Críticas Lucinha no Cinema

Jogo do dinheiro

Jornalismo ou sensacionalismo, eis a questão? A fila da concorrência anda, na verdade, corre. Não há espaço para o fracasso. A audiência atrai o anunciante, que escolhe o programa, que atrai a audiência, que… Eis o círculo vicioso que se torna virtuoso quando todos saem ganhando. E quando isso acontece? Às vezes, muitas vezes, depende da ética de quem está no comando, certamente.

Mas, não basta ter ética. Televisão precisa também de informação, talento, carisma, personagens e estórias que comovam. E é nesse tipo de estória que Jodie Foster, a diretora de cinema, faz sua atual aposta. Com seu quarto filme, ‘Jogo do dinheiro’, drama policial e de suspense do momento, ela atrai, assusta, intriga, entretém, questiona.

O filme tem um pouco de tudo que faz sucesso: ação, suspense, ironia, humor, atualidade. E tem ainda um elenco de primeira, com George Clooney, como Lee Gates, o astro de ‘Money Monster’, apresentador vaidoso, carismático, sensacionalista. Tem também Julia Roberts, no papel da diretora do tal programa de investimentos financeiros, profissional independente, aparentemente preocupada com as questões do mercado, mas ciente das sutilezas da audiência. E nesse jogo de informação e show business, quem será responsabilizado pelas perdas do uso inadequado da informação?

Depois de recomendar as ações de uma empresa, que misteriosamente entram em colapso, Lee Gates é feito refém de um irado investidor, Kyle Budwell (Jack O’Connell), juntamente com sua equipe, durante uma transmissão ao vivo do programa. Com os desdobramentos transmitidos em tempo real, Gates e Fenn precisam encontrar uma maneira de se manterem vivos, enquanto buscam desvendar a verdade por trás de um emaranhado de mentiras e muito dinheiro em jogo.

Ao final e ao cabo, não basta ter ética, seriedade e talento. A ganância e a corrupção podem atingir pessoas distantes, inocentes ou culpadas, mas ligadas por interesses comuns. E usar a tecnologia como bode expiatório é sempre tentador. Além disso, por que não culpar também a mídia? Afinal, ela é responsável por ganhar com isso! Por divulgar as notícias! Por fornecer os dados conforme lhe convém! Será ? Qual é mesmo o papel da imprensa? A quem interessa difamar a imprensa? Quem é o verdadeiro vilão nessa estória?

Como disse o tal mega investidor, Walt Camby (Dominic West), quando muitos estavam ganhando, ninguém se lembrou que no mercado há dois lados e sempre que um ganha outro perde. Aliás, o tal do capitalismo selvagem, que na realidade não passa de um grande e terrível pesadelo dos comunistas, não existe como um fim em si mesmo. E a tão questionada globalização, convenhamos, é uma decorrência da vida que segue, da tecnologia que surge, das necessidades que urgem. E, como têm nos mostrado os recentes fracassos políticos dos regimes totalitários, o controle centralizado da atividade econômica é sempre acompanhado de repressão política. Então, se o capitalismo não é perfeito, seus sucedâneos são terríveis!

Se há um senão nesse roteiro, esse é sem dúvida seu final. Ele não é totalmente previsível, mas acabou por facilitar o final da estória da Jodie Foster. Para uma análise mais madura e quiçá, atual, um final diferente teria efeitos surpreendentes e renovadores, tanto na ética jornalística, quanto na de mercado. Mas, o filme é dela e temos que respeitar.

Nas palavras de George Clooney, o filme se explica muito bem: ‘Nós nos acostumamos a ter um idiota qualquer, dizendo na televisão onde investir, fazendo pessoas perderem dinheiro na vida real. ‘Jogo do dinheiro’ reflete a que ponto chegamos. Os noticiários deixaram de ser feitos para informar, sem pensar em ganhar dinheiro, para se tornar parte da programação de entretenimento e, assim, faturar. O mundo do dinheiro ficou fora de controle. Quando as coisas vão mal, você realmente não entende o que é que deu errado, e o cidadão comum se ferra.’ É isso, não podemos acreditar em tudo o que se ouve ou o que se vê.

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Sobre o Autor

Lucia Sivolella Wendling

Lucia Sivolella Wendling

Advogada e escreve sobre cinema de todos os tempos.
Frase que a inspira: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você" (Jean-Paul Sartre)

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