Críticas Lucinha no Cinema

Inferno

“Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.” – Essa afirmação lhe soa familiar, um tanto ou quanto atual ? Pois acredite, também está na porta do ‘Inferno’, primeira das três partes (as outras são ‘Purgatório’ e ‘Paraíso’) da obra prima da literatura universal ‘A Divina Comédia’, escrita pelo poeta, escritor e político italiano Dante Alighieri (1265-1321).

O poema intitulava-se originalmente ‘Commedia’ (não por ser engraçado, mas porque termina bem, literalmente no ‘Paraíso’, em contraposição às Tragédias, que normalmente terminam mal para os personagens) e foi rebatizado pelo poeta e crítico literário italiano Boccaccio (‘Decamerão’) para ‘A Divina Comédia’, por conta do fascínio que a obra lhe promoveu.

‘A Divina Comédia’ é um poema alegórico, de viés épico e teológico, com propósitos filosóficos. Relata uma jornada espiritual de Dante pelos três reinos do além-túmulo, com início pelo Inferno, seguido do Purgatório, concluído no Paraíso, guiado nos dois primeiros pelo poeta romano Virgílio (símbolo da razão humana), seu mentor, e, depois, no Paraíso, pela mão da amada Beatriz (símbolo da graça divina), a quem Dante dedicou também a maior parte das canções, dos sonetos e das baladas que constituem o seu‘ Canzoniere’. Os estudiosos de Dante afirmam, sem sombra de dúvida, que seu sublime poema prende-se não só ao amor espiritual, que manteve durante toda a sua existência, por Beatriz, como também ao desejo de vingar-se de seus inimigos e de expor suas idéias políticas.

Dante, cuja importância para a língua italiana é similar à de Camões para o português, foi homenageado por grandes artistas, a partir da criação de ‘A Divina Comedia’ no século XIV, sendo fonte original para os mais variados escritores e pintores de todos os tempos, que não só escreveram como criaram ilustrações e pinturas sobre essa obra, entre os quais se destacam Botticelli, Gustave Doré, Dalí, Samuel Beckett, Boccaccio, Jorge Luis Borges, T.S. Eliot.

E eis que voltamos à Florença, terra natal de Dante, onde Robert Langdon (Tom Hanks) desperta em um hospital, com um ferimento na cabeça provocado por um tiro de raspão. Bastante grogue, ele é tratado pela Dra. Sienna Brooks (Felicity Jones), que o conheceu quando ainda era criança. Langdon não se lembra de absolutamente nada do que lhe aconteceu nas últimas 48 horas, nem mesmo a razão de estar em Florença. Subitamente, ele é atacado por uma mulher misteriosa e, com a ajuda de Sienna, escapa do local. Ela o leva até sua casa, onde trata de seu ferimento.

Logo, Langdon percebe que em seu paletó está um frasco lacrado, que apenas pode ser aberto com sua impressão digital. Nele, há um estranho artefato que dá início a uma busca incessante, através do universo de Dante Alighieri, com referências ao ‘Inferno’ da ‘Divina Comédia’, de forma a que possa entender não apenas o que lhe aconteceu, mas também o porquê de ser perseguido.

Estamos falando de ‘Inferno’, o novo longa do ator, produtor e diretor de cinema americano Ron Howard (Oscar de melhor diretor e de melhor filme de 2002 por ‘A Beautiful mind’), baseado no livro homônimo de Dan Brown. Aqui temos novamente o professor de Simbologia da Universidade de Harvard Robert Langdon, que tem que seguir uma série inquietante de códigos criada por uma mente brilhante, Bernard Zobrist (Ben Foster), geneticista bilionário, espécie de cientista transhumanista radical, obcecado, tanto pelo fim da superlotação no mundo, quanto por uma das maiores obras-primas literárias de todos os tempo: ‘A Divina Comédia’, de Dante Alighieri.

O ‘Inferno’ de Howard, assim como o de Brown, se assemelha em muito com a descrição poética de Dante, símbolo literário e síntese do pensamento medieval vivenciado pelo poeta, com suas alegorias de personagens angustiados em ambientes claustrofóbicos e desoladores. As preocupações de Zobrist, assim como as de seus seguidores, nos levam aos temores e soluções manifestados por Malthus no final do século XVIII, de que a defasagem entre população e alimentos deveria ser solucionada com a ‘sujeição moral’, ou abstinência voluntária dos desejos sexuais, e consequente redução da natalidade.

Felizmente, as teorias demográficas de Malthus foram desmentidas no século XX, não só pelo progresso tecnológico incorporado à produção agrícola, como pela queda do crescimento populacional desde então. Mas, parece que temos um novo olhar crítico sobre a condição humana. E muitos roteiros de cinema já exploraram largamente essas idéias em ficções científicas (‘2001-Uma Odisseia no Espaço’, ‘Blade Runner’, ‘Gattaca’ e ‘Ex-Machina’) ou especulações futuristas no estilo transhumanista moderno, como o romance- suspense de Dan Brown ‘Inferno’.

Transhumanismo seria um movimento internacional e intelectual que visa transformar a condição humana, estudando os benefícios e perigos potenciais das tecnologias emergentes que poderiam superar as limitações humanas, assim como as implicações éticas envolvidas em desenvolver e usar tuas tecnologias. A origem do termo é atribuída a Julian Huxley, irmão do escritor Aldous Huxley, autor do famoso ‘Admirável Mundo Novo’, uma visão futurista interpretada como ‘a nova ordem mundial’.

Há quem critique ‘Inferno’ dizendo que se tornou um filme de ação, explorando a curiosidade histórica de personalidades ligadas à história da arte ou da literatura universal. E o interessante, é que são esses mesmos argumentos que valorizam o filme. Além disso, fazer um roteiro por Florença, Istambul ou Veneza não é de todo perda de tempo. Contar, ainda, com um elenco estelar, numa miríade étnica e cultural de excelência internacional, com atores da estirpe de Tom Hanks, Ben Foster, Felicity Jones, Omar Sy, Sidse Babett Knudsen ou Irrfan Khan é absolutamente divino!

Melhorar a condição humana seria necessário e até desejável, como condição de sobrevivência do ser humano. Mas devemos aceitar qualquer interferência, inclusive a eugenia como objetivo final da evolução humana ? Estaria Zobrist correto em dizer, assim como os atingidos pela peste, que: ‘A verdade só pode ser vislumbrada através dos olhos da morte?’

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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