Críticas Lucinha no Cinema

Indignação

Indignação: sentimento de cólera, de desprezo ou de frustração,
experimentado diante de uma afronta, uma injustiça, uma ofensa.

Ultimamente, parecem sobrar motivos para as pessoas se sentirem indignadas. Algumas depredam, outras saqueiam, outras cospem nas que lhes desagradam. Tem gente que, decididamente, não leva desaforo para casa, não consegue ficar calado diante de uma afronta, um confronto, uma crítica. Felizmente há uns e outros. E uns têm mais dificuldades em lidar com seus próprios sentimentos e os dos outros, interpretando equivocadamente os fatos e suas consequências e, por isso, assumindo riscos que não deveriam.

E esses indivíduos, que provavelmente se diriam indignados com o comportamento alheio – e até poderiam ter um alto índice de inteligência, o conhecido QI, tão badalado entre os nerds – talvez careçam de um outro tipo de inteligência, do tipo que poderia lhes permitir viver com menos dificuldades, adaptando-se sempre que necessário: a chamada inteligência emocional ou social, indicada por estudiosos do comportamento humano como a responsável pelo sucesso ou fracasso dos indivíduos na vida em sociedade.

A literatura mundial tem criado, em profusão, personagens desprovidos da tal inteligência emocional, vivendo tipos perfeitamente inadaptados à convivência social, assim como muitos dos indivíduos na vida real. Por conta da complexidade desses enredos, ficamos com a impressão de que os escritores percebem esses tipos na multidão, estudam seus padrões de comportamento, criam situações comprometedoras e até conseguem inseri-las em eventos e fatos históricos relevantes, em estórias incríveis, com pessoas que poderiam estar aí, do seu lado.

E um dos maiores escritores vivos do século XX, o americano Philip Roth, criou um desses personagens, o angustiado Marcus Messner, protagonista do romance ‘INDIGNAÇÃO’, que serviu de base para o roteiro do longa-metragem homônimo de James Schamus, produtor, diretor e roteirista americano, conhecido pelos roteiros de vários filmes de Ang Lee e pela produção do premiado ‘Brokeback Mountain’, entre muitos outros trabalhos bem sucedidos em Hollywood.

Nesse melodrama, Marcus Messner (Logan Lerman, da franquia ‘Percy Jackson), um jovem judeu, filho de um açougueiro kosher de Nova Jersey, é um dos recém chegados à Universidade Winesburg, em Ohio, no início da década de 1950. Entre suas novas experiências, Marcus sofrerá com anti-semitismo e repressão sexual na conservadora faculdade. Ali também terá, num breve momento, o que imagina ser a mais inesperada e complexa experiência amorosa com Olivia Hutton (Sarah Gadon), encantadora mas problemática colega.

Não há como entender a história de Marcus Messner, jovem americano que descobre a força de seu caráter para lidar com a vida adulta, ao mesmo tempo em que vê assomar a própria vulnerabilidade num país ameaçado pela guerra, sem conhecer as referências por trás de Philip Roth, cujas obras são conhecidas por refletir os problemas de assimilação e identidade dos judeus nos Estados Unidos, além de explorar a natureza do desejo sexual, da autocompreensão e do monólogo íntimo.

O roteiro, do próprio James Schamus, explora convenientemente os problemas decorrentes das questões sociais e políticas presentes naquela década. Apesar do crescimento econômico, da estabilidade e prosperidade da classe média americana depois da Segunda Guerra, muitos americanos continuavam a sofrer de discriminação racial, econômica e política. E com o acirramento da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a então URSS, teve curso mais um conflito geopolítico: a Guerra da Coreia (1950/1953), que tirou a vida de mais de um milhão de pessoas, entre as quais cerca de 60 mil americanos e seus aliados.

Mesmo conseguindo uma bolsa da comunidade judaica, Marcus Messner não ficará longe da família como planejava. Seus pais super protetores, sua mente irrequieta e rebelde, seu inconformismo juvenil e a rigidez das instituições acadêmicas ajudarão a expor as angústias e frustrações que se seguirão.

O filme parece se alongar mais do que seria necessário e algumas cenas também não se explicam conforme se sucedem, mas todo o filme vale pelos diálogos, verdadeiro confronto, entre Dean Caudwell (Tracy Letts), o fascistóide Reitor da Universidade, e o rebelde e ingênuo Marcus Messner. Naqueles diálogos, que mais se assemelham a um tribunal da inquisição, estão expostos os conflitos religiosos e sexuais da conservadora moral universitária, a hipocrisia das convenções sociais e as angústias da exclusão e da repressão.

Sempre se fala que o livro é melhor que o filme, que nem se compara, que o cinema estragou suas lembranças. Pode até ser. Para começo de conversa, são duas linguagens totalmente distintas. E quando você está lendo, você escolhe os atores, os cenários, apesar do roteiro não ser seu. Philip Roth não é um escritor de leitura fácil e são poucas as adaptações para o cinema. Com ‘Revelações’, do romance ‘A Marca Humana’, onde Nicole Kidman contracena com Anthony Hopkins e ‘O Último Ato’, do drama ‘A Humilhação’, com o poderoso Al Pacino, críticas desfavoráveis se sucederam. Agora nem tanto. Aliás, são poucos os filmes que superaram os livros, e entre esses não poderiam faltar ‘Psicose’, ‘O Iluminado’, ‘Touro Indomável’ e ‘O Poderoso Chefão’.

“Conhecer os outros é inteligência, conhecer-se a si próprio é a verdadeira sabedoria. Controlar os outros é força, controlar-se a si próprio é o verdadeiro poder.” Lao-Tsé.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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