhecido como Barry Seal, experiente piloto de aeronaves, que trocou a carreira profissional legalizada pelo transporte ilegal de drogas para o Cartel de Medellín, na maior parte das vezes associado a operações contratadas pela CIA e posteriormente pela DEA (Drug Enforcement Agency).

A partir do ponto de vista do diretor Doug Liman, podemos afirmar com segurança que Berry Seal teria sido ‘usado’ por todas essas agências governamentais, além de ter trabalhado para o próprio chefão do cartel colombiano, o poderoso Pablo Escobar, de quem teria se aproximado pessoalmente, razão pela qual não teria sido poupado quando teve chance de ligá-lo ao tráfico de drogas nos Estados Unidos.

Barry Seal seria ambicioso, gostava de correr riscos ou não tinha a menor noção de onde estava se metendo? Ao final, parece que tudo isso é um pouco mais. Seal chegou a ser preso diversas vezes, indiciado e, quando imaginou que seria condenado à prisão foi ‘contratado’ pela CIA para espionar os sandinistas na Nicarágua. Por que não juntar as confusões da Guerra Fria no Caribe e na América Latina com a explosão do narcotráfico naquela região?

Muitas vezes ele era preso e solto imediatamente, porque as agências governamentais não tinham a menor noção do que ele fazia, ou para quem ele trabalhava: FBI, CIA, DEA, Casa Branca ou o Cartel de Medellín ? Quem zombava de quem: Seal, as instituições americanas ou Pablo Escobar?

Apesar de fisicamente distinto de Barry Seal, Tom Cruise se adaptou perfeitamente ao papel ( para o qual teria, inclusive, engordado alguns quilogramas), exibindo a ironia e o bom humor do personagem, em uma performance extraordinária, como sempre, aliás, valorizando o típico anti-herói americano e o próprio filme, que talvez não tivesse tanta aclamação de público e crítica não fosse a presença desse excepcional ator.

Parafraseando o próprio Barry Seal, ‘que nação maravilhosa é a América’, que nos permite apreciar um misto de comédia, suspense e ação policial, num filme onde os fatos e as versões estão no limite do inacreditável!

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