Críticas Lucinha no Cinema

Frantz

Às vezes a gente ouve alguém falar que o mundo nunca esteve tão complexo e perigoso quanto hoje. Para quem conhece a questão, há controvérsias. A idealizada e inatingível paz mundial sempre esteve ameaçada. O arsenal bélico atualmente detido pelas potências mundiais – assim como os meios de comunicação – evoluíram, com toda a certeza, e são bem mais potentes do que foram em qualquer momento da história. Mas o ser humano continua o mesmo – insatisfeito com o que lhe cabe, desejoso do que não tem, ansioso pelo maior e melhor dos mundos.

E os países, formados e  liderados por pessoas, continuam igualmente insatisfeitos com a realidade que os cerca. Qualquer um que se dedique a estudar os conflitos armados ao longo da história poderá confirmar essa triste constatação: os seres humanos não conseguem viver em paz. Seria essa a a incômoda constatação de que todos os regimes políticos estão em crise?  Pensando bem, quem de livre e espontânea vontade compartilharia o poder tão habilmente conquistado? E como bem temos todos percebido, a paz também dá muito trabalho para ser mantida.

A Primeira Grande Guerra Mundial, por exemplo, que deixou como legado mais de 9 milhões de mortos e 30 milhões de feridos – na terrível disputa que dominou o mundo entre 1914 e 1918 – teve causas que remontam ao fim do século XIX. Na verdade, um conflito desse porte não tem só uma causa, mas uma conjunção delas.  E, afinal, por que alguém iniciaria uma guerra com consequências tão terríveis?

Assim como as pessoas, os países naquela ocasião tinham interesses bem pouco defensáveis. E faziam acordos por motivos os mais variados: união de forças contra inimigos comuns, desejo de revanche por regiões tomadas e disputas por mercados ou por lideranças regionais. E, por trás disso, um forte crescimento das políticas armamentistas desses países, desejosos de defender seus interesses quando surgisse a oportunidade.

Com o fim do embate, constatou-se que a Grande Guerra deixou profundas mudanças na geopolítica mundial, além de ter imposto à Alemanha – um dos impérios derrotados no conflito –  uma série de penalidades, dentre as quais a devolução de muitos territórios anteriormente disputados – como os da Alsácia-Lorena à França, além do pagamento aos países vencedores (entre os quais Inglaterra e França) de pesadas indenizações pelos prejuízos causados durante o conflito.

Com a assinatura do Tratado de Versalhes, que encerrou definitivamente o conflito, surgiu um forte sentimento de revanchismo e revolta entre os alemães, especialmente pela existência do que ficou conhecido como a ‘cláusula de culpa da guerra’ – na qual a Alemanha reconhecia a responsabilidade pelas perdas e danos dos Aliados durante o conflito.

Além de ter perdido mais de 15% de sua população masculina jovem, a imposição de vultosa indenização – 269 bilhões de marcos – enterrou de vez a economia alemã, já bastante abalada pela guerra, criando as sementes do nazismo (a partir de movimentos nacionalistas que exploraram com uma teoria de conspiração o que chamaram de a ‘Lenda da Punhalada pelas Costas’), que levaria o país para um outro conflito armado logo em seguida: a Segunda Guerra Mundial.

Esse é o cenário de “Frantz”, longa-metragem franco-alemão, dirigido pelo escritor, roteirista e diretor de cinema francês François Ozon, conhecido como um dos participantes da ‘New Wave’ do cinema francês (‘Uma Nova Amiga’- 2014, ‘8 Mulheres’ – 2002, ‘Potiche – Esposa Troféu’ – 2010 e ‘Swimming Pool – À Beira da Piscina’ – 2003).

A história se passa em Quedlinburg, pequena cidade alemã, logo após a Primeira Guerra Mundial. E ali acompanhamos o drama de Anna (Paula Beer), que visita diariamente o túmulo de seu noivo, morto em uma batalha na França. Um dia, ela vê um jovem francês, Adrien Rivoire (Pierre Niney), colocar flores no mesmo túmulo. Esse gesto, além da própria presença de um francês em solo alemão logo após a derrota do país na guerra, inflamam paixões e suscitam curiosidades acerca das razões daquele gesto e daquela inesperada visita.

O roteiro, adaptado por Kenneth Chisholm, se baseia na peça ‘Broken Lullaby’ [‘Não Mataras’], do dramaturgo e poeta francês Maurice Ronstand (1891-1968), que já havia sido levada ao cinema em 1932 pelo ator e diretor de cinema alemão Ernst Lubitsch (1892-1947), conhecido pelas comédias musicais ‘The Love Parade’ (1929), ‘Monte Carlo’ (1930) e ‘The Smiling Lieutenant’ (1931), consideradas obras-primas do gênero, além do icônico ‘Ninotchka’ (1939), estrelado por Greta Gabor.

Apesar de nascido em Berlim, Lubitsch teve seus maiores sucessos profissionais em Hollywood, para onde emigrou em 1922. Tornou-se mundialmente conhecido como produtor e diretor de sofisticadas comédias e, a partir da introdução do som no cinema, de musicais aclamados pelo público e pela crítica. Sua única incursão dramática se deu justamente com esse filme de viés pacifista, cujo fracasso de público (provavelmente pelas cicatrizes da guerra ainda visíveis) o fez retornar definitivamente para as comédias onde se sentia mais à vontade.

As sinopses das adaptações francesa e americana se assemelham, apesar dos pontos de vista serem diametralmente opostos – Ozon pelo lado francês e Lubitsch pelo alemão. Não obstante essa particularidade genética, digamos assim, ambos foram fiéis ao espírito pacifista da peça de Ronstand – espírito esse não tão bem aceito em 1932, quanto em 2016 – além de  exaltarem os contrastes entre a França e a Alemanha do pós-guerra, expondo com grande verossimilhança a intolerância e o rancor dos sobreviventes e a difícil recuperação dos dois países.

Mas a questão central do roteiro, aquilo que realmente faz a diferença ao lembrarmos do filme, se refere ao poder que qualquer pessoa tem, mas nem sempre sabe ou consegue usar: o poder curativo  do  perdão. E daí surgem outras questões paralelas: como lidar com a culpa, os traumas da guerra, a intolerância e o forte sentimento nacionalista que surge quando as massas populares são acionadas? Todas as mentiras são ruins e causam danos ou há mentiras necessárias, mentiras que precisam ser mantidas, pois conservam segredos cuja revelação causaria mais sofrimento?

“Frantz” teve 11 indicações ao César 2017, incluindo as de melhor filme, melhor diretor, melhor ator e o de melhor roteiro adaptado, além de ter sido selecionado para exibição em diversos festivais de cinema pelo mundo. A jovem atriz alemã Paula Beer, com apenas 21 anos, destaque no papel de Anna, a  protagonista de “Frantz”, conquistou o Prêmio Marcello Mastroianni no Festival de Veneza de 2016 (prêmio criado em 1998, em homenagem ao ator italiano falecido em 1996, para valorizar os atores desconhecidos que se destacaram naquele período).

Além do elenco, que contou com grandes talentos jovens, tanto do lado francês, quanto do alemão, o filme apresenta características peculiares, como diálogos bilíngues: em francês e em alemão (com destaque para as dificuldades das pessoas que precisavam se entender) e o uso do P&B e do colorido, conforme o clima da cena, numa espécie de arco-íris ao fim da chuva, com efeitos surpreendentemente harmoniosos.

As mudanças de tonalidade das cenas são muito sutis, num movimento suave e mágico, envolvendo-nos no clima que virá, antevendo a alternância dos ambientes físico e mental das cenas e dos personagens. Esse recurso cinematográfico, aliás, se mostra particularmente interessante quando as cenas se passam ao ar livre ou nos passeios pelo Louvre ou então pelos ambientes mais sofisticados, onde o colorido realça a vida que pulsa e o futuro que se vislumbra, longe das dores e lembranças da guerra.

 

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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