Críticas Lucinha no Cinema

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Há uma frase atribuída a Benjamin Franklin, que diz mais ou menos o seguinte: ‘quando somos bons para os outros, somos ainda melhores para nós.’ A bem da verdade, por mais que pensemos que o altruísmo, a solidariedade, a filantropia ou qualquer forma de doação só enxergam o outro, não há como não perceber uma enorme fonte de bem estar, de entusiasmo e de emoção naquele que se doa, que se identifica, que se interessa pelo outro.

E desses sentimentos, o que nos atinge mais, apesar de nem sempre sensibilizar todos indistintamente, a solidariedade se destaca. Mesmo sem percebermos, a todo momento somos atingidos por suas consequências. Muitas vezes somos obrigados a ser solidários. Não acredita? Então você não mora num condomínio, não paga impostos, não vota em eleições, não tem nem amigos, nem família.

E eis que a solidariedade se torna a protagonista da ótima comédia dramática ‘Fique comigo’ (‘Asphalte’), do diretor e roteirista francês Samuel Benchetrit, baseado no livro autobiográfico do próprio diretor ‘Les chroniques de l’asphalte’.

A primeira cena, muito comum na nossa vida cotidiana, mostra uma reunião de condomínio, na qual se coloca em votação a troca do elevador enguiçado e a consequente partilha das despesas pelos moradores. Um deles, morador no primeiro andar, acha que não precisa de elevador e por isso não vai assumir esse custo.

Pronto, está lançado o conflito. A própria assembléia já renderia mil e um comentários, sem que precisássemos sair daquela sala. Depois de algumas reflexões, os demais moradores iniciam então nova votação, desta feita para excluir o dissidente do uso daquela benfeitoria. E ele se vê obrigado a votar a favor.

Esse é o ponto de partida de uma série de encontros e relacionamentos surgidos com moradores do prédio, todos por conta do acaso, mas enriquecidos com a inexorável figura da solidão, estado tantas vezes buscado, mas em muitas outras, o estopim de inúmeros infortúnios.

Além de estranhos, outras vezes hilários, os encontros são ótimos pontos para a discussão de situações corriqueiras das pessoas, tão próximas e tão distantes, isoladas nos condomínios de apartamentos das cidades modernas do mundo.

Temos o encontro do criativo fotógrafo (Gustave Kervem) com a solitária enfermeira (Valeria Bruni Tedeschi), numa apropriação bem bolada do ótimo ‘As pontes de Madison’. A acolhida insólita do astronauta (Michael Pitt) pela solidária imigrante argelina (Tassadit Mandi), numa engraçada paródia aos tempos que vivemos. E o produtivo acolhimento da atriz decadente (Isabelle Huppert) pelo jovem entediado (Jules Benchetrit), numa das melhores performances do longa.

A ótima recepção da crítica especializada e do público comprovam, mais uma vez, que nos pequenos frascos, temos os melhores perfumes. E como têm sido bem sucedidos alguns filmes, notadamente os franceses, que se arriscam contando coisas simples mas profundas, que nos tocam a partir de sentimentos universais. Com a valorização do diferente, do simples, do inusitado, percebemos como somos carentes de estórias comoventes com personagens únicos e verdadeiramente tocantes.

Depois de assistir a essas pequenas crônicas do asfalto, me veio à mente aquela frase tão conhecida ‘um por todos, todos por um’. Fiquei imaginando como seria o mundo se essa frase não fosse só a retórica romântica dos mosqueteiros ou o grito de guerra de crianças imaginativas, mas efetivamente sinalizasse, mais do que uma obrigação, a verdadeira representação do respeito ao próximo, da verdadeira solidariedade.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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