Críticas Lucinha no Cinema

Incompreendida

Que tipo de pais vocês são ou gostariam de ser? Na verdade, a função parental tem variado ao longo dos tempos, não só em razão dos grupos culturais, como da personalidade e filosofia de vida dos envolvidos. Depois de muitos artigos acadêmicos e outras tantas entrevistas com pais e crianças, os estudiosos da questão chegaram ao consenso de que há quatro grupos distintos de pais. A diferença residiria na forma como se exprime a autoridade e no grau de afabilidade e tolerância para com os filhos. Simplificando, haveria os autoritários, que são tidos como exigentes e não compreensíveis; os democráticos, exigentes e compreensivos; os permissivos, compreensivos e não exigentes e os negligentes, que nem são exigentes, nem compreensivos. Antigamente, predominavam os autoritários. Hoje, talvez para não repetir os erros de seus pais, os permissivos se fazem mais presentes.

O estilo parental mais nocivo e, infelizmente, também o mais frequente nos consultórios dos psicólogos é o dos pais negligentes. E não se entenda como negligência os maus tratos ou abandono. Pais negligentes são mais comuns do que se imagina. São confusos, não sabem como agir, permitem quase tudo e raramente dedicam parte do dia para ficar com seus filhos. Centrados em si próprios, são egoístas, muitas vezes se escondem no trabalho ou delegam suas funções parentais às escolas e professores.

No lado real da vida, uma simples passada de olhos pelas notícias do dia a dia mostra o aumento expressivo da violência no país e no mundo. E aí surge a pergunta que não quer calar: estariam os pais mais negligentes? Tirando as questões ligadas ao terrorismo ou aquelas decorrentes dos problemas fora do controle razoável da razão e do bom senso, como o caso dos doentes mentais ou psicopatas, parece que o mundo anda cheio de mágoas e ressentimentos. Até que ponto, dificuldades de relacionamento, depressão e baixa autoestima são características herdadas ou decorrentes da negligência parental?

E esta é justamente a questão tratada no drama ‘Incompreendida’ [Incompresa], o novo longa da diretora Asia Argento, nascida Aria Maria Vittoria Rossa Argento, atriz, cantora, modelo, roteirista e diretora italiana de 40 anos, filha do cultuado cineasta italiano Dario Argento, um dos precursores dos filmes de ‘terror moderno’ na Itália, e da atriz Daria Nicolodi. Representação da rebeldia em pessoa, fugiu de casa aos 14 anos e foi a mais jovem diretora de cinema de seu país. Indicada e premiada mais de uma vez por seus trabalhos no cinema, ela estrelou três filmes no Festival de Cannes de 2007: ‘Old Mistress’, ‘Boarding Gate’ e ‘Go GoTales’. Em trinta anos de carreira, atuou em mais de quarenta e seis longas, curtas, séries e vídeos, além de ter roteirizado e dirigido ‘Scarlet Diva’ (2000) e ‘The Heart is Deceitful above all things’ (2004).

Nesta nova empreitada, uma espécie de filme autobiográfico, Asia parece, enfim, ter conseguido soltar seu grito de socorro. Em meio a um violento divórcio, os pais irresponsáveis e egoístas (interpretados por Gabriel Garbo e Charlotte Gainsbourg) de Aria (Giulia Salerno) estão preocupados demais com suas carreiras e casos extra-conjugais para cuidar adequadamente das necessidades da filha de nove anos. Enquanto suas duas irmãs mais velhas são mimadas, Aria é tratada com fria indiferença. No entanto, ela deseja amar e ser amada. Na escola, Aria se destaca academicamente, mas é considerada desajustada e mal compreendida por todos. Expulsa da casa de ambos os pais, abandonada por todos, até mesmo por sua melhor amiga, Aria vagueia pela cidade com sua mochila e seu gato preto, tentando preservar a sua inocência da falta de esperança.

Apesar do ótimo elenco e do tema, atual, relevante e efetivamente carente de discussões, o filme não atinge um bom nível de realização. Na verdade, fica a impressão que Asia queria exorcizar todos os seus demônios ao longo dos 103 minutos de duração do filme. Fica a impressão de que Asia foi com muita sede ao pote. Ela não assume, por outro lado, que se trate efetivamente de sua vida real. Diz que alguns fatos podem ter sido vividos por ela, outros, no entanto, seriam simplesmente vistos, mesmo com todas as coincidências da protagonista Aria com a rebelde, sofrida e abandonada Asia em sua infância. Até os nomes são os mesmos, considerando-se que seus pais teriam tentado registrá-la como Asia, nome não aceito pelo cartório, mas utilizado artisticamente. O roteiro não conseguiu criar um personagem crível, criou somente o estereótipo de uma menina negligenciada pelos pais, que vive todos os dramas de uma infância difícil em tempo recorde. Os problemas estão ali, um depois do outro, num verdadeiro melodrama, com muita ironia, humor negro e doses controladas de sexo, drogas e ‘rock’n’ roll’, como numa espécie de ‘sketch’ da infância perdida.

A própria Asia Argento teria afirmado em entrevistas, que nunca atuou por ambição, mas para chamar a atenção de seu pai, consagrado diretor italiano. Apesar de ter trabalhado desde os nove anos, somente aos dezesseis foi dirigida por Dario Argento, que só se revelava na função paterna como diretor em ação. E ela tinha, ainda, que competir com todo o pessoal do ‘set’, compartilhando sua intimidade para receber a atenção de seu pai. Ao final de ‘Incompreendida’, Asia faz ainda um último apelo, quase uma mensagem aos pais, invocando o conselho dado pelo Papa João XXIII – “Quando você voltar para casa, encontrará seus filhos: dê carinho a eles”.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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